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Lemar aponta para Norte

Ao aumento das vendas de outros tipos de artigos para os clientes já existentes, a produtora de tecidos, cada vez mais “verde”, está a somar o reforço da presença no Norte da Europa, numa aposta que lhe permitiu crescer em 2020 e que, ao que tudo indica, deverá levar a um salto ainda maior em 2021.

Manuela Araújo

O Norte da Europa é, atualmente, o foco principal das investidas de expansão internacional da Lemar, que no início do mês de setembro esteve presente na feira Preview Fabrics Stockholm, em Estocolmo, para explorar o potencial dos mercados da região. «Estou muito interessada em virar-me um bocadinho para os países nórdicos», assume a CEO Manuela Araújo, que vê nesta geografia «potencial» para o tipo de produto sustentável em que a especialista em tecelagem se tem diferenciado.

A nova coleção usa matérias-primas como os fios reciclados Seaqual, produzidos a partir de plástico recolhido no mar, e Newlife, obtido a partir de garrafas PET, e os biodegradáveis Yarnaway (poliéster) e Amni Soul Eco (poliamida). «Temos variadíssimos produtos, tudo para bem do nosso ambiente», garante Manuela Araújo, que salienta ainda que a Lemar «só usa produtos europeus e certificados».

Os reciclados não são uma novidade na empresa, que há 20 anos começou a usar este tipo de matéria-prima, embora, na altura, com pouca relevância para o mercado. «Há coisa de cinco ou seis anos recomeçámos com o Newlife e com o Seaqual e nessa altura houve realmente um boom», confessa a CEO. Com estes fios, a Lemar produz tecidos que podem ser usados numa miríade de artigos, desde calções de banho, onde é uma referência para marcas como Villebrequin e Orlebar Brown, a anoraques e casacos, como o criado pela Fendi. «Um artigo leve pode dar para um vestido ou uma saia, mas se levar um revestimento ou uma membrana respirável serve para uma gabardina ou um anorak», explica ao Portugal Têxtil.

Vendas aumentam

Esta diversidade permitiu à empresa crescer em 2020, onde aumentou em 10% o volume de negócios. «Estamos a crescer nos mesmos clientes, mas com outro tipo de produto. Ainda na Première Vision recebemos o CEO da Villebrequin, com quem trabalhamos há muitos anos, e ele quer agora desenvolver projetos novos, sem ser fatos de banho», exemplifica Manuela Araújo.

[©Lemar]
O regresso às feiras presenciais – que neste segundo semestre já conta paragens na Preco Paris, Milano Unica, London Textile Fair, Preview Fabrics Stockholm, Interfilière, ETmad Madrid, Baltic Fashion & Textile e Première Vision Paris, a que se deverá somar, em novembro, a Mare di Moda, em Cannes – tem contribuído para a renovação dos contactos pessoais e potenciado o negócio da Lemar, que até agosto registou um aumento do volume de negócios superior a 30% face a igual período de 2020.

«Este ano está a correr muito bem, estamos com problemas de entrega mesmo por falta de capacidade de produção. Trabalhamos três turnos e, mesmo assim, estamos a ficar com falta de capacidade», revela a CEO.

Mão de obra e impostos são desafio

A dificuldade em contratar é, de resto, um dos desafios atuais da Lemar. «Estamos a tentar qualificar as pessoas e a empresa – temos agora uma engenheira para a qualidade e um engenheiro de produção, por exemplo –, mas estamos com um problema gravíssimo de falta de pessoal médio, pessoal de tecelagem. As pessoas vão-se reformando, liga-se para o fundo de desemprego e não há pessoas que queiram trabalhar», admite Manuela Araújo. Um desafio que ultrapassa a questão do salário. «Pago salários acima da média, não tenho ninguém a ganhar o ordenado mínimo. A fábrica é uma família, não tenho abstenção nenhuma, as pessoas não faltam, trato toda a gente muito bem, eles tratam-me todos muito bem, dou condições de trabalho ao meu pessoal para eu ter também, porque estou com eles todo o dia na fábrica», reconhece.

[©Lemar]
Uma mais-valia também na hora de combater a concorrência asiática, incluindo junto dos clientes dos países nórdicos. «Temos só fios europeus, produzimos em casa, temos vários parceiros de acabamento, estamparias e confeções, tudo aqui à volta. Que necessidade há de mandar fazer umas calças ou um casaco para o Vietname ou para o Bangladesh quando há tantos confecionadores aqui? E depois não tem nada a ver aquilo que apregoam com aquilo que fazem. Porque toda a gente sabe que nos países asiáticos, muitos deles têm crianças a trabalhar, as pessoas vivem dentro das fábricas, só comem, dormem e trabalham. O nosso pessoal entra, trabalha as horas que tem de trabalhar e vai-se embora ter com a família, são todos felizes. Não é melhor assim? Mas se os clientes não nos ajudarem, não podemos fazer isso», assegura.

Ainda assim, Manuela Araújo mostra-se otimista em relação ao futuro da indústria têxtil nacional. «Quando queremos fazer bem, fazemos bem e se os outros são capazes, nós também. Temos tradição na têxtil e temos tradição na confeção, porque é que vamos deitar isso fora? Mas as pessoas não podem ficar sentadas à sombra da bananeira. É preciso promover mais e aumentar a colaboração entre empresas também», considera a CEO da Lemar, que reclama ainda, da parte do Estado, uma redução dos impostos. «Não é dar dinheiro, é baixar os impostos, porque assim ajuda toda a gente. O IVA está altíssimo em relação aos outros países. A energia também. Só dessa forma é que se pode recompor o nosso Portugal, porque dar dinheiro é a pior coisa que pode existir», acredita.