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L de Luxo – Parte 2

Abordando os vários estágios evolutivos do sector de luxo, o WGSN explorou as suas vertentes e manifestações, num mercado em constante transformação.

O legado é uma parte substancial do conceito de luxo, algo único e inimitável. Assim como a qualidade e a exclusividade, conjugadas com a promoção de experiências e sustentabilidade, estes são fatores inerentes às várias entidades que constituem o sector e a partir das quais o luxo flui naturalmente. (ver L de Luxo – Parte 1)

 Singularidade

A democratização da exclusividade torna o luxo mais acessível, pelo que o verdadeiro luxo é cada vez mais difícil de alcançar. Em resultado, os agentes do sector procuram algo superior e diferente, que seja efetivamente luxuoso – e assim surge a singularidade.

Refira-se, por exemplo, o lustre criado pela empresa Studio Drift. Não se trata de mera iluminação. Este objeto foi concebido com cabeças de sementes de dentes de leão e é iluminado por leds, não possuindo qualquer tipo de ligação elétrica. Esse objeto representa um encontro extraordinário entre a natureza e a tecnologia, como dois opostos que se fundem num raro encontro.

Cada vez mais, as pessoas valorizam não apenas a função, mas também a raridade do objeto. As experiências raras tornam-se, também, mais valiosas. A casa de champanhe Veuve Clicquot, por exemplo, gere um hotel exclusivo para convidados em Reims, França, que dispõe de apenas seis quartos.

Com a perigosa aproximação da fronteira do luxo ao luxo de massas, as marcas devem refletir sobre o que os seus clientes desejam, que os demais não podem ter. De forma a evitar a mercantilização, o luxo terá de ser único, raro e excecional.

Viagens

As viagens são o novo símbolo de status. No entanto, com cada vez mais pessoas a adotarem esta prática, o luxo pressupõe encontrar o caminho menos percorrido.

Como abordado no evento Encounter Culture, os viajantes procuram momentos exclusivos, nos quais possam descobrir os segredos mais bem guardados de um destino. Isso significa uma experiência menos convencional face à típica estadia em resorts e mais próxima dos locais, imergindo no ambiente de um território inexplorado. «Durante vários anos, um hotel foi visto como um refúgio na cidade estrangeira onde desembarcamos, mas os viajantes estão a tornar-se mais corajosos – agora estão interessados ​​em descobrir o ambiente envolvente, ao invés de serem protegidos dele», explica Julie Fawcett, diretora-geral dos hotéis Qbic.

As novas revistas de viagens estão a alimentar esse desejo. Os guias on-line mostram os lugares inexplorados e as agências de viagens, como a londrina Wild Frontiers, permitem explorar lugares raramente divulgados. Naturalmente, os passeios de jato privado são ainda um luxo, mas esse desejo de explorar e conhecer coisas novas, descobrir o desconhecido de uma forma menos convencional, mais aventureira, está em ascensão.

Privacidade

A privacidade é um luxo e está disponível em diferentes formatos. Existe o conceito de privacidade no sentido tradicional: praia privada, paz e tranquilidade, reclusão pura.

Mas a privacidade é, atualmente, muito mais do que isso. Não se trata apenas de exclusividade. Considere a máquina de venda automática de ADN da Gabe Barcia-Colombo, que dispensa ADN humano extraído. Isto faz-nos questionar sobre a segurança do nosso ADN, atribuindo-lhe um preço e criando questões éticas de maior dimensão, que se aprofundarão no futuro, à media que, gradualmente, perdermos o controlo sobre os nossos dados biológicos.

Esta é, afinal, a parte mais exclusiva da nossa existência, que nos identifica face aos restantes indivíduos. Será esta a última forma de privacidade? Poderá tornar-se um luxo mantê-la dessa forma? À medida que tomamos conhecimento da crescente manipulação dos nossos dados, aumenta também o motivo de preocupação. «A privacidade como um luxo também tem o infeliz efeito de estabelecer uma nova divisão: aqueles que conseguem preservar a sua privacidade e aqueles que não têm acesso a ela. Que o controlo genuíno sobre a nossa informação seja estendido à maioria das pessoas – gratuitamente – parece muito improvável», sustenta a investigadora Kate Crawford.

A partir de agora, o luxo não significa apenas o desfrute de uma praia isolada, mas também a capacidade de manter os nossos dados privados em privacidade.

Bem-estar

O bem-estar conquistou o segmento de luxo. Esta tendência foi mencionada no relatório elaborado pela Think Tank, “Wellthness”, que destacou as palavras de Charlotte Biltekoff, autora da obra “Eating Right in America”: «Os green juices, por exemplo, são uma ostentação de riqueza, disciplina e responsabilidade – que, combinados, refletem e expressam um estatuto».

O mesmo aplica-se ao movimento “Clean Esting”, que aposta em alimentos saudáveis de proveniência orgânica. Simultaneamente, os clubes de emagrecimento, os retiros de desintoxicação particulares, os encontros de praticantes ioga e, também, o recente e exclusivo clube Nike, destinado exclusivamente a membros convidados, elevam a saúde a um novo estatuto de luxo.

Elle Macpherson revelou a amplitude crescente deste movimento de bem-estar quando afirmou trazer sempre consigo um aferidor de pH da urina, que deve apresentar sempre valores de alcalinidade – Macpherson acredita que a maioria das doenças advêm de um corpo ácido. Este ano testemunhamo também, o lançamento de um novo menu de água de luxo num hotel cinco estrelas, onde mordomos de água estão à disposição para aconselhar os clientes sobre a água certa a tomar.

Paralelamente, o The Hangover Club tomou o passo seguinte no movimento de bem-estar, prometendo curar os efeitos dos exageros das noites de celebração. No entanto, isto não se destina apenas ao tratamento de ressacas, mas também de jetlag, fadiga e resfriados. Os tratamentos são dispendiosos, mas incluem um serviço ao domicílio, onde é administrado um conteúdo vitamínico intravenoso, criado sob medida. O bem estar substitui a mera aparência, e esse é, indubitavelmente, o derradeiro luxo.

Memória

O luxo superou a barreira do aqui e agora – pretende estabelecer uma ponte entre o passado e o presente, prolongando um momento para lá do momento em si. Por exemplo, Aram Mooradian imaginou um futuro no qual o ouro é usado para armazenar memórias, sonhos e desejos. O projeto inclui objetos de ouro que podem ser reproduzidos usando um leitor de objetos de ouro – de forma semelhante ao vinil – enquanto os próprios objetos incluem o riso codificado de um ente querido e um pingente que contém uma mensagem privada da pessoa amada. Curiosamente, o ouro não é valorizado pelo seu valor financeiro, mas pelas memórias e histórias que encerra.

Joe Sheehan abordou também esta ideia com a sua fita de cassete reproduzível de pedra verde, que emite uma gravação do som do rio onde a pedra foi encontrada. Mais uma vez, a essência está no conteúdo, superando o valor monetário. Isto implica a criação de um objeto precioso que mantém um determinado momento vivo.

 

Evidentemente, o valor do trabalho e do impacto que pode ter e o prazer que pode proporcionar está cada vez menos relacionado com o preço, sendo mais dependente do significado. «Atualmente, não podemos continuar a acreditar que os objetos extravagantes são interessantes, simplesmente porque são sofisticados. Quando refletimos sobre o futuro do luxo, não se trata apenas de novos produtos ou mercados ou ideias, trata-se de algo mais profundo. Passa por algo distintamente precioso», advoga Frédéric Cumenal, CEO da Tiffany & Co.

A terceira parte do artigo incidirá sobre o valor do fator tempo no segmento do luxo e a importância das suas edições limitadas, como denominador essencial à exclusividade. Porém, em última análise, o seu funcionamento está cada vez mais dependente da consciência crescente do consumidor e do prazer resultante das experiências.