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Laranjinha de alma e coração

Nascida na indústria há mais de 35 anos, a marca de moda infantil impôs-se no mercado e na empresa, que deixou o private label para se dedicar inteiramente à produção e comercialização das coleções próprias.

O facto de ter uma marca que conta já várias décadas – foi criada em 1981 – faz com que «estejamos num permanente esforço de renovação», confessa Luís Figueiredo, até porque as prioridades do consumidor mudaram. «Hoje em dia as pessoas tentam canalizar muito o seu rendimento disponível para o lazer. Isto é transversal, não quer dizer que seja só em criança. Deixou de ser uma prioridade e, por isso, temos de estar sempre a reinventar, a tentar apresentar produtos que sejam diferenciadores», afirma o presidente da Hall & Ca, que detém a Laranjinha.

Para combater isso, com a nova coleção para o outono-inverno 2019/2020, que será apresentada em feiras em Itália, França, Espanha e Alemanha no início do próximo ano, a Laranjinha irá fazer «uma revolução suave, mas ainda assim uma revolução», garante Luís Figueiredo. «Mantendo o ADN Laranjinha, é uma coleção completamente diferente, com materiais diferentes. Habituamo-nos a ser, pelo menos em Portugal e em Espanha, uma marca muito copiada e, portanto, temos que estar sempre preocupados em tentar fazer algo novo», esclarece. Estruturas de malhas diferenciadas, artigos antibacterianos, fios orgânicos e materiais mais ecológicos, como os reciclados, desenham as novas propostas.

Apesar dos contratempos trazidos pela sua força no mercado, a credibilidade e notoriedade da Laranjinha tem vantagens, nomeadamente o facto de ser já a escolha de pais que, eles próprios, vestiram a marca. «Há mercados em que estamos há 20 anos», afirma o empresário.

A internacionalização da Laranjinha, contudo, foi mais fácil no passado do que no presente, considera Luís Figueiredo. «Hoje é muito mais difícil do que há 20 anos conseguir ter alguma posição de destaque. Os nossos mercados mais fortes são aqueles que fizemos há 15 ou 20 anos. Todos os mais recentes são mercados muito difíceis, que dão muito trabalho – é muito difícil entrar em países novos», reconhece. Itália e Reino Unido, respetivamente, ocupam o primeiro e segundo lugar nas exportações da marca, que está presente num total de 49 países, abarcando também Canadá e EUA. «Em Portugal, incluindo o multimarca e as nossas lojas, somos capazes de ter o mesmo volume de negócios ou mais que em Itália – perto dos 20%», revela ao Jornal Têxtil.

Regresso ao private label?

O sucesso da marca levou a Hall & Ca a abandonar o private label para se dedicar em exclusivo à Laranjinha. «Atualmente, a Hall & Ca é uma empresa de desenvolvimento de produto. Temos um departamento de design com três designers, temos quatro modelistas e temos uma pequena confeção», explica Luís Figueiredo. A produção é, no entanto, toda realizada em Portugal, «em fábricas que trabalham connosco, sendo que algumas até só trabalham para nós». Uma opção ditada pela diversidade de artigos que uma marca exige. «Temos peças que vão desde chapéus a sobretudos, interiores, sapatos – uma diversificação muito grande de produtos. E, portanto, temos de ter parceiros de cada área que trabalhem connosco», explica.

Ainda que assuma esta opção estratégica, o administrador da Hall & Ca não descarta definitivamente a possibilidade de regressar à produção em private label, «se para aí o futuro nos levar». Contudo, nesse caso, «teremos de reduzir significativamente a nossa coleção», admite. «A nossa coleção anda tradicionalmente à volta das 500 referências, por ano produzimos 25 mil peças só de amostras», aponta. Praticamente de fora está, por isso, trabalhar para marcas do mercado de massas. «Preferia começar, e temos propostas a analisar nesse sentido, com marcas que estão a nascer, que precisam de um parceiro com experiência que as ajudem a desenvolver e crescer. Tenho a certeza que esse vai ser um melhor caminho para nós, porque vamos ter ali um parceiro para a vida», considera. Uma marca francesa e outra irlandesa já avançaram com sugestões nesse sentido e a Hall & Ca está também a analisar uma proposta de um grande armazém inglês que se encontra à procura de um parceiro de produção para a marca própria. «Eles querem produzir para a marca deles e simultaneamente ter a nossa marca. Ou seja, por troca, produzimos umas peças com a marca deles e a seguir entramos com a Laranjinha num sítio que, à partida, seria difícil», esclarece.

O “made in Portugal”, de resto, tem sido uma mais-valia para a marca que deverá terminar o ano com um volume de faturação próximo dos 4 milhões de euros. «Faço questão de dizer, em qualquer apresentação que efetuamos, que somos uma marca portuguesa. No nosso stand está lá 100% made in Portugal, porque é um orgulho para nós dizer que produzimos em Portugal, que somos uma marca portuguesa. Já houve tempos em que não tinha grande valor. Hoje, uma marca portuguesa fabricada em Portugal é uma mais-valia para quem perceba minimamente deste negócio», sublinha.

Além das sete lojas próprias em Portugal e Espanha – a mais recente vai abrir em Braga –, a Laranjinha, está presente em lojas multimarca de cerca de 600 clientes, em grandes armazéns, como o Barneys em Nova Iorque, o El Corte Inglés, o El Palacio de Hierro, no México, e o Bentall Centre em Londres, e no canal digital. «Atualmente, estamos com a nossa loja online, mas no início do ano vamos ligar-nos a quatro plataformas de comércio eletrónico. Estamos a negociar com a plataforma do El Corte Inglés, com a Zalando e a Amazon. A Farfetch ainda não está fechado, mas estamos a tentar», adianta Luís Figueiredo.

Embora seja apologista da criação de marcas próprias, o presidente da Hall & Ca reconhece que o percurso é tudo menos fácil. «É preciso uma grande capacidade de tesouraria para aguentar todo este trajeto», garante.