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Lectra apresenta resultados e estratégia

A tendência para uma gestão integrada de todo o processo de concepção e fabrico de uma peça de vestuário levou o Jornal Têxtil a falar nestes últimos meses com os principais protagonistas mundiais no fabrico de software e hardware para estes fins. Neste contexto, Marcelo Miranda, gerente da Lectra Portugal, revelou as tendências e estratégia deste mercado para 2002, envolvendo algumas empresas nacionais que já contam com estas ferramentas de trabalho. Jornal Têxtil – A Lectra acaba de divulgar os resultados de 2001. Como avalia o desempenho da empresa? Marcelo Miranda – O grupo Lectra, após 18 trimestres consecutivos de crescimento, tanto no volume de negócios como nas margens de lucro, apresentou pela primeira vez em 2001 um decréscimo face ao anterior exercício económico. As razões são mais que conhecidas. No início do ano foi a anunciada crise americana e os seus efeitos a nível global. Os atentados de 11 de Setembro, vieram de uma forma espontânea acelerar a crise mundial. A partir daí criaram-se as condições para uma quebra de 15% face ao ano anterior. Contrariando esta tendência, a Lectra em Portugal registou um crescimento de 7% em relação ao exercício anterior, mas com um crescimento inferior à média de anos transactos. JT –É o mercado americano que tem um peso muito grande no vosso volume de negócios? MM – Não. O decréscimo foi em todos os mercados. O maior decréscimo foi no mercado americano, que foi de 20%. Na Europa foi de 15%, 19% no resto do mundo e cerca de 16% na Ásia. A Lectra sentiu muito esta crise, porque está envolvida em cerca de 10 segmentos de mercado como têxtil, confecção, calçado, aeronáutica, automóvel, têxteis técnicos, filtros, entre outros, e que se ressentem rapidamente. JT- Gostávamos que fizesse uma apresentação da empresa… MM – A Lectra iniciou a actividade em 1973, e no decorrer destes anos fomos crescendo de uma forma interessante. Tivemos alguns momentos menos bons, mudámos de estratégia entre 89 e 92, e começámos a descentralizar para outros mercados de grande potencial, para além da têxtil e confecção. Começámos a trabalhar com a indústria de calçado, com a indústria da marroquinaria, com tecidos técnicos de automóvel, os compósitos para a aviação, tudo o que é tratamento de matérias-primas compósitas de barcos, um pouco da indústria náutica e também do mobiliário. O vestuário assume neste momento, cerca de 55% do total, mas a têxtil foi o nosso berço. No decorrer destes anos temos vindo a centralizar completamente os nossos mercados e temos vindo a investir bastante em pesquisa e desenvolvimento (7 a 9% da facturação). Adquirimos também muitas empresas no decorrer destes anos, de forma a podermos entrar em mercados que antigamente não eram mercados Lectra. JT – A Lectra é líder mundial em que segmento de mercado? MM – Líder mundial em tudo o que é software de design para moda e confecção. Em relação à quantidade de sistemas instalados em todo o mundo, em cada três, dois são Lectra. É ainda líder mundial no segmento de mercado de air-bags. JT – Neste segmento, que mercados é que considera mais emergentes? MM – Neste momento a Ásia, pois está a adquirir uma dimensão em termos de confecção por medida muito interessante. A Lectra, com o desenvolvimento das últimas soluções, permite automatizar e atingir grandes níveis de produtividade, mesmo sendo uma confecção por medida. Antigamente a confecção por medida era o alfaiate. Agora vai a uma loja, tira as medidas, e pela internet são enviados os dados para a fábrica, que tem softwares adaptados para a realização de todas as peças, modificação dos moldes base face à encomenda e às medidas do cliente. Têm ainda sistemas automáticos de corte que fazem o processo todo. A Ásia tem sido uma surpresa, porque antigamente nós pensávamos só em quantidades… Efectivamente são quantidades, mas é quantidades de tudo, incluindo confecção por medida. JT – Os mercados europeu e americano estão esgotados? MM – Não, nem pensar nisso. Nós temos uma visão diferente da concorrência, que propõe uma solução “standard” para todos os mercados, não se especializando. A Lectra tem-se vindo a tornar um hiper-especialista por sector de mercado. É impossível atingirmos níveis de produtividade e de qualidade de alta performance se utilizarmos os mesmos produtos e os mesmos softwares para todos os mercados. JT – Mas quando fala em sectores quer dizer para além do sector têxtil, ou no sector têxtil? MM – Dentro do sector têxtil. Por exemplo, justifica-se a especialização no corte de confecção de ganga. As soluções de corte normais, não são indicadas para a confecção de ganga pois não atingem os níveis de produtividade que atinge uma solução de corte específica para esse efeito. Dentro da confecção ainda, temos a parte de lingerie, temos os produtos de confecção para bebé, temos o mercado da ganga, depois temos mobiliário, calçado, automotive, tudo o que é confecção de desporto…E para cada um uma solução especifica… JT – O que é uma solução para a Lectra? MM – Pode ser Software, hardware e serviços, porque os serviços são bem mais importantes muitas vezes, do que um hardware. Primeiro é preciso saber ouvir o cliente, saber as suas necessidades e desenhar um projecto e posteriormente vai incluir serviços de implementação dos produtos que adquiriu. Somos nós que nos responsabilizamos pela formação para quem vai trabalhar com a máquina. Um software tem cerca de 300 funções, logo é impossível em 15 dias ou 3 semanas conseguir transmitir isso tudo ao cliente. É lógico que começa logo a desenvolver mais trabalho do que fazia manualmente utilizando a nova tecnologia, mas passados seis meses, já consegue fazer mais. JT – A Lectra em Portugal é composta por quantas pessoas? MM – Em Portugal somos 43 pessoas, dos quais 75% são do serviço ao cliente, pós-venda. Os serviços que nós temos são consultoria, auditoria, implementação, formação, rentabilização das soluções e serviços de assistência técnica. Consideramos que a força da Lectra Portugal encontra-se no serviço de pós-venda. Temos actualmente 430 clientes no nosso país. JT – Que tipo de produtos da Lectra é que destacaria? MM – Em primeiro lugar, a gestão de colecções é uma das áreas em que achamos que é urgente investir e já temos implementadas muitas soluções, mas queremos desenvolver cada vez mais. Isto porque hoje em dia o número de colecções é tão grande que assume quase a dimensão de uma produção em termos de organização. Quando entrámos numa empresa, há cinco ou seis anos atrás, tinham duas colecções por ano, mas hoje em dia já não é assim, têm 12 colecções por ano. Portanto, hoje em dia faz-se talvez uma colecção por mês, até porque os clientes assim o querem. Todo o ciclo da colecção adquire uma importância de gestão muito grande. A colecção é tão cara e tão difícil de quantificar, que qualquer deslize pode dar problemas depois na confirmação da encomenda. A plataforma B2B inter-empresas assume assim, uma importância cada vez maior. Nós somos um país maioritariamente de produção, temos pouca criação. Digamos que o nosso negócio é a produção em si, portanto é a transformação da matéria-prima, poucas empresas Portuguesas criam um design e promovem uma marca. O design é criado por alguém do exterior, depois as produções são encomendadas a outros países, um deles Portugal. Portanto, a comunicação B2B tem uma importância muito grande, até porque os tradicionais “faxes” já não funcionam, ou melhor, funcionam mas já não são rentáveis. Mesmo o e-mail não foi desenhado para trocas de informação industriais. Nós temos uma plataforma Lectra, que se chama “Lectra Online Exchange”, dado termos mais de 10 mil clientes em todo o mundo. Ou comunicam pelos métodos tr