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KETs alimentam debate sobre inovação

As tecnologias de largo espectro definidas pela Comissão Europeia e apresentadas pelo CeNTI foram o ponto de partida para um debate sobre tecnologia, inovação e competitividade que juntou organizações e empresas nacionais e internacionais de diversos sectores de atividade, incluindo, da têxtil, a ERT e a Tintex.

Fotónica

Estas tecnologias de largo espectro, conhecidas pela sigla inglesa KETs (Key Enabling Technologies) consistem em seis diferentes linhas de inovação tecnológica: micro e nanoeletrónica, nanotecnologia, biotecnologias industriais, materiais avançados, fotónica e tecnologias de fabrico avançado.

Inserido no projeto bKET, o CeNTI – Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes apresentou, no passado dia 27 de novembro, três dessas KETs na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto. O espaço dedicado a um dos maiores nomes do romantismo em Portugal transformou-se, assim, num verdadeiro poema à inovação, albergando mobiliário de rua com fotónica, uma porta de um carro com um painel em malha com cheiro a café e um objeto de decoração que parece ter vindo do futuro graças à sua capacidade de levitação.

«O objetivo principal deste projeto é divulgar e impulsionar as KETs e orientar as empresas para onde devem evoluir», explicou Inês Matos, gestora deste projeto do CeNTI, ao Portugal Têxtil, acrescentando que o mesmo inclui diversas iniciativas, desde «reuniões com empresas para transferência de conhecimento e geração de novas ideias a algumas sessões de demonstração – aplicar a KET a um sector para ser visível a aplicação dessas tecnologias».

Biotecnologias Industriais

No caso da fotónica, foi criado, em parceria com a Secil, uma peça de mobiliário urbano em betão com um sistema de iluminação e de geração de energia que interage com o utilizador, que através da sua aproximação altera a intensidade da luz.

«O sistema é completamente autónomo, não é precisa nenhuma fonte de energia externa», afirmou Inês Matos. «Pode ser aplicada na via pública, neste momento para efeito decorativo, mas pode ser um candeeiro de rua ou permitir o carregamento por indução», apontou.

Já o painel da porta do automóvel, fornecido pela Simoldes, exemplifica a aplicação de biotecnologias industriais, combinando materiais e tecnologias sustentáveis, nomeadamente polímeros de base biológica e um têxtil colorido com extrato natural de folha de castanheiro.

«A malha de algodão da Tintex foi tingida com biocoloração, que é uma tecnologia que eles desenvolveram connosco e que já comercializam, e tem libertação controlada de fragrâncias – neste caso é o café –, que pode ser feita por impregnação ou por funcionalização de nanopartículas», revelou a gestora do projeto.

Micro e Nanoeletrónica

Por último, para demonstrar a aplicação de micro e nanoeletrónica, o CeNTI desenvolveu uma peça de decoração com levitação, conseguida através de um conjunto de ímanes e eletroímanes.

«Além disso temos aqui um carregamento por indução, que já vemos em algum mobiliário, e temos a parte da iluminação LED para fazer este jogo de cores e interagir», indicou Inês Matos, que referiu como possível utilização «a aplicação em portas e janelas de grandes dimensões – por causa da fricção, para abrir e fechar, se tivermos um sistema de levitação não teremos tanto desgaste e seria mais fácil movê-las. Numa parte mais laboral, pode ser usada no transporte de mercadorias num armazém».

Inovar para competir

A importância das KETs foi sublinhada por João Torres, Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, que assegurou, na abertura do seminário Boosting Innovation(s), uma iniciativa conjunta do CITEVE e do CeNTI, que «o investimento em investigação, inovação e desenvolvimento é essencial para a competitividade do nosso país».

João Torres

O governo, reconheceu, está «profundamente empenhado com o objetivo de aumentar a produtividade» e, neste contexto, «as Key Enabling Technologies assumem uma preponderância extraordinária. A sua implementação encoraja a digitalização e a automatização de processos, permite o design de novos produtos e novos serviços que criam emprego e alimentam o crescimento económico». Como tal, as KETs são uma «prioridade nacional», admitiu.

Marco Manfroni, do programa DG Grow da Comissão Europeia, António Bob Santos, administrador da ANI – Agência Nacional de Inovação, Lutz Walter, secretário-geral da Textile European Platform, Virginie Canart, responsável de projetos no cluster EuroMaterials, e Enrico Venturini, diretor do cluster de moda da Toscânia, apresentaram, ao longo da manhã, programas de incentivos à inovação, incluindo o novo programa europeu Horizonte, para o período de 2021 a 2027, que deverá ter uma dotação orçamental de 100 mil milhões de euros, o programa SmartX, liderado pela ETP, que disponibiliza até 60 mil euros em financiamento para PME’s, e o Tex4IM – Textile Clusters for Industrial Modernisation, um consórcio que inclui o CITEVE, que tem como prioridades a economia circular, a indústria 4.0, tecnologias digitais, materiais têxteis avançados e modelos de negócios de base criativa.

Marco Manfroni, António Bob Santos, Lutz Walter e Braz Costa

Em termos apenas de realidade nacional, António Bob Santos, administrador da ANI, revelou que a agência recebeu 1.901 candidaturas aos diferentes instrumentos financeiros que gere, incluindo projetos de I&D, programas mobilizadores, projetos demonstradores, centros de I&D, proteção à propriedade intelectual e internacionalização de I&D, que envolveram 2.890 empresas e 1.940 entidades do sistema científico, para um investimento aprovado de 567 milhões de euros.

Aplicações na indústria

Empresas como a Tintex e a ERT, que estiveram num painel dedicado às “KETs para a diferenciação” – onde estiveram igualmente representadas a empresa dedicada a soluções de energia Efacec, o grupo de construção Dst e a especialista em pedras ornamentais Solancis – têm mantido a tónica na inovação na sua atividade.

«Com o processo de inovação que criamos nos últimos anos, já tivemos três prémios de inovação: dois organizacionais e um ao nível do produto. O dono da empresa diz que já está no ADN da empresa. Eu tenho dúvidas. Acho que injetamos a inovação. Mas, de facto, já há a prática da inovação», afirmou Fernando Merino, diretor de inovação e de marketing da ERT, que tem um volume de cerca de 100 milhões de euros, 85% a 90% na área automóvel.

Este foco começou com a criação de um grupo que permitiu uma abordagem top-down ao processo de inovação, que permeia agora a cultura da empresa. «Criou-se um grupo onde estava o CEO, o diretor financeiro, o diretor comercial e o diretor de operações e eu tive a possibilidade, durante quatro anos, de pilotar esse grupo», contou Fernando Merino.

Pedro Magalhães e Fernando Merino

Em termos de KETs, a ERT tem evoluído sobretudo com a microeletrónica e os materiais inteligentes. «Somos uma empresa especialista em materiais flexíveis, não produzimos têxtil, usamos todo o tipo de têxteis e de materiais flexíveis, em colas e espumas, couros, e colamos, cortamos, gravamos, perfuramos, decoramos e revestimos componentes interiores de automóveis. O que podemos fazer – e não tem tanto a ver com o veículo do futuro mas o que anda por aí – é a integração de sistemas eletrónicos», explicou, revelando que «já estamos há seis ou sete anos a fazer trabalhamos nesta área mas ainda não conseguimos nenhum negócio, apesar de termos tido bons contactos». Outra área em que a empresa está a trabalhar é nos materiais avançados, aqui focados em «trazer o aspeto das fibras naturais para as superfícies visíveis dos carros».

Já na Tintex, Pedro Magalhães, diretor de inovação da empresa, que lidera um departamento de 10 pessoas, indicou que «temos a decorrer seis projetos financiados nacionalmente, tanto individuais como em copromoção. «Não estamos diretamente com o consumidor» e, como tal, «a inovação não pode estar dissociada da sustentabilidade mas também da parte de marketing – mudamos um bocado a estratégia para contactar com as marcas», justificou. A comunicação passou, por isso, a ser um pilar fundamental da empresa. «Se não comunicarmos, nunca vamos vender», apontou.

Com patentes no currículo, a Tintex está atualmente a fazer a transição para a Indústria 4.0. «Em termos de inovação é excitante, porque são novas áreas de negócio, são novas ideias, é uma nova velocidade, acho que tem de ser avaliada de uma forma ponderada, porque os obstáculos podem ser bons ou podem ser maus», sublinhou Pedro Magalhães. «Estamos a perceber os dados que temos em todos os processos, a forma como podemos capitalizar a maneira como fazemos as coisas, como podemos apresentar os produtos aos clientes, daquilo que pode ser a nossa pegada ecológica, e também um desafio grande que tem a ver com rastreabilidade», resumiu o diretor de inovação.