Início Notícias Tecnologia

Lectra Portugal conectada à Indústria 4.0

A filial portuguesa foi a primeira do mundo a apresentar a nova oferta “Connected” da Lectra. Rodrigo Siza Vieira, diretor-geral para Portugal e Espanha, aponta as potencialidades e benefícios desta proposta desenhada para o sector têxtil entrar, de forma modular e faseada, na indústria 4.0.

As novidades da Lectra sucederam-se ao ritmo do calendário gregoriano ao longo de 2017. Janeiro começou logo com nota máxima no exame de benchmark da WhichPLM para o Lectra Fashion PLM e o tiro de partida para mais um ano de vendas em alta. Em fevereiro revelou a sua nova estratégia para ajudar as empresas a entrar na indústria 4.0 – anunciada aos jornalistas de todo o mundo, incluindo o Jornal Têxtil, a 7 de abril na sua casa-mãe em Cestas-Bordéus – e encetou uma cascata de nomeações que atinge o seu auge com a indigitação de Rodrigo Siza Vieira como diretor-geral da filial espanhola, a par da portuguesa, em agosto.

Na Lectra Portugal, Rodrigo Siza Vieira soma já 10 anos de liderança, subtrai ameaças ao negócio para multiplicar as vendas/serviços até 10 milhões de euros segundo o último exercício, e divide os sucessos dos novos desenvolvimentos tecnológicos com a ITV do país, como ficou ilustrado no passado dia 24 de novembro com o lançamento da oferta “Connected” em Serralves, numa autêntica “première” mundial, a um vasto leque de clientes nacionais.

Porquê juntar os mercados português e espanhol?

Esta decisão da Lectra vem no que já foi feito noutras regiões, por exemplo no Norte da Europa e Reino Unido que, também no ano passado, se tornaram numa única região, tal como sucedeu nalgumas regiões do leste asiático há mais tempo atrás, quando o Brasil se tornou numa única filial para toda a América do Sul.

O que se pretende é aproveitar as sinergias que existem entre as duas equipas e otimizá-las. A mudança na Lectra Espanha pretende também atingir dois grandes objetivos: estar mais próximo dos clientes, por um lado, e conseguir vencer alguns dos desafios do país, que tem um enorme potencial no mercado da moda e que a Lectra entendeu que não estaria a explorar esse potencial devidamente.

Que ações tem desenhadas para a Lectra Espanha?

Revimos a organização, fizemos alguns acertos de pormenores, nomeámos um diretor comercial, que era uma pessoa que estava na equipa, que conhece muito bem o mercado e a empresa. O mesmo para a área dos serviços. E associado a essas mudanças fizemos alguns ajustes na equipa e na atuação no terreno.

A nossa grande preocupação em Espanha é reaproximarmo-nos dos clientes. A capacidade construir relações de longo prazo com os seus clientes sempre foi um dos valores base da Lectra, tornarmo-nos parceiros de negócio e é isso que queremos fazer. Naturalmente, temos muitos bons exemplos disso em Espanha, mas queremos alargar essa capacidade à generalidade do mercado, isso é uma das intenções imediatas. E depois, pelo potencial que existe de negócio em Espanha, há uma grande ambição por parte da Lectra para esse mercado.

Há metas quantificadas?

Há com certeza. A filial faturará um pouco abaixo dos 6 milhões de euros. Portugal fatura cerca de 10 milhões. Em Espanha somos ambiciosos, mas também sabemos que estas coisas são progressivas. No curto prazo, a filial de Espanha deverá atingir o mesmo nível de atividade que Portugal e, no longo prazo, ser uma filial maior que a portuguesa.

Atingir os números da filial portuguesa, sem querer ser otimista, acredito que seja possível em dois anos, no máximo três, se não houver grandes oscilações no mercado, nem acontecimentos inesperados.

Quais são os planos para Portugal?

Em Portugal há que prosseguir o que temos feito com algum sucesso. Temos uma indústria que soube descobrir o seu lugar na Europa e no mundo e que está em crescimento consecutivo há vários anos. Portanto, temos uma indústria que servimos há 32 anos e uma linha de negócio tradicional que procuramos agora atualizar em linha com a nossa estratégia.

Que estratégia é essa?

A transformação progressiva para um modelo de negócio cada vez mais “Software As A Service” (SAAS).

Até hoje o que temos são soluções de software, não quero dizer isto de modo pejorativo, mas são monolíticas, são aplicações tipo; o que pretendemos é ter, cada vez mais, uma oferta de software modular, que se possa construir conforme o mercado, de alguma maneira customizada. E essa customização é feita em função do modelo de negócio da empresa.

O que ganham os clientes com uma solução SAAS?

Vão ter serviços adicionais que hoje não existem, por exemplo a possibilidade de fazer as marcadas automáticas como um serviço, em vez de ser uma licença de software que têm.

De que forma quer a Lectra posicionar-se no mercado face a essa nova estratégia?

Isto não é a nossa realidade hoje de terreno, é o nossa roadmap de curto/médio prazo. Quando falamos de ferramentas, os nossos clientes, que têm salas de corte ou até várias unidades de produção, são grupos que as suas máquinas de corte geram permanentemente uma quantidade de dados que poderiam ser muito relevantes para a análise e para a tomada de decisão futura e que hoje são, basicamente, dados perdidos. Portanto, criar ferramentas em que os nossos clientes possam analisar o que fizeram, o que não fizeram, o que fizeram bem, o que fizeram mal e suportar esses dados com indicadores que suportam a tomada de decisão, é muitíssimo relevante e vai de encontro às necessidades desta indústria específica em Portugal.

O que pretendemos é fazer uma aproximação progressiva e identificar os processos que são prioritários e mais relevantes para cada modelo de negócio. Se olharmos para as nossas empresas têxteis, têm características que as diferenciam e, por isso hoje são reconhecidas na Europa. Empresas que trabalham em private label, mas de um modo geral falamos de empresas que têm muito boas competências a nível de desenvolvimento de produto, umas até indo mais a montante na própria criação de produto, e que têm capacidade de trabalhar em codesenvolvimentos com os seus clientes. Se formos capazes de chegar com uma ferramenta que se pendura numa plataforma onde se vai ligar às ferramentas de desenvolvimento que as empresas já têm, como a Modaris, e associarem-se ferramentas de gestão de produto, a implementação é muito mais fácil, muito mais rápida e podemos chegar às necessidades específicas deste nosso mercado e destes nossos clientes muito mais rapidamente. Fizemos recentemente um evento de apresentação com alguns clientes desta nova solução, cá em Portugal, e chamámos-lhe justamente “Connected Development”, porque uma das grandes coisas é estar conectado e também ser seguro.

O que propõe essa nova oferta “Connected”?

A oferta “Connected” tem duas linhas – a já referida Connected Development e a Connected Design, que pode ser com o Kaledo mas também com o Adobe Illustrator. Associado a uma tarefa do desenvolvimento do processo, vamos pendurar o Modaris e o DiaminoFashion na nossa plataforma e associar outra ferramenta de produto, por exemplo permitir gerir os acessórios, as matérias-primas, as tabelas de medidas, e ter esse processo coberto nesta plataforma. A mesma coisa, exatamente para os designers, podemos pendurar o Kaledo e/ou o Adobe Illustrator nesta plataforma e complementá-los. Fomos os primeiros a apresentá-la.

Isto, no fundo, não deixa de ser uma porta de entrada para o PLM, é ter uma aproximação progressiva. Uma das dificuldades que sentimos, e não só em Portugal, é as empresas não terem recursos para afrontarem mega projetos. Estes são projetos de entrada muito fácil, que consomem poucos recursos, onde já há uma capacidade de customização da ferramenta grande, que pode ser feita pelo próprio cliente e, portanto, são essas as nossas preocupações de modular a oferta, torná-la mais customizável e permitir uma entrada por processo.

Outra bandeira da Lectra, que já não é nova como a Industria 4.0, é o “made in France”, casa-mãe do grupo.

A Lectra, em 2004, se não estou em erro, fez uma análise muito cuidada se devia deslocalizar o desenvolvimento e a produção de equipamentos para a China e foi decidido, um bocado contra a corrente, manter não só o desenvolvimento e a produção em França, como a sua rede de fornecedores, ter uma rede de proximidade em países europeus. Isso primeiro, já há algum tempo, provou ser a decisão mais correta pelos fatores que conhecemos: valorização da moeda chinesa, aumento dos custos de trabalho e dos custos de contexto na China, dos custos de qualidade, de logística, etc. Mas também foi uma decisão da Lectra muito politica que foi manter a empresa nas suas origens e apostar numa política que é sobretudo francesa, mas muito europeia também, de fornecedores de proximidade. Isso é muito importante quando vemos na indústria da confeção o sobrecusto que há para concorrer face ao Extremo Oriente. Os nossos clientes percebem bem isso e julgo que também percebem que face aos nossos concorrentes, optámos por ficar na Europa, mas que isso, naturalmente, teve numa fase inicial um sobrecusto, não só ligado ao facto de mantermos as nossas operações na Europa, mas também ao nível de investimento que continuamos, todos os anos, a fazer em investigação e desenvolvimento.

Há poucas empresas a investirem uma fatia de 10% do seu volume de negócios em I&D e isso diz bem do compromisso que a Lectra tem com os seus clientes e com o seu futuro. Portanto, é por isso que a Lectra é capaz de ter este nível de diferenciação nos produtos e nos serviços com que chega ao mercado.

Que análise faz de 2017 comparativamente ao ano anterior?

Correu muito bem, felizmente. Graças aos nossos clientes e à nossa equipa foi mais um ano, em termos de negócio, muito bom, não só quantitativamente como também em termos qualitativos. E, naturalmente, à estratégia da Lectra e à qualidade dos produtos.

Os números são a certa altura coisas abstratas, não têm um significado psicológico especial. Não é ter os 10 milhões de euros de volume de negócios, é em termos de negócio ser o melhor ano da Lectra em Portugal, de termos conseguido crescer tanto no mercado automóvel como no mercado de confeção. Mas também crescemos num aspeto muito importante, que é o negócio recorrente, aquilo que nos liga de facto, no longo prazo, aos clientes. Isso é um sintoma que estamos a reforçar a fidelização que temos com os clientes, parece-me até que é o mais positivo, porque as vendas são, muitas vezes, questões conjunturais, no negócio recorrente, não.