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Levi’s aplica blockchain à responsabilidade social

Em parceria com a Harvard e a New America, a gigante do denim pretende usar a blockchain para medir a segurança, as condições de trabalho e o bem-estar dos trabalhadores da sua cadeira de aprovisionamento. O objetivo é realizar inquéritos anuais aos trabalhadores em regime de anonimato.

O programa piloto foi anunciado no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, e resulta da colaboração entre a Levi Strauss & Co, a Harvard T.H. Chan School of Public Health e o think tank New America. O projeto é financiado através de uma bolsa do Departamento de Estado dos EUA.

Numa primeira fase, o programa será testado em três fábricas que produzem para a Levi Strauss & Co, no México, e empregam cerca de 5.000 trabalhadores. Na prática, trata-se de um sistema que pretende ir além das auditorias às condições de segurança e saúde, através da realização questionários aos próprios trabalhadores com a blockchain. Os inquéritos terão como base o índice da iniciativa Sustentabilidade e Segurança das Empresas (SHINE na sigla inglesa) da Harvard T.H. Chan School of Public Health. A empresa nova-iorquina Consensys irá criar a solução de blockchain para o projeto.

A ideia é realizar um inquérito anual aos trabalhadores, num projeto que os participantes consideram ser um passo essencial para uma avaliação mais transparente das condições de trabalho nas fábricas. «Ao longo dos últimos 25 anos, o trabalho nas cadeias de aprovisionamento tem sido monitorizado maioritariamente por auditorias. O sistema de inquérito através da blockchain, que vai diretamente à fonte (trabalhadores), é uma solução inovadora», reconhece Eileen McNeely, diretora da iniciativa SHINE. Eileen McNeely crê que o novo programa tem potencial para ser replicado por todo o mundo. «A maioria da utilização dada à blockchain é para o rastreamento de materiais. Usar esta tecnologia para a avaliação da condição humana é uma inovação entusiasmante com um grande potencial de ter um impacto positivo no bem-estar dos trabalhadores em todo o mundo», admite.

Citado pela Reuters, Tomicah Tillemann, fundador do Blockchain Trust Accelerator (BTA) da New America, explica que, «com uma plataforma segura e transparente, será possível agregar e analisar os dados dos inquéritos dos trabalhadores». Allison Price, diretora executiva da BTA, em entrevista à Reuters, sublinha que «deste modo, os resultados nunca serão manipulados».

Uma gigante preocupada com o bem-estar

Esta não é a primeira vez que a Levi Strauss & Co dá cartas na responsabilidade social. Recorde-se que, em 1991, a gigante do denim se tornou a primeira multinacional a desenvolver um código de conduta para as empresas na sua cadeia de aprovisionamento e, em 2005, esteve entre as primeiras empresas a divulgar os nomes e as localizações das fábricas operadas por si, subcontratadas e licenciadas à escala global.

Atualmente, o programa de bem-estar (com sigla inglesa WWB) da empresa visa melhorar as vidas dos trabalhadores que, por todo o mundo, produzem os seus artigos. Até ao momento, a iniciativa chegou a cerca de 200 mil funcionários, com programas que pretendem combater problemas relacionados com a saúde, segurança financeira e desigualdade de género.

Numa publicação no blog da Levi Strauss Foundation, Kim Ameida, diretora do WWB, que irá supervisionar o inquérito, explica que este irá contar com «questões muito pessoais», não apenas acerca de família e saúde dos trabalhadores, mas também sobre os gerentes das fábricas e todo o espaço onde trabalham. «Algumas pessoas têm receio de falar. Não sabem se podem haver repercussões acerca do que dizem. Por esta razão, é essencial que os resultados do inquérito sejam anónimos, o que é assegurado pela plataforma. Esperamos que garantir o anonimato dê aos trabalhadores uma maior confiança para dizerem o que pensam e, desse modo, dar aos investigadores (e a nós) uma visão mais realista das condições nestas fábricas». Kim Almeida acredita que o questionário será facilmente replicado a outros sectores e empresas, o que irá permitir que dados acerca do bem-estar dos trabalhadores sejam analisados mais aprofundadamente. «Um dos objetivos do WWB é influenciar a indústria do vestuário. Acreditamos que o trabalho da SHINE, em parceira com a Levi Strauss & Co, será uma ferramenta importante que nos irá aproximar deste objetivo de aumentar a nossa abordagem à realidade», afirma.