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Kors em sentido divergente

Os números alcançados pela Michael Kors no terceiro trimestre do ano são inegavelmente positivos, em parte impulsionados pela expectativa do e-commerce e pelo positivo desempenho internacional da marca. Mas as previsões para o presente trimestre falharam as expectativas dos analistas e levantam a questão sobre se este será um ponto de viragem para a retalhista norte-americana. Essas preocupações não são novas já que outras marcas, que em tempos gozaram de um ritmo crescente semelhante ao da Michael Kors, viram-se entretanto esquecidas por um consumidor que tende a cansar-se de marcas excessivamente visíveis, receando-se uma réplica desse padrão de comportamento. O panorama da Michael Kors parece, por enquanto, otimista, tendo este ano inaugurado 190 lojas, que vieram somar-se à rede de 500 espaços globais. No entanto, os números alcançados durante a época festiva não traduzem a segurança de outros tempos, com as elevadas promoções, estabelecidas, como uma forma de incentivo ao consumo, a ferirem a imagem de luxo da marca. Ainda este mês, as ações desvalorizaram 6%. O diretor executivo da Michael Kors, John D. Idol, admitiu a maturação da marca no mercado americano mas recusa-se a ignorar a prestação no último ano, que considera ter sido impressionante, com as vendas online a aumentarem 73%. «Consideramos que as vendas comparadas entre lojas, incluindo o nosso negócio de e-commerce, refletem de forma mais rigorosa o nosso desempenho», acredita. Idol atribui também o abrandamento das vendas em solo americano à crescente tendência das bolsas de menor dimensão e adequadas a ofertas de menor preço, face aos modelos maiores. «A moda das bolsas grandes abrandou e atualmente a tendência recai sobre bolsas de média dimensão», explicou. «As carteiras de tiracolo são também uma tendência crescente, a um preço menos elevado», acrescentou. O diretor-executivo admite ainda que algumas das ofertas da marca têm sido demasiado vanguardistas. Por um lado, o modelo Greenwitch, concebido em cores forte, revelou-se um enorme êxito, afirmou. «Mas alguns produtos não se saíram tão bem, como o modelo Bucket, que, do ponto de vista da moda, tivemos de incluir», revelou. «Infelizmente, no que diz respeito ao retalho, não alcançou o mesmo tipo de receção». No entanto, Idol ressalvou que «a consumidora sente-se bem com os nossos produtos. Ela tem-nos dado um voto positivo. Estamos no negócio da moda e temos de ser um pouco mais agressivos quando as coisas não funcionam. Afirmamos, desde o dia do lançamento, que não acreditávamos na sustentabilidade de margens superiores a 30%». Apesar do receio dos investidores, é importante ressalvar que a Kors não se encontra em declínio e apresenta números que «outras marcas na indústria gostariam de poder replicar». O total da receita aumentou 30% no terceiro trimestre de 2014, alcançando 1,31 mil milhões de dólares, e um rendimento líquido de 303,7 milhões de dólares, correspondente a um crescimento de 32% e resultados de 1,48 dólares por ação diluídos, superando as expectativas dos analistas em todos os campos. O total das vendas na América do Norte aumentou 22,6% face ao mesmo período do ano passado, mas as vendas, considerando a mesma base de lojas do ano anterior, abrandaram 6,8%, face aos 24% alcançados em 2013. As receitas europeias cresceram 72% para 242,4 milhões de dólares e, anulado o efeito das taxas cambiais, as vendas subiram 86,3%. No Japão, as vendas aumentaram 72,1%, atingindo os 16 milhões de dólares. A receita proveniente de venda grossista, em grandes armazéns, cresceu 26,4% para 573,8 milhões de dólares, excluindo o impacto do fortalecimento da moeda americana. Em licenciamentos, a marca adquiriu 51,5 milhões de dólares, o que traduz um aumento de 8,6% em comparação com o ano anterior. As margens brutas encolheram para 60,9% no último trimestre do ano, face aos 61,2% registados no ano anterior. Apesar de se terem revelado inferiores ao esperado pelos analistas, permanece o receio de que a Michael Kors tenha de recorrer ao uso de promoções frequentes para inspirar as visitas aos seus espaços e fomentar a procura. A marca refere que «tem sido um pouco mais promocional» para liquidar produtos que ficaram aquém das suas expectativas. Para o corrente trimestre, a terminar em março, a Michael Kors espera ganhos por ação de 89 a 92 cêntimos e receitas compreendidas entre 1,05 e 1,08 mil milhões de dólares. Por sua vez, os analistas esperam ganhos por ação de 94 cêntimos e receitas de 1,15 mil milhões de dólares. Na perspetiva anual, as expectativas invertem-se, com a Kors a prever ganhos por ação de 4,27 e 4,30 dólares e receitas de 4,4 mil milhões de dólares, superiores às previsões dos analistas de 4,17 dólares e 4,42 mil milhões de dólares, respetivamente. A seu tempo será revelado se os receios dos analistas e investidores são justificados, já que, por enquanto, o desempenho da marca americana continua a satisfazer, pelos valores alcançados no decorrer do ano passado.