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ITV turca otimista para 2017

Depois de uma série de contratempos no ano passado, incluindo agitação política e social, ataques terroristas e a utilização de refugiados sírios ilegais, a indústria têxtil e vestuário da Turquia está otimista e acredita que 2017 será um ano melhor para o negócio.

A guerra na Síria e no Iraque, as sanções russas após o abate do jato russo na fronteira entre a Turquia e a Síria, a “limpeza” após uma alegada tentativa de golpe de estado em julho e uma série de ataques terroristas, incluindo uma bomba no aeroporto Ataturk em Istambul, que matou 41 pessoas a 29 de junho, foram apenas alguns dos episódios que abalaram a Turquia e, consequentemente, os empresários da indústria têxtil e vestuário em 2016.

Para o sector do vestuário, uma queda nas exportações – em comparação com o pico de 18,5 mil milhões de dólares (cerca de 17,6 mil milhões de euros) em 2014, para cerca de 17 mil milhões de dólares em 2016 foi um problema, juntamente com a questão dos refugiados ilegais sírios a trabalhar em fábricas turcas que fornecem marcas e retalhistas europeus.

Contudo, apesar da incerteza que continua a pairar e a influenciar o investimento e as decisões de marketing, assim como a procura externa – incluindo um referendo constitucional em abril –, as associações e os líderes da indústria têxtil e vestuário turca afirmam que o sector continua forte em termos estruturais e que tem ainda um grande potencial de crescimento.

Nos fios, por exemplo, a Turquia é a principal fornecedora da Europa e está no top 3 em termos mundiais. Em 2015, representou 16,7% das importações têxteis da UE e 11,7% das importações de vestuário.

Os expositores na feira Istanbul Yarn Fair, que se realizou de 2 a 5 de fevereiro, mostraram-se bastante otimistas, de acordo com o just-style.com. Há esperança que as negociações internacionais possam pôr fim à guerra na Síria. Os compradores russos estão a regressar. As exportações estão a aumentar para mercados como Irão, EUA, Argélia, Israel, Polónia e Bulgária. Está em negociação um acordo de comércio livre com o Paquistão. E a desvalorização da lira turca – que caiu para o valor mais baixo de sempre, com um dólar a valer 3,93 liras – está a tornar as exportações mais fáceis.

Além disso, um grupo de investidores têxteis está a planear um enorme investimento para criar a primeira fábrica de fibra de viscose no país, com as possíveis localizações a incluírem Izmir e Kocaeli. A Turquia importa atualmente 500 milhões de dólares de fibra de viscose por ano, e as notícias afirmam que a nova unidade pode ter uma capacidade inicial de 250 mil toneladas, com potencial para aumentar até às 500 mil toneladas.

O mercado interno está também a desenvolver-se bem. Seret Fayat, presidente da Associação de Produtores de Vestuário da Turquia prevê que em 2017 o mercado interno cresça 810%.

Embora muitos visitantes estrangeiros tenham cancelado as suas visitas habituais a feiras e fornecedores na Turquia, as associações turcas de têxteis e vestuário mostram-se proativas e encontram-se com eles nos seus países de origem. Em janeiro, organizaram uma reunião de criação de confiança com os seus homólogos em Paris e em Bruxelas e estão agora a preparar viagens semelhantes ao Reino Unido, Alemanha e Itália.

Grandes ambições

Ismail Gülle, presidente da Associação de Exportadores de Têxteis e Matérias-Primas de Istambul, sublinha que a indústria têxtil da Turquia continua a ser uma das mais importantes e das mais fortes do mundo.

Sem medo das experiências negativas no passado recente, o sector têxtil e vestuário da Turquia colocou um ambicioso objetivo de exportação de 72 mil milhões de dólares em 2023, o 100.º aniversário da constituição da República turca. É um valor quase três vezes superior aos 26 mil milhões de dólares exportados em 2016.

Se esta meta vai ser alcançada ainda é difícil de prever mas, como aponta o just-style.com, para chegar pelo menos perto será necessário conjugar diferentes fatores.

Tem de ser assegurada a estabilidade nacional e regional. As relações comerciais internacionais têm de continuar boas, sobretudo com a UE, o principal parceiro comercial do país. As políticas de apoio governamentais devem ser adaptadas para dar mais incentivos sectoriais em vez de incentivos regionais.

A própria indústria deve encontrar os remédios certos para alguns males sérios: a falta de trabalhadores qualificados, a diminuição dos estudantes em áreas do têxtil, a queda do investimento desde 2013, o excesso de foco em produtos tradicionais como têxteis-lar e vestuário e pouca concentração em têxteis técnicos.

Há ainda a preocupação entre os concorrentes estrangeiros de que a Turquia tenha apetência para o protecionismo, para defender a sua indústria têxtil e vestuário com a imposição de taxas de importação adicionais e medidas antidumping.

Brexit não preocupa

Em 2016, quase dois terços (64%) das exportações totais de têxteis e vestuário da Turquia tiveram como destino a UE.

De acordo com a Associação de Exportadores de Vestuário de Istambul, citada pelo just-style.com, as exportações têxteis para a UE subiram 8,6% em 2016, para 4,01 mil milhões de dólares, enquanto os envios de pronto-a-vestir caíram 2,3%, para 11,86 mil milhões de dólares.

O Reino Unido, que representa 9%, foi o segundo maior mercado de exportação do sector na Europa a seguir à Alemanha, tendo recebido vestuário no valor de 2,01 mil milhões de dólares em 2016. Para alguns produtos, como meias, o Reino Unido é o maior mercado do país, com uma quota de 28% do total das exportações de meias da Turquia.

Os exportadores turcos também parecem estar pouco preocupados com o Brexit. «O efeito do Brexit nas exportações a curto prazo da indústria têxtil e vestuário da Turquia será limitado», acredita Ismail Gülle. «Com a recente visita da Primeira-Ministra May, sabemos que as negociações bilaterais sobre um possível acordo de comércio livre entre o Reino Unido e a Turquia já começaram. Qualquer que seja a solução, confiamos que as relações comerciais entre o Reino Unido e a Turquia irão durar para sempre e, claro, vão crescer continuamente», adianta.

Uma preocupação maior para os exportadores turcos é a relação difícil com a Rússia. Depois do avião russo ter sido abatido em 2015, a Rússia proibiu certas importações da Turquia, incluindo têxteis, vestuário e artigos em couro. Contudo, no segundo semestre de 2016 os dois países normalizaram as relações comerciais. As exportações da Turquia para a Rússia estão novamente a crescer e as associações turcas afirmam que a indústria têxtil e vestuário está a liderar.