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Lã em queda nos preços e na produção

A crise pandémica que abalou o mundo está a afetar os produtores australianos de lã, com os preços a serem controlados pelos compradores chineses, que representam 90% das exportações. Os valores mais baixos, juntamente com a seca e a concorrência da indústria alimentar, deverão ainda provocar uma queda da produção.

Os preços da lã na Austrália, a principal exportadora da matéria-prima, caíram mais de 25% desde o início de março, depois das rotas comerciais terem sido cortadas abruptamente devido à pandemia, deixando as unidades chinesas de processamento de lã no controlo dos leilões.

O abrandamento foi tão grave que casas de leilão de lã por toda a Austrália reduziram o número de dias em atividade, depois da procura habitual por parte dos alfaiates de gama alta da Europa ter desaparecido.

O negociante de lã David Hart, da Nutrien Ag Solutions, explicou à Reuters que os compradores chineses estão agora a controlar os preços. «Há uma falta de concorrência no leilão e têm o mercado só para eles», afirmou Hart.

O preço de referência para a lã merino rondou os 11,55 dólares australianos (cerca de 7,1 euros) por quilo na terceira semana de maio, em comparação com os 15,62 dólares australianos por quilo a 6 de março.

Os preços quase que ficaram reduzidos a metade em comparação com a mesma altura do ano passado, quando a procura mundial por artigos em lã estava a aumentar, ao mesmo tempo que a oferta se encontrava sob ameaça devido à seca prolongada que afetava as quintas australianas.

Previsões de baixa

A produção também deverá cair. As previsões do Australian Wool Production Forecasting Committee (AWPFC), reveladas a 30 de abril, antecipam uma queda de 6,3% na produção da época 2019/2020, para 281 milhões de quilos, em comparação com os 300 milhões de quilos da época anterior.

«A chuva mais ou menos disseminada foi bem-vinda no sudeste e na costa este da Austrália no primeiro trimestre de 2020. A Austrália Ocidental continua com seca, com as provisões de água nas quintas nos níveis mais baixos e um aumento acentuado no número de transferências interestaduais de ovelhas», aponta o organismo.

«As grandes margens para carne de cordeiro, juntamente com os elevados custos de substituição de ovelhas e a incerteza em relação ao impacto do Covid-19 na procura mundial e nos preços, podem abrandar a recuperação na produção de lã, apesar das previsões sazonais favoráveis», considera Russel Pattinson, presidente do AWPFC.

Também Stuart McCullough, CEO da Australian Wool Innovation, está pessimista em relação à procura. «Pensamos que os têxteis formais, no sentido de fatos e camisolas em lã, irão realmente ser afetados com tudo isto – se as pessoas não vão para o trabalho, não precisam de um fato», indicou numa entrevista ao canal australiano de televisão ABC, avançando que o athleisure e o vestuário de desporto terão uma retoma mais rápida.

O domínio chinês

A Austrália controla 90% das exportações de lã, com os preços a serem em grande parte impulsionados pelas fábricas chinesas e pelos produtores italianos de vestuário. Os dois países compram a maioria das exportações de lã da Austrália, que em 2018/2019 atingiram 4,15 mil milhões de dólares australianos, embora haja também compradores na Índia, Coreia do Sul e Japão.

Os preços da lã são particularmente voláteis e difíceis de prever, uma vez que não existem dados fiáveis sobre os níveis de inventário em todo o mundo.

O encerramento de fronteiras durante a pandemia significou que a lã australiana não chegou à maior parte dos seus destinos habituais, revelaram três negociantes de lã à Reuters. É possível, contudo, exportar para a China, onde a pandemia de Covid-19 começou, numa altura em que Pequim reiniciou a produção.

«Basta dizer que a China é a única aberta», destacou Andrew Blanch, diretor-geral da New England Wool, que é detida por um produtor têxtil italiano.