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ITV portuguesa combate COVID-19

Numa altura em que foi decretado o estado de emergência em Portugal, a indústria têxtil e vestuário nacional está a enfrentar novos desafios, ao mesmo tempo que dá o seu contributo para mitigar o impacto da pandemia no nosso país, através da adaptação da sua produção a artigos para o sector da saúde.

De acordo com o mais recente relatório da Direção Geral de Saúde, de 24 de março, em Portugal contabilizam-se 2.362 casos confirmados de infeção pelo vírus, havendo ainda 15.474 casos suspeitos e um total de 11.482 contactos em vigilância pelas autoridades de saúde. O aumento, já previsto, do número de infetados levou o Presidente da República, apoiado pelo Governo, a decretar o estado de emergência, que entrou em vigor na madrugada de 18 de março, com o decreto governamental a ser publicado no dia 20 de março.

Antes disso, contudo, já a indústria têxtil e vestuário portuguesa tinha começado a reunir esforços para ajudar no combate à pandemia. Em resposta a um desafio da ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção, Calvelex, Lameirinho, Paulo de Oliveira, Polopique e Riopele alocaram recursos técnicos, produtivos e também financeiros para produzir equipamentos de proteção individual que serão disponibilizados aos hospitais do Sistema Nacional de Saúde (SNS).

Riopele

«Estas empresas foram as primeiras a responder positivamente ao desafio, mas outras estarão em condições também de o fazer. Esperamos que, com o esforço de todos, seja possível reduzir o impacto desta pandemia na nossa sociedade», afirmou, ao Portugal Têxtil, César Araújo, presidente da ANIVEC. As primeiras 200 batas foram já entregues ao Hospital de Guimarães.

A Lasa, por seu lado, doou roupa de cama e banho ao Hospital de Braga, o mesmo tendo acontecido com a Sorema, que ofereceu toalhas de banho em falta para a mesma instituição.

Também a Sonix respondeu ao apelo dos profissionais e instituições de saúde e, de acordo com a sua página do Facebook, já entregou parcialmente cerca de 2.000 conjuntos para equipas, anunciando que «durante esta semana, agora com todos os apoios externos, contaremos estar em condições de produzir bem mais materiais que na semana passada». A empresa, que está igualmente a produzir gel desinfetante nas instalações da Success Gadget, lançou ainda um pedido «a todas as empresas e profissionais têxteis que possam apoiar, de qualquer forma (mão-de-obra, matérias-primas, etc.), para que seja possível minimizar estas situações e dar, dentro do possível, melhores condições a estes heróis que lutam diariamente para nos salvarem da tragédia que todos vivemos».

Num trabalho conjunto com a ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, o CITEVE, alertando para o facto deste tipo de artigos, nomeadamente as máscaras, terem de cumprir parâmetros rigorosos para serem eficazes, está a preparar um dossier técnico com as especificações de cada peça.

Lusa

«Quando estamos a falar de máscaras, estamos a falar de coisas muito específicas, com licenças (…) é necessário fazer as devidas verificações para que o produto final corresponda ao nível de segurança que é pretendido, esse tem sido o nosso trabalho: ajudar as empresas a ter a certeza de que aquilo que estão a fazer está a ser bem feito e que não vai ter um efeito contraproducente nos cidadãos”, explicou, citado pelo ECO, António Braz Costa, diretor-geral do centro tecnológico.

«Centenas de empresas disponibilizaram-se para fazer [equipamentos de proteção] de forma gratuita», afirmou à Lusa Mário Jorge Machado, presidente da ATP, classificando como «avassaladora» a resposta do sector. Segundo Braz Costa, houve já «cerca de 100 manifestações de disponibilidade de empresas para colaborar».

Esforço coletivo

O surto do vírus, que teve como foco primário a cidade de Wuhan, na China, foi considerado pandemia pela Organização Mundial de Saúde no passado dia 11 de março e, a 13 de março, a Europa foi declarada como o novo epicentro do COVID-19.

A seguir à China, que contabiliza 81.171 casos confirmados, dos quais mais de 73.100 recuperados, é Itália o país mais afetado pelo COVID-19, contabilizando neste momento quase 64 mil casos confirmados, com apenas 7.432 recuperados. Também em Espanha a situação é preocupante, com quase 40 mil casos confirmados, o mesmo acontecendo na Alemanha, que regista mais de 30 mil casos confirmados, dos quais 453 recuperados.

Face à disseminação do vírus, e à escassez de artigos como ventiladores, máscaras e equipamentos de proteção individual para lidar com a pandemia, diversas indústrias estão a ser recrutadas ou a voluntariar-se para contribuir.

Em Espanha, após o contacto do Ministério da Indústria com o patronato para sondar a possibilidade de usar as empresas da indústria da moda como fornecedoras de máscaras, pijamas ou vestuário descartável, mais de 100 empresas, entre elas a gigante Textil Santanderina, já puseram ao dispor das autoridades a sua capacidade produtiva, indicou a Moda.es. Também a Inditex colocou à disposição a sua cadeia de aprovisionamento para responder às necessidades espanholas de máscaras de proteção, luvas, óculos e toucas.

Por seu lado, o grupo francês LVMH anunciou que irá usar as suas linhas de produção de perfumes e cosméticos para produzir gel desinfetante, que será «distribuído gratuitamente às autoridades de saúde», referiu em comunicado. Já as marcas Saint Laurent e Balenciaga, do grupo Kering, anunciaram no passado domingo que vão começar a produzir máscaras nos seus ateliers. Esta produção irá somar-se à importação de 3 milhões de máscaras cirúrgicas da China que o Kering irá oferecer aos serviços públicos de saúde em França.

Foto Pedro Correia Global Imagens

Na fast fashion, a H&M está a mobilizar a sua cadeia de aprovisionamento para entregar vestuário de proteção em hospitais da União Europeia. «A União Europeia pediu-nos para partilharmos as nossas capacidades de logística e compras para aprovisionar artigos, mas nesta fase inicial urgente, vamos doar os produtos», explicou uma porta-voz da H&M num email citado pela Reuters.

O governo de Boris Johnson está a reunir-se com empresas como a Rolls-Royce para que passem a produzir ventiladores nas suas linhas de montagem, segundo avançou o jornal Telegraph, enquanto nos EUA, Elon Musk, inicialmente relutante quanto à dimensão da pandemia, comprometeu-se a entregar mais de 1.000 ventiladores na próxima semana e a oferecer 250 mil máscaras. O CEO da Apple, Tim Cook, e o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, também anunciaram que vão doar máscaras: pelo menos 2 milhões, no primeiro caso, e milhões no segundo caso, sendo que 720 mil destas já terão sido entregues.

Impacto no consumo

A quarentena em dezenas de países, com centenas de milhões de pessoas em reclusão, e os vários meses que já conta – começou em dezembro do ano passado na China e já chegou a todos os continentes – está a impactar fortemente a venda de vestuário.

A Burberry revelou que as vendas nas últimas semanas de março deverão cair até 80%, levando a uma quebra de 30% no quarto trimestre do ano fiscal, ao passo que a Hugo Boss abandonou as previsões para 2020 fornecidas a 5 de março, explicando que o impacto do novo coronavírus é, atualmente, impossível de quantificar.

Zara

A britânica Marks & Spencer advertiu que as vendas de vestuário e artigos para a casa deverão ressentir-se profundamente nos próximos nove a 12 meses, tendo reduzido as encomendas aos seus fornecedores em 100 milhões de libras (cerca 107,5 milhões de euros). De igual forma, a Associated British Foods encerrou, desde domingo passado, as suas 189 lojas Primark, tendo já cancelado todas as novas encomendas aos seus fornecedores.

A Inditex, por seu lado, informou de uma queda de 24,1% nas vendas nas primeiras duas semanas de março, ao passo que a H&M deu conta do impacto negativo do COVID-19 no primeiro trimestre, nomeadamente na China, onde as vendas desceram 24%, e na Europa.

Medidas governamentais

Para apoiar as empresas portuguesas nesta altura e no futuro próximo com a previsível diminuição de encomendas e também com as restrições ao nível da mão de obra, provocada, entre outras, pela assistência aos filhos, uma vez que as escolas estão fechadas pelo menos até 9 de abril, o Governo português lançou um conjunto de medidas, entre as quais a antecipação dos pagamentos dos incentivos no âmbito do Portugal 2020 e um regime de lay-off simplificado para as empresas afetadas severamente pela pandemia. Segundo a Ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, para aceder a este mecanismo terá de haver «uma quebra de vendas superior a 40% e, nestas situações, teremos um regime simplificado de lay-off ao qual se pode acumular também um processo especial de formação dos trabalhadores. Prevemos a possibilidade extraordinária de, durante o período de lay-off, as entidades empregadoras ficarem isentas de TSU».

Pedro Siza Vieira e Mário Centeno

Ao nível das indústrias têxtil, de vestuário, de calçado, extrativas e da fileira da madeira vão ser disponibilizadas linhas de crédito no valor de 1.300 milhões de euros, dos quais 400 milhões de euros para micro e pequenas empresas, com um período de carência até ao final do ano e amortização em quatro anos. O objetivo, explicou o Ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira, numa intervenção conjunta com o Ministro de Estado e das Finanças, Mário Centeno, no passado dia 18 de março, é «assegurar que, nestes tempos difíceis, as empresas dispõem da liquidez suficiente para fazerem face aos compromissos quando as receitas estão em queda». Segundo Pedro Siza Vieira, «preservar a capacidade produtiva das empresas, particularmente das pequenas e médias, e proteger o emprego é o objetivo» das diversas medidas anunciadas, incluindo ao nível fiscal, mas «elas não terão efeito se empresas e trabalhadores não as aproveitarem, se as empresas não preservarem a sua capacidade produtiva e não protegerem o emprego e o rendimento dos portugueses».