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Lectra: venham mais 30

Inovação, tecnologia e serviço são os pilares que sustentam a filial da multinacional Lectra em Portugal. Volvidos 30 anos, celebrados a 6 de novembro com muitos clientes, parceiros, amigos e a equipa de 22 pessoas que trabalham na empresa, a Lectra Portugal quer continuar a acompanhar o desenvolvimento da indústria têxtil e vestuário nacional, respondendo aos desafios colocados pelas mudanças conjunturais e estruturais de um sector que continua a progredir ao quotidiano.

Rodrigo Siza, diretor-geral da Lectra Portugal, fez o balanço destas três décadas de atividade e abre algumas janelas sobre o futuro desta empresa e da indústria que ela serve ao Jornal Têxtil 200 (novembro 2015).

A Lectra acaba de reunir clientes, parceiros e funcionários para celebrar três décadas de atividade em Portugal. Que marco representa esta data?

A Lectra está cá há 30 anos e ainda que possa ter havido durante esta história, como é natural, altos e baixos, o saldo é claramente positivo. Deve-se, naturalmente, à Lectra, à sua tecnologia, aos seus produtos, à equipa, que localmente é um dos fatores que contribui mais para o sucesso, mas evidentemente também é devido aos clientes. Sabe que fiquei particularmente satisfeito por uma razão: faz-se um evento destes numa sexta-feira à noite e conseguimos, em números redondos, juntar 100 pessoas que representavam cerca de 40 clientes. Isso é uma satisfação muito grande, por um lado, por ver que alguns dos líderes dos diferentes subsectores estavam connosco e, por outro lado, ver que alguns destes clientes estão connosco há 30 anos.

Isto foi o melhor sinal em relação a um dos nossos valores, que é a criação de relações de parceria de longo termo com os clientes. E não só a simples presença de muitos desses clientes prova isso, como o ambiente durante o jantar também mostrou isso. Além do mais, aquele pequeno grupo de 40 clientes, que representarão talvez 10% da totalidade dos nossos clientes, tem um peso muito grande para a economia no seu todo: representam mais de mil milhões de euros de volume de negócios e empregam quase 10 mil trabalhadores.

É altura de fixar novos objetivos?

Quando se olha para o futuro, a primeira coisa é compreender e assumir que as metas e os desafios que se colocam são dinâmicos, estão sempre a evoluir e, inclusivamente, a modificar-se. Aliás, essa é uma das características da Lectra enquanto grupo, algo que tem mostrado na sua história, que não é de 30 anos mas de 42. A Lectra Portugal assume a cultura do grupo a que pertence e uma das características é a capacidade rápida de reação e de transformação, como já mostrámos em dois grandes momentos de dificuldade: no início da década de 90 e na crise de 2008/2009. Mostrámos capacidade de saber analisar o que eram as perspetivas no futuro imediato e de adaptar a nossa estratégia em conformidade com a visão que tínhamos disso.

Os nossos desafios estão muito claros: é capitalizar a base tradicional CAD/CAM, através de uma atitude um pouco diferente daquela que seria a de há uns anos e, em vez de olhar objetivamente para um produto – Modaris, Vector ou qualquer outro –, olhar para como é que essas tecnologias, em conjugação com os nossos serviços profissionais, acrescentam valor aos clientes e como é que os ajudam na transformação que eles próprios também têm de ser capazes de fazer. De resto, e particularmente nas indústrias ligadas à moda, que continuam a ser o nosso grande mercado, o sector em Portugal tem provado essa capacidade de transformação. Julgo que a Lectra, tendo no seu ADN e na sua proposta de valor muito vincada essa capacidade de resiliência e de transformação, está numa posição privilegiada para suportar esta indústria que tem também no seu ADN essas características.

De que forma a Lectra, com as suas soluções, tem contribuído para essa transformação da ITV?

As ferramentas são aquelas que temos vindo a desenvolver nos últimos anos. Na área de desenvolvimento de produto, por exemplo, são ferramentas que permitem alguma automatização dos processos.

Se me permitir ir um bocadinho atrás, é preciso compreender que não desenvolvemos novos produtos ou fazemos a evolução dos produtos existentes em função de funcionalidades avulsas, mas sim olhando para o que são os processos dos nossos clientes em cada uma das grandes áreas – criação, desenvolvimento de produto, engenharia de produto, industrialização, produção, etc. Portanto, diria que é uma visão mais cavaleira. Isso passa por automatização de algumas das tarefas envolvidas nesses processos, pela capacidade de criar ferramentas que permitam a colaboração e por algumas novas tecnologias, como é o 3D, por exemplo, que ainda têm que ser absorvidas pelo mercado.

As nossas máquinas hoje têm imbuída “inteligência” com o objetivo, no essencial, de melhorar a eficiência global dos equipamentos, mas também aplicar práticas que, noutras indústrias, já são comuns. Por exemplo, práticas como sejam a de manutenção preditiva, que tem como grande objetivo uma visão diferente no suporte que se dá a esses equipamentos: em vez de ser a capacidade de reagir bem e rápido aos problemas que ocorrem, é evitar que ocorram. Esse é o nosso grande objetivo. Um dos grandes investimentos nos últimos anos foi a inclusão dessa “inteligência” nos nossos equipamentos, que permite uma análise mais fina do desempenho, da eficiência e da antecipação de problemas.

Com é que o atual sucesso da ITV portuguesa e esta fase de maturidade da Lectra Portugal se refletem na casa-mãe?

A Lectra Portugal é uma pequena filial para a Lectra, mas é uma boa filial. Se me permite alguma vaidade por parte da equipa no seu todo, recebemos recentemente um prémio, em que fomos reconhecidos como a melhor filial em 2014. Isso enche-nos de satisfação. Por um lado, é uma motivação para continuarmos, porque quer dizer que temos feito bem o nosso trabalho, mas também diz de algum modo que ainda que a Lectra Portugal seja uma filial relativamente pequena no universo do grupo, é quase um laboratório e é um exemplo de sucesso para a estratégia do grupo no seu todo.

A Lectra não esteve presente na Texprocess nem na ITMA. Porquê?

A Lectra não está tradicionalmente na ITMA. Na Texprocess foi uma decisão estratégica. Não expor numa feira faz parte de uma postura estratégica que está ligada justamente com o facto de o nosso objetivo não ser vender nem funcionalidades nem produtos: é vender uma proposta de valor. É evidente que são decisões polémicas e que foram muito interrogadas e mesmo contestadas por alguns dos nossos clientes. A resposta é que é uma decisão estratégica. Preferimos estar mais próximo dos nossos clientes, compreendendo-os e sendo capaz de apresentar uma solução para cada um dos seus desafios.

E por onde passa essa aproximação aos clientes?

É mais eficiente para mim conseguir levar um grupo de clientes a Bordéus e discutir com eles quais são as questões que têm para colocar e de que maneira os nossos serviços e a nossa tecnologia podem responder a esses desafios do que estar a mostrar uma máquina numa feira.

Este ano, em termos de máquinas, quais foram as campeãs de vendas?

Em termos de máquinas foram as Vector Fashion, sobretudo máquinas de capacidade média-alta entre as máquinas Vector.

E em relação às restantes soluções tecnológicas que integram o portefólio da Lectra?

Este ano retomamos um bocado um produto que estava relativamente parado em termos de vendas, o OptiPlan, a nossa ferramenta de planeamento e preparação para a produção, que registou uma clara subida em número de licenças de software vendidas. Na minha opinião, isto corresponde ao facto de que algumas empresas que iniciaram mais cedo do que outras a resposta a esses desafios prioritários, já estão numa segunda etapa.

Em termos de software, destaca-se ainda o Modaris Expert, que vem na continuidade do que fizemos no ano passado e mesmo em 2013, o que é também um bom sintoma da maturidade tecnológica dos nossos clientes e das equipas dos nossos clientes.

Que novidades traz o próximo ano em termos de produto?

A Lectra tem um ritmo de inovação muito grande, de resto costumo referir sempre este indicador, porque acho que reflete bem a postura da Lectra: nos últimos 15 ou 16 anos, em média, a Lectra tem investido em pesquisa e desenvolvimento 10% do volume de negócios. Há poucas empresas em qualquer indústria com um indicador tão forte. Isso não quer dizer que todos os anos a Lectra seja capaz de apresentar revoluções, mas todos os anos apresenta inovações. Naturalmente que há um roadmap definido para 2016, há alguns lançamentos ou novas versões de produtos existentes que estão previstas, mas não posso abrir muito a cortina. O que está previsto, com impacto mais relevante, será talvez uma nova versão do Modaris.

Prevê o crescimento do volume de negócios para o corrente ano?

Não estou a estimar que a filial vá crescer este ano. O ano passado foi anormalmente bom. A nossa estimativa é que, no mínimo, vamos igualar os resultados do ano passado, na casa dos 8 milhões de euros.

Que expectativas tem para 2016?

Os desafios que nos colocamos a nós próprios e aquilo que estimo em termos de resultados finais vão ser um bocado a continuidade do que foi este ano. Evidentemente que antevemos que haja um crescimento relativo maior na venda de software.

Algum software em particular?

Não. Espero, embora isto não seja exatamente uma previsão, que esse contributo venha por uma das linhas de produtos que temos, na qual tenho uma crença muito particular e que tem sido uma das grandes apostas, que é na área da modelagem 3D. Acho inevitável que o 3D faça parte da indústria de vestuário no futuro, que não sei dizer se será muito próximo ou mais distante. Tem várias dificuldades que se põem para a implementação efetiva desta tecnologia na indústria. A primeira, desde logo, é uma tecnologia jovem e, como tal, demora o seu tempo a ser absorvida pelo mercado.

Se reparar, há 25 anos muito pouca gente acreditava no CAD na indústria têxtil e vestuário. Cheguei a ver pessoas que quase se riam quando se falava nisso. Hoje faz parte integrante, nem sequer é discutível a sua necessidade.

Por outro lado, quando vemos ou discutimos 3D com clientes na área do vestuário, há muitas dúvidas que são absolutamente normais quando se fala numa tecnologia nova e de um processo que ainda não está imbuído na indústria. Há ainda tarefas adicionais, mas que acabam por reduzir o ciclo no seu todo. Isso tem um impacto muito grande ao nível dos custos e de tempo. É esse o grande objetivo. Agora é evidente que as pessoas ainda têm algumas reticências se as decisões que tomem com base num protótipo virtual serão de facto boas ou não. Mas depois também se vê que as pessoas mais jovens que entraram agora, estão a entrar ou vão entrar no mercado de trabalho já nasceram com as tecnologias 3D. Portanto, para elas, essa questão nem se irá pôr.

Já temos empresas portuguesas a utilizar essa tecnologia 3D?

Poucas, mas já há, como por exemplo a Cordeiro & Campos.