Início Notícias Mercados

Legislação da UE sobre diligências traz benefícios

Especialistas, grupos de pressão, marcas e retalhistas, como a C&A, acreditam que legislação da União Europeia sobre as diligências devidas no âmbito da sustentabilidade na indústria da moda é importante não só para os consumidores, mas também para quem quer melhorar as suas credenciais sociais e ambientais.

[©C&A]

Durante o evento Media Masterclass on Transparency in the Apparel and Footwear Industry, dedicado a avaliar se a legislação proposta pela UE de dever de diligências é precisa e se as marcas estão preparadas para a mesma, a resposta pareceu unânime, com os intervenientes a assumirem a necessidade de estabelecer conceitos claros.

A sessão, revela o Just Style, foi centrada na ideia de que o greenwashing entre marcas e retalhistas está a piorar e que alegações de sustentabilidade não consubstanciadas confundem e enganam os consumidores, resultando ainda num cenário de concorrência desleal que é preciso desmontar.

Baptiste Carrière-Pradal, presidente da Policy Hub – uma das entidades organizadoras do webinar, juntamente com a Global Fashion Agenda – propôs a proibição de alegações de sustentabilidade ambíguas e genéricas, assim como as que simplesmente respondem a exigências legais, como “feito sem trabalho forçado”. «Isto torna mais fácil para os consumidores acederem e compreenderem verdadeiramente o impacto ambiental do seu vestuário e calçado», acredita. «A proliferação de vários programas de certificação torna difícil para os consumidores compararem, diferenciarem e compreenderem o impacto ambiental do vestuário», acrescentou.

Carrière-Pradal destacou que não existe um quadro aceite para a indústria da moda e que o greenwashing torna difícil para outras marcas fazerem uma afirmação sobre a performance ambiental de um artigo. «Para diferenciar o ruído da verdade, é necessário implementar uma verdadeira legislação», sustentou.

[©C&A]
Além disso, referiu o presidente da Policy Hub, para um consumidor estar informado tem de acontecer duas coisas: poder confiar que a informação é precisa e verdadeira e haver uma padronização de como uma alegação é calculada.

Embora a Policy Hub apoie o objetivo da Comissão Europeia de proteger os consumidores de alegações enganadoras e assegurar que a informação é real, Carrière-Pradal enumerou uma série de recomendações, incluindo que as alegações comparáveis ao nível do produto sejam apoiadas por uma análise completa ao ciclo de vida do produto e que as alegações comparáveis ao nível dos materiais empregues só possam ser possíveis se tiverem uma avaliação independente ou verificável de todas as categorias de impacto relevantes. «Só se pode fazer uma alegação ambiental se toda a gente calcular a alegação com o mesmo método, usando exatamente a mesma abordagem para o fazer», resumiu.

Foco na transparência

Martha Williams, diretora-sénior de circularidade e materiais sustentáveis da C&A, considera que, de uma perspetiva de marca, a pegada ambiental dos produtos (PEP) permite dados comparáveis. «As avaliações de ciclo de vida do produto têm sido muito difíceis de comparar. Temos diferentes fronteiras e diferentes conjuntos de dados. Ter os mesmos conjuntos de dados de base vai fornecer dados comparáveis pela primeira vez, esse é um passo muito positivo – avaliar o impacto dos nossos produtos por nós, mas também pelos nossos consumidores», afirmou.

«Atualmente temos mesmo objetivos de como ajudar os consumidores a fazer escolhas mais sustentáveis e ser mais transparentes. A nossa abordagem até agora tem estado em grande parte alinhada com a certificação de terceiros. O que a PEP traz é o ciclo de vida completo do produto, que sabemos que é importante. Enquanto marca, podemos ver a que estamos a responder – pontos quentes num ciclo de vida. Estamos a usar os dados para podermos reduzir o nosso impacto o máximo possível. O outro lado é o consumidor e falta de comparabilidade. Estar envolvidos nesta metodologia permitiu-nos ver como podíamos traduzir isto para os consumidores de forma fácil e sem os enganar», acrescentou.

Todos os oradores foram unânimes a considerar que a legislação já fazia falta há muito. JD Shadel, diretor de conteúdo da Good on You, explicou que atualmente não existe obrigação de comunicar em relação à sustentabilidade e que não há padronização nesse sentido, pelo que as marcas podem escolher o que dizem e o que omitem. Como resultado,

[©C&A]
podem fazer afirmações que vão ao encontro dos seus esforços de marketing sem dados que as comprovem. «A legislação é necessária em todo o mercado – uma abordagem unificada», sublinhou.

Martin Hojsik, deputado europeu eslovaco e membro da Comissão do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar do Parlamento Europeu, concordou que atacar a desinformação não é apenas benéfico para os consumidores, mas também para as marcas. «Cria um campo de jogo nivelado na UE e internacionalmente. Um sistema harmonizado dá a perceção de consistência», reforçou.

Contudo, uma das falhas às atuais propostas de legislação é que não abordam o volume de vestuário produzido ou como é que as marcas estão a afetar o modo de vida das pessoas nas suas cadeias de aprovisionamento, salientou Delphine Williot, coordenadora de política e pesquisa na Fashion Revolution, que deu ainda conta de uma «clara falta de transparência na indústria». Como afirmou, «por um lado temos as marcas a impulsionarem o consumo – a dizerem aos consumidores que estão a comprar um artigo sustentável. Por outro lado, apenas 30% das marcas inquiridas definiram um processo do que é considerado um material sustentável. A legislação dá-nos a oportunidade de assegurar que as alegações das marcas são consubstanciadas. As marcas serão forçadas a mapear as cadeias de aprovisionamento e a recolherem dados dos seus fornecedores».

Para JD Shadel, «a minha esperança para os próximos cinco anos é ver uma indústria de vestuário em que os trabalhadores são pagos de forma justa, respeitados e valorizados pelas suas capacidades. Quero ver uma indústria que responde à crise do desperdício, à sobreprodução e ao excesso de consumo. Chegamos até aqui, mas temos de ir muito mais longe, mais rapidamente. Tenho esperança quando vejo milhões de pessoas a pedirem mudança»