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Lectra à frente do tempo

Num mundo em mudança, em que o consumidor quer aqui, agora e a toda a hora, as exigências aumentaram para a indústria da moda. A Lectra demonstrou, durante um evento de dois dias na sua sede em Bordéus-Cestas, que está a acompanhar e até a antecipar os tempos e as suas soluções convenceram a comitiva portuguesa.

Numa sala praticamente cheia com cerca de uma centena de clientes vindos de todo o mundo, do Brasil à China, passando pela Europa, incluindo Portugal, a Lectra desfiou tendências, antecipou mutações e apresentou soluções inovadoras capazes de mudar a indústria da moda como a conhecemos.

Durante dois dias, as soluções desenvolvidas para corresponder às expectativas e exigências da indústria 4.0 e dos consumidores mundiais estiveram em evidência, desde o Fashion on Demand ao também recente Kubix Link, passando pelas aplicações Quick Nest e Quick Estimate. Um evento pensado, como explicou Rodrigo Siza Vieira, diretor-geral para Portugal e Espanha, para consciencializar. «É conhecer o mercado, é evangelizar sobre a nossa oferta 4.0, que corresponde também a uma grande transformação da Lectra anunciada há dois anos, com a nova estratégia Lectra 4.0», afirmou ao Portugal Têxtil.

Mudança de paradigma

Quem são estes novos consumidores e como estão a mudar a indústria? Para responder a estas questões, a Lectra convidou Peter Jeavons, diretor-geral para a Europa da First Insight, e Craig Crawford, fundador da consultora ThinkIT, CreateIT.

Peter Jeavons

«É um consumidor hiperconectado», começou por referir Peter Jeavons. A atenção constante aos smartphones – que neste momento são já mais do que a população mundial – e a ligação a todos os minutos à Internet fornece dados valiosos para que a indústria da moda possa tomar decisões informadas. «Os indivíduos procuram artigos adaptados à sua realidade. Procuram produtos autênticos, que estejam na moda, que representam a sua personalidade. São jovens, sensíveis aos problemas do planeta e querem agir como deve ser», indicou Jeavons.

Segundo o diretor-geral para a Europa da First Insight, atualmente, 37% dos consumidores usam as redes sociais para encontrarem inspiração para as compras e uma grande maioria partilha as suas experiências, sejam boas (70%) ou más (61%). «A voz dos consumidores é cada vez mais importante e as empresas estão a investir para ouvir a voz dos clientes, não só dos investidores. A Kohls usa a nossa tecnologia e conseguiu cortar 20 semanas nos testes. Quanto mais se testa na produção, mais fácil é fazer um bom produto», sublinhou.

Craig Crawford

No fundo, «é preciso ouvir e aprender. Dar aos consumidores o que eles precisam», confirmou Craig Crawford, destacando, contudo, que não se trata «apenas de reagir, mas reagir da forma certa».

E é aqui que a Lectra acredita poder ajudar. «Todos querem pertencer a este mundo hiperconectado. E claramente o que vemos é que este consumidor está a tornar-se crítico. Um dos pontos principais são os dados que recolhemos através da nuvem, através da inteligência artificial, robótica, Internet das Coisas, que vão ajudar-nos a compreender melhor os consumidores e o que eles fazem. Podemos recolher gigas de dados, mas o mais importante é o que fazemos com eles. O que fazer com estes dados para servir melhor os nossos consumidores? É isso que colocamos no centro da nossa estratégia», afirmou Céline Choussy, diretora de marketing e comunicação da Lectra.

Do consumidor ao chão de fábrica

As novas soluções da Lectra têm, por isso, como meta permitir uma reação mais rápida, mas assertiva a este novo mundo onde o consumidor é rei. É o caso da solução Fashion on Demand, que permite responder a pequenas encomendas, à customização em massa e até ao feito à medida. «É a primeira solução que possibilita criar artigos personalizados ao mesmo ritmo do pronto-a-vestir. É uma revolução», garantiu Christine Dandieu, diretora de vendas de moda da Lectra.

A solução combina software e hardware, ligando uma plataforma a uma máquina de corte automático, batizada Virga, que encheu as medidas aos representantes de empresas portuguesas. «Não corresponde com certeza a tudo o que queremos, mas percebemos que, de alguma forma, já é um passo muito grande em relação ao passado recente para as nossas necessidades», afirmou, ao Portugal Têxtil, Armando Carvalho, chefe de corte na P&R Têxteis, que destacou «o corte de pequenas quantidades em tecidos com padrão e a velocidade de execução de todo o processo, que, com esta nova versão, é muito encurtada. O erro humano também é reduzido substancialmente».

Christine Dandieu e Frederic Gaillard

«A Lectra está a pensar no futuro dos nossos clientes e no nosso futuro. Acho que esta máquina é um passo muito importante», reconheceu Patrícia Ferreira, business development manager da Valérius. A empresa, que já trabalha na área da customização e antecipa uma forte evolução nesse sentido, vai agora analisar a solução da Lectra. «Temos de estudar e ver o preço. Até já tínhamos falado em poder ser uma empresa-piloto – podíamos fazer uma experiência e fazer ajustes na máquina, que é o que fazemos muitas vezes. Sempre que industrializamos um processo tentamos sempre ir aos fornecedores das máquinas, perceber como está a funcionar a máquina, como podemos ajudar, o que pode ser mexido para ajudar às nossas necessidades. Estamos dispostos para dar alguns inputs também para a melhoria da máquina», adiantou ao Portugal Têxtil.

A solução Fashion on Demand está já a ser usada por diversas empresas, incluindo as italianas Zegna e Corneliani, produtoras de vestuário masculino de luxo, e pelo Groupe Marck, um grupo industrial francês com seis unidades produtivas que trabalha na área dos uniformes, com clientes que vão de companhias aéreas ao exército. «Os nossos uniformes são feitos à medida. Trabalhamos com cerca de 200 calças por dia feitas à medida, demora a personalizar e a produzir», explicou Stéphane Quiniou, diretor industrial e de qualidade do grupo. «A proposta da Lectra fez-nos sonhar. Estávamos a chegar à nossa capacidade máxima para responder aos clientes. Tínhamos que encontrar soluções para sermos mais eficazes. A solução vai-nos permitir ter um melhor desempenho comparado ao que temos hoje», assegurou.

Charline Fasquel, diretora de produção da Balsan, uma das empresas do Groupe Marck, confirmou: «ganhamos muito tempo. A segunda vantagem é que todas as informações estão na máquina, não precisam de ser preenchidas antes».

Kubix Link a chegar a Portugal

Entre as soluções apresentadas esteve a Kubix Link, uma plataforma que reúne os dados dos produtos na cloud e facilita tanto os processos industriais como os comerciais. Ou seja, junta o tradicional PLM, que faz a gestão do ciclo de vida do produto, com ferramentas para o front-end, permitindo disponibilizar informação de produto em lojas online e marketplaces como a Amazon ou o Alibaba. «Pela sua flexibilidade e pelo nível de configurabilidade que tem, adapta-se muito facilmente a quem está na indústria e tem processos de desenvolvimento de produto», destacou Rodrigo Siza Vieira.

Atualmente, há já 38 empresas no mundo a usar a Kubix Link, incluindo a joalharia Pomelatto e a empresa de artigos de outdoor Tecnica. «É fácil de usar», garantiu Ermano Cecconetto, diretor de tecnologias de informação da Pomelatto, adiantando que «os clientes têm reagido bem». Já Cristiano Simonetto, diretor de informação e comércio eletrónico da Tecnica salientou que, com a solução, «partilhamos a informação em toda a cadeia de aprovisionamento».

Em Portugal e Espanha, revelou Rodrigo Siza Vieira, a plataforma está a dar os primeiros passos, com a divulgação a ter começado apenas há alguns meses, mas «os primeiros projetos que iremos arrancar a muito curto prazo são de empresas industriais».

Nas nuvens

A aposta da Lectra em soluções “software-as-a-service” tiveram também tempo de antena, nomeadamente as aplicações Quick Nest e Quick Estimate – a primeira para a modelagem, a segunda para a estimativa de custos.

Virga

Esta última está a ser usada há seis meses pela casa de moda Balenciaga. «Com o Quick Estimate ganhamos tempo e respondemos mais rapidamente aos pedidos», contou Mariam Benissi, responsável de desenvolvimento de produto e modelagem na Balenciaga. «Podemos responder rapidamente no âmbito de qualquer mudança de padrão ou volume. Já aconteceu ter pedidos para uma matéria apresentada pelo designer e podermos medir uma resposta. Foi uma ferramenta que se integrou bastante bem no nosso processo de trabalho», confessou a responsável, acrescentando que a solução «permite um melhor controlo do consumo da matéria-prima, dos protótipos e tomar decisões mais bem informadas». Segundo Mariam Benissi, «intuitivo e rápido são as palavras que melhor definem o Quick Estimate».

Ganhar tempo e reduzir custos é também algo que a solução Modaris 3D tem permitido a marcas como a Philippine Saint-Père. «Consigo mostrar à minha equipa como vou jogar com as cores e padrões, mesmo que sejam apenas inspirações», explicou a fundadora da marca de moda nupcial, que ostenta o seu nome. «Consegui diminuir em 30% a produção de pormenores técnicos, que valorizou também a possibilidade de trabalhar em equipa. O processo de design deve ser de grande cooperação entre os fornecedores têxteis, os designers e os engenheiros têxteis e como todos estes elementos estão presentes desde o inicio do projeto, podemos trabalhar de um modo mais preciso», apontou Philippine Saint-Père.

Uma empresa em crescimento

Com 46 anos no mercado, a Lectra conta com atualmente com 32 subsidiárias em todo o mundo e clientes em mais de 100 países. Em 2018, a empresa registou um volume de negócios de 282,6 milhões de euros, equivalente a um crescimento de 4%, e um lucro líquido de 28,7 milhões de euros.

A filial portuguesa contribuiu com um volume de negócios «entre os 11 e os 12 milhões de euros», afirmou Rodrigo Siza Vieira, mantendo o volume de negócios de 2017. Para 2019, embora reconheça alguma instabilidade no mercado, o diretor-geral da Lectra para Portugal e Espanha antecipa um bom ano. «Termos uma oferta inovadora potencialmente abre outras portas no mercado», concluiu.