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Jogo de audazes

O ritmo da moda continua a acelerar e os seus jogadores fazem de tudo para não perder o fôlego. Há semanas, Nicolas Ghesquière revelou – via Instagram – a localização para o próximo desfile cruise da Louis Vuitton, que acontece a 28 de maio no Rio de Janeiro, em plena reta final de preparação para os Jogos Olímpicos. O espaço escolhido foi o icónico Museu de Arte Contemporânea de Niterói, projetado por Oscar Niemeyer. A equipa Vuitton vem assim juntar-se ao jogo de audazes já reconhecido à apresentação das coleções resort.

Considerando que o desfile cruise da Dior será realizado a 31 de maio no Blenheim Palace, em Inglaterra, a Gucci vai tomar conta da Westminster Abbey, em Londres, em junho, a Moschino vai viajar para Los Angeles com as propostas resort feminina e primavera-verão masculina, também em junho, e a Chanel desfilou já em Cuba, pode perceber-se o motivo pelo qual a Louis Vuitton escolheu assumir um destino como o Brasil para revelar as suas coleções pré-primavera-verão 2016/2017.

Depois das visitas do Papa Francisco e de Barack Obama, do concerto dos The Rolling Stones e das filmagens do filme “Velocidade Furiosa 8”, Havana recebeu na terça-feira o histórico desfile da Chanel.

A passerelle foi erguida numa das artérias mais emblemáticas de capital cubana, no Paseo del Prado, ao ar livre, e juntou cerca de 600 clientes, celebridades e media, que assistiram à passagem de coordenados coloridos de vibração caribenha, repletos de referências estéticas ao país – entre estampados, chapéus Panamá e vestidos cocktail – que não recebia um desfile de moda desde 1959. «A riqueza cultural e a abertura de Cuba ao mundo transformaram-na numa fonte de inspiração para a Chanel», afirmou a empresa em comunicado antes de o desfile aterrar no país.

Tony Castro, neto do ex-presidente e aspirante a modelo, participou no evento e considerou o desfile como «uma honra para todos os cubanos». Não obstante as boas intenções iniciais, o desfile da casa de moda não agradou à maioria dos cubanos, que se amontoaram em varandas para poder contemplar os coordenados assinados por Karl Lagerfeld.

Raros serão também os locais que poderão um dia vestir as peças mostradas. Os produtos da casa Chanel não são vendidos em Cuba e, ali, o salário médio mensal ronda os 25 dólares (aproximadamente 22 euros).

Não obstante, desde 2006, Karl Lagerfeld tem escolhido os destinos mais inusitados para a apresentação das coleções off season da Chanel e Cuba seguiu-se a Seul (ver Onde para o dinheiro).

O objetivo destas casas de moda, segundo Vanessa Friedman, jornalista do The New York Times, é posicionar-se como a realeza da indústria: como autoridades não só em roupas, mas em todos os aspetos relacionados com o design e lifestyle, agregando cada vez mais seguidores à sua causa. Também é, no entanto, indicativo de um fosso cada vez maior entre as marcas que acreditam que os desfiles se estão a transformar em entretenimento e aquelas que pensam que estão em risco de superexposição.

Ao longo das últimas estações, marcas como Céline e Proenza Schouler têm apresentando as coleções resort nos respetivos showrooms, proibindo fotografias ou publicações dos media até que as roupas estejam nas lojas. Já os desfiles off season das marcas como a Chanel ou Louis Vuitton têm-se vindo a assumir cada vez mais elaborados e longínquos, levando consigo séquitos de jornalistas, celebridades e compradores e mantendo os consumidores em suspenso nas redes sociais, à espera da primeira fotografia do desfile.

O dinheiro envolvido é, é claro, bastante. Excluindo os alugueres de espaço, os modelos e as roupas são “importados” e os cenários e as festas são feitos à escala do desfile. Este é, efetivamente, a cereja no topo do bolo, que remata dias de experiências culturais e de consumo.

Porém, e porque as pré-coleções estão nas lojas mais tempo do que as coleções das duas temporadas oficiais de moda e arrecadam grande parte dos lucros anuais das lojas, o esforço acaba por se justificar.