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ITV preparada para 2021

Empresas como a Endutex, a Paulo de Oliveira, a Tintex, a Inovafil, a JF Almeida e a Twintex sentiram na pele os desafios de 2020 e encerraram o ano abaixo do que esperavam em janeiro de 2020. Mas, apesar da incerteza que ainda paira, estão, no geral, confiantes num ano de 2021 melhor.

«Um ano difícil». É assim que Vítor Abreu, CEO da Endutex, classifica 2020, apesar da empresa especialista em revestimentos ter-se saído «minimamente bem» nos últimos 12 meses. «A Endutex, sendo uma empresa muito diversificada em termos de produto e em termos de destino dos nossos produtos e clientes, conseguiu minimamente equilibrar o funcionamento da empresa», explica ao Jornal Têxtil, acrescentando que no volume de negócios «só a metro», a empresa terá ficado «ligeiramente abaixo do ano passado», mas «se somarmos ao volume a metro a nossa componente de negócio de algum produto confecionado, que entregamos ao cliente, estamos ligeiramente acima» de 2019.

A Endutex apostou no desenvolvimento de novos produtos, incluindo um tecido antibacteriano para utilização em equipamentos de proteção individual reutilizáveis para profissionais da saúde. «Funcionou muito bem, posso dizer que foi uma das nossas boias durante este período difícil que estamos a atravessar. Foi, efetivamente, um campeão de vendas e deu-nos especial prazer, porque foi um produto desenvolvido especificamente já a pensar na pandemia», revela Vítor Abreu.

Vítor Abreu (Endutex)

No final de novembro, as vendas deste tipo de produtos «decresceram muito, apesar de continuarmos em período de pandemia», indica o CEO da Endutex, que, por isso, põe em causa a tão falada reindustrialização. «Comprar mais perto do consumidor, não depender dos tradicionais centros de apoio ou de fornecimento funcionou, e muito bem, numa emergência, mas depois voltamos às cadeias de valor tradicionais. O preço é soberano», salienta.

Na Paulo de Oliveira, os últimos tempos não têm sido fáceis e, depois da recuperação em setembro, já se sente novamente os efeitos da pandemia na economia e na atividade do grupo, que emprega 1.200 pessoas. «Em termos de mercado tem sido um ziguezague. Houve uma fase difícil durante março e abril, depois melhorou, sem nunca chegar aos valores habituais mas melhorou, setembro já foi um mês razoável, outubro começou a piorar e agora está parado», assegura Paulo Augusto Oliveira.

Uma situação que preocupa o administrador, apesar da solidez do grupo especializado em lanifícios. «A principal força que temos é não ter dívida bancária, o grupo é sólido financeiramente e, portanto, se tivermos uma série de meses – e vamos ter seguramente – em que vamos estar a perder dinheiro, não vai ser isso que nos vai atirar abaixo», garante.

Paulo Augusto Oliveira (Paulo de Oliveira)

Na análise ao sector, «vai haver muitas empresas que fizeram investimentos grandes, que estavam alavancadas, que vão eventualmente nesta primeira fase das moratórias ainda conseguir ir subsistindo, mas depois vão ter uma dificuldade grande», admite Paulo Augusto Oliveira. Além disso, «a têxtil neste momento não está a funcionar só a uma velocidade, está a funcionar a diferentes velocidades: a parte mais formal está mais parada do que a parte mais ligada ao vestuário que usamos em casa, porque há muita gente que está confinada. Também há uma diferença entre o que se pode comprar online e o que se tem que ir comprar à loja. O fato, por exemplo, não se vende online, portanto há produtos que estão a sofrer mais que outros e nós estamos exatamente no segmento que está mais afetado, porque não se vende online, porque é vestuário formal e não há casamentos, não há batizados, não há eventos. Não se está a comprar fatos, portanto, o nosso segmento, neste momento, está em crise», reconhece o administrador da Paulo de Oliveira. No entanto, ressalva, «a nossa empresa também tem outros segmentos, não é só o vestuário formal, portanto se calhar não estamos tão mal como alguns que estão dependentes exclusivamente do formal. Mas não está fácil».

Ricardo Silva (Tintex)

Estes altos e baixos foram igualmente sentidos pela Tintex. «Na primeira vaga conseguimos compensar a queda abrupta da moda com as máscaras. Em setembro voltou a moda, houve um pico ascendente do negócio tradicional até outubro e atualmente continua mais ou menos nesse patamar. Nota-se uma descida agora no fim do ano, mas é normal», adianta Ricardo Silva.

Para o ano completo, a especialista em malhas antecipa uma redução «entre 10% e 15%» no volume de negócios. «Não conseguimos compensar o atraso todo [do início do ano]», assume o administrador, que não deixa de realçar a incerteza que se vive no sector. «O que me preocupa são os próximos meses. Com a segunda vaga, o que vai acontecer? Vai provavelmente haver uma recaída, como houve nos meses de março, abril, maio e junho. Não sabemos», confessa.

Mais a montante na cadeia de valor, Rui Martins, CEO da Inovafil, faz um balanço de 2020 «positivo, tendo em conta as circunstâncias». «Após um início de ano promissor, sofremos da paragem da economia aliada a um grau de incerteza extraordinariamente elevado no mercado. No pós férias, em setembro, o mercado reagiu, com um aumento da procura e consequentemente do volume de encomendas», conta. Em suma, «foi um ano desafiante a vários níveis, um ano que testou, mais uma vez, a capacidade de resiliência das empresas», sustenta o CEO, que, em linha com Vítor Abreu, também espera «que na Europa se retirem algumas lições e que isso gere uma aposta séria na sua reindustrialização, diminuindo, desta forma, a dependência da Ásia, algo que ficou bem patente ao longo deste período».

Rui Martins (Inovafil)

No caso da JF Almeida, os resultados acabaram por ser melhores do que as expectativas em meados do ano. «A JF Almeida perspetivava uma quebra de 30% no volume de negócios em plena pandemia», revela Juliana Almeida, administradora da empresa de têxteis-lar. «Mas o mercado animou e conseguimos ultrapassar a faturação de 2019. Foi um ano bom dentro desta crise. O Covid fez-nos olhar para dentro da estrutura, ver o que podíamos fazer em plena crise e conseguimos moldar-nos, fazendo outro tipo de produtos para outras áreas. Às vezes as crises trazem coisas boas às empresas», elucida.

Já no final da cadeia, a produção de vestuário foi fortemente impactada, como testemunha Bruno Mineiro. «A Twintex tinha em 2019 um forecast bastante positivo para 2020, pois a juntar a um crescimento dos clientes residentes, aconteceu o arranque de uma nova franja de clientes, que se somariam aos números de 2020. O plano sofreu, no entanto, um enorme revés com a entrada da pandemia, que afetou transversalmente os nossos clientes, com reduções percentuais entre os 20% e os 50%», assevera o administrador. «Assim sendo, aquele que seria um ano de crescimento acabou por ser um ano de redução do volume de negócios», resume.

Além das preocupações com a saúde e bem-estar dos trabalhadores, que implicou a implementação de um protocolo de segurança desde o final de fevereiro, «a intermitência no abastecimento das matérias primas foi outro dos fatores que mais nos prejudicou, obrigando a sistemáticos improvisos, bem diferentes do profissionalismo planeado da Twintex», esclarece Bruno Mineiro.

A empresa, contudo, identifica oportunidades para o futuro, nomeadamente «a crescente vontade de consumo que está a crescer nos mercados, em particular nas lojas físicas. Notamos que os clientes sentem falta da experiência física a acompanhar a compra, pelo que é de esperar que esta forma de comércio registe crescimento na descolagem da pandemia», destaca o administrador da Twintex, que considera ainda «que termos os satélites da sustentabilidade e social compliance alinhados também serão vantagens competitivas no arranque depois da pandemia».

Juliana Almeida (JF Almeida)

Para 2021, Bruno Mineiro mostra-se otimista. «A nossa convicção é de que assistiremos a uma inversão de tendência de queda com a coleção FW21. Esta inversão dever-se-á em grande parte ao arranque efetivo da vacina, que reforçará a confiança dos consumidores, somada ao facto de que se começa a notar uma vontade de compra, fruto do “colete de forças” que o mundo vem tendo nos últimos 12 meses», afirma o administrador da Twintex, que olha para o próximo ano «com confiança, na expectativa clara de que chegaremos a dezembro bem melhor do que partimos em janeiro».

Também o CEO da Inovafil espera que este ano «represente o regresso gradual à “normalidade” das nossas vidas, com a retoma da atividade económica e restabelecimento da confiança, para que novos projetos e investimentos possam surgir» e na JF Almeida a expectativa é de «um bom ano».

Bruno Mineiro (Twintex)

Paulo Augusto Oliveira é menos otimista. «Vai ser o ano mais complicado, porque, no caso concreto das nossas empresas, estávamos com um crescimento grande até final de fevereiro, com quase 30% de crescimento nas vendas, o que era muitíssimo bom. Tudo indicava que íamos ter um ano muito bom, portanto quando veio a crise, estávamos de barriga cheia. Agora a segunda vaga já nos apanhou de dieta e em 2021, penso eu, as compras vão ser muito limitadas porque as lojas não escoaram stocks e continuam com dificuldades em escoar stocks. E enquanto não escoarem stocks, não vão comprar, portanto vai ser um ano difícil», prevê o administrador da Paulo de Oliveira.

«Quero acreditar que a questão da vacina será um fator de viragem e por isso é que conto os dias até que a vacina seja uma realidade», refere, por seu lado, Vítor Abreu. «Não me passa pela cabeça que 2021 não seja muito melhor do que 2020 e que as pessoas, quer a nível pessoal, quer a nível de negócio, possam retomar alguma normalidade, porque isto cansa, isto deprime e nós, nas empresas, também somos pessoas da sociedade. Por isso, estou otimista para 2021», conclui o CEO da Endutex.