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Lã em stock

Os produtores australianos de lã estão a acumular stock da matéria-prima e, ao mesmo tempo, a evitar as vendas em leilão, à medida que enfrentam uma recessão tanto nos preços como na procura da fibra.

A indústria de lã australiana é uma das maiores produtoras de fibra de alta qualidade do mundo, tendo registado um valor de 2,6 mil milhões de dólares (2,4 mil milhões de euros) nas exportações em 2018/2019, de acordo com dados do Governo do país.

Segundo o relatório de abril do Rural Bank, antes da crise gerada pelo novo coronavírus, 76% da lã australiana foi exportada para a China em 2019, 6% para a Índia e 5% para a Itália. A importância do Império do Meio cresceu ainda mais para esta indústria durante a pandemia, uma vez que a Índia e a Itália fecharam fronteiras às exportações, o que fez com a procura do retalho contraísse nos principais mercados produtores de lã, como o Reino Unido, a União Europeia e os EUA.

Mesmo com a nova realidade causado pelo Covid-19, a China está a reabrir o sector industrial, o que indica que o país foi capaz de controlar a disseminação do vírus, sugere o Governo chinês.

Com efeito, o comércio com a China continuou mesmo durante o pico da pandemia no país. Muitas fábricas de lã reabriram a 10 de fevereiro, depois da pausa do ano novo chinês, ainda que vários sectores tenham fechado portas no final desse mês, noticia o just-style.

«O mercado australiano de lã está agora a vivenciar um impacto significativo nos preços com o indicador do mercado oriental a baixar cerca de 22,5% desde a terceira semana de fevereiro», afirma Jo Hall, CEO da WoolProducers Australia.

Fatores coletivos

Jo Hall considera que mesmo que a indústria chinesa continue a recuperar e os mercados consumidores a nível global reanimem depois da pandemia, pode levar algum tempo para que o mercado de lã estabilize, dada a quebra de gastos discricionários no retalho e dos orçamentos individuais reduzidos.

Além das implicações que o novo coronavírus provocou, os negócios estavam já fragilizados devido ao período de secas, incêndios e inundações sentido na Austrália, nos meses que antecederam. As incertezas que a guerra comercial entre os EUA e China acarreta também tiveram uma forte influência nos preços da lã australiana.

«O fraco sentimento económico global, juntamente com a fase de encerramento gradual das unidades de produção pesaram no mercado australiano de lã», indica o relatório emitido pelo Rural Bank relativamente ao impacto da Covid-19 na agricultura local.

A CEO da WoolProducers Australia destaca ainda a problemática das licitações não atingirem o preço mínimo pedido pelo comprador e da rescisão das taxas de vendas serem cada vez mais frequentes nas últimas semanas, o que se traduz em ofertas muito menores em leilão. «Isto mostra que os produtores de lã estão a armazená-la, o que resulta numa acumulação de stock», reconhece a CEO, admitindo que alguns criadores de gado podem desistir da lã por causa do declínio nos preços. «Há o risco de os produtores de lã procurarem indústrias alternativas, como a carne ovina, bovina ou grãos para gerar rendimentos», aponta.

Apesar da concretização deste cenário, Jo Hall afiança que vai continuar a haver um «núcleo saudável de produção», visto que os produtores de lã são muito «resilientes».

«Acreditamos que têxteis personalizados como fatos ou camisolas de lã vão ter uma grande influência nesta temática, se não vamos trabalhar não precisamos de um fato», revelou Stuart McCullough, CEO da Australian Wool Innovation, à emissora pública ABC, numa ótica mais «pessimista». O CEO confessou que espera que o mercado desportivo seja o primeiro a demonstrar um aumento no consumo.

A indústria de lã australiana está bem posicionada para se recuperar, por ter sido capaz de operar durante a pandemia com regras de distanciamento social e ter sido declarada como uma indústria fundamental. Pelo contrário, as licitações na Nova Zelândia e na África do Sul tiveram mesmo que fechar.

Para ajudar a indústria de lã a subsistir, o Governo australiano providenciou pacotes de assistência e benefícios fiscais para evitar despedimentos e amortizar as perdas financeiras.