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Luís Buchinho em digressão com Sal

O livro escrito por João Andrade e ilustrado por Luís Buchinho está a ser apresentado um pouco por todo o país. Depois de Lisboa, Matosinhos e Setúbal, chega a vez, no dia 18 de dezembro, do Funchal, a cidade onde está sediada a Fundação Cecília Zino, que serviu de inspiração à história e para a qual revertem parte das vendas.

Luís Buchinho [©FNAC]

A próxima apresentação está agendada para a FNAC Madeira, às 17 horas de domingo, e contará com a presença de Luís Buchinho, João Sá Mota, diretor-executivo da Fundação Cecília Zino, e Eduardo Jesus, Secretário Regional do Turismo e Cultura.

A Madeira, contudo, não deverá ser a última paragem deste périplo de divulgação da obra, até porque, afirmou Luís Buchinho, «acho que realmente temos algo a dizer», o que tem ficado vincado nas sessões de apresentação que já tiveram lugar. «O livro tem uma mensagem muito forte, é uma mensagem que faz com que o público se integre um pouco mais na realidade das crianças desfavorecidas que vão para casas de acolhimento. Foi uma aventura que me deu realmente muito que fazer e estados emocionais muito variáveis. Foi uma experiência muito forte e, no fundo, foi também o concretizar de um sonho de infância que ficou abandonado quando fiz a minha escolha por uma carreira ligada à moda e que sempre achei que, mais dia menos dia, ia recuperar. Esta é a prova que recuperei, é a Sal que se materializou agora», explicou ao Portugal Têxtil à margem da sessão que decorreu na FNAC do Norteshopping, em Matosinhos, no passado dia 2 de dezembro, e que contou ainda com a presença de João Sá Mota, Marco Mendes, professor e fundador do Clube de Desenho do Porto, e a apresentadora Maria Cerqueira Gomes.

Marco Mendes, Luís Buchinho, Maria Cerqueira Gomes e João Sá Mota [©FNAC]
Uma realidade pouco conhecida

A história acompanha Sal, uma adolescente de 14 anos que vive com os pais num ambiente familiar negligente que, por indicação da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e decisão do tribunal, acaba por ser colocada numa casa de acolhimento temporário.

«A ideia foi proposta pelo João Andrade [que trabalha com jovens em risco] e teve a ver com aperceber-se de uma estranheza de termos crianças que acolhemos que começam a sentir-se mal por se sentirem bem connosco. O facto de se sentirem protegidas, acolhidas, bem tratadas, provoca nelas uma angústia, porque sentem que se estão a afastar da família de origem e isso é um problema difícil de gerir internamente», revelou João Sá Mota na sua intervenção. Um tema incontornável na sociedade portuguesa, até porque, mostram os números citados pelo diretor-executivo, em 2020 havia mais de 75 mil crianças em risco acompanhadas pelas Comissões de Proteção de Crianças e Jovens, das quais 5.787 em casas de acolhimento como a da Fundação Cecília Zino.

[©Showpress]
«Queremos falar sobre isto porque, ainda há três semanas, eu estava num colóquio e o Presidente da Ordem dos Psicólogos da Madeira estava a dar uma referência: uma criança mal tratada, mal nutrida, mal cuidada até aos cinco anos, a violência e o impacto que isso tem sobre o sistema nervoso da criança é igual ao da exposição a um produto químico. É irrecuperável. É tocada e é muito difícil quebrar esta situação. Fiquem com a ideia de que 50% das crianças que passam por casas de acolhimento vão desenvolver, no futuro, uma perturbação mental grave. E com isso estamos a dizer que são muitas crianças e é uma realidade muito difícil de entender», apontou.

Suor e lágrimas

Um tema difícil que trouxe igualmente desafios a Luís Buchinho, que foi convidado para trabalhar no livro em 2020, durante a pandemia. «Pensei que entre ficar a desenhar isto e criar um projeto ou ficar a pensar no declínio da moda e da empresa, nas falências, nas insolvências, se calhar, era melhor ter aqui uma coisa que me ocupasse 100% a cabeça e as 24 horas do dia», contou o designer à plateia. O processo envolveu muitas horas de aprendizagem com tutoriais do YouTube e aulas online do Clube de Desenho do Porto, lecionadas por Marco Mendes. «Comecei a desbravar um mundo de ensinamentos que estava ávido por ter, porque sentia muitas dificuldades a fazer o livro – havia coisas que eu, pura e simplesmente, não conseguia desenhar», confessou Luís Buchinho. «A realidade do livro é dura, mas a realidade é muito mais dura. O João Andrade comunica-me histórias que, se um dia as tiver de desenhar nos outros volumes, vai ser muito mais violento do que estas. Tentei, de certa maneira, mostrar coisas que seguem um pouco mais pela sugestão e não pelo lado tão gráfico da situação, para deixar que o público se aperceba daquilo que poderá estar na mentalidade de uma criança, mas que não seja algo que choque demasiado», esclareceu.

[©Showpress]
Um processo que acabou por ser de “suor e lágrimas”, como o mesmo descreveu ao Portugal Têxtil. «Foi um processo feito aos poucos, com partes emocionais muito gratificantes, porque acho que recuperei um bocadinho daquele rapazinho que gostava de banda desenhada e redescobri um entusiasmo quase infantil ao abrir os livros. Voltei a ter isso aos 50 anos de idade, o que é um privilégio. Acredito ser um luxo uma pessoa conseguir arranjar novamente um ponto de paixão tão intenso. Senti-me muito privilegiado e, como tal, agarrei o projeto com sangue, suor e lágrimas. Com sangue não, mas com bastante suor e lágrimas», assumiu.

Uma paixão redescoberta

O livro, que está à venda na FNAC e na loja online de Luís Buchinho e cujas receitas revertem, parcialmente, para a construção de uma nova casa de acolhimento da Fundação Cecília Zino, é apenas o primeiro volume, estando prevista a publicação de mais dois.

«Vamos contar histórias não só dela [Sal] mas também das pessoas que a rodeiam e vamos esperar obviamente os resultados deste trabalho para podermos continuar a fazer isto com segurança financeira», adiantou ao Portugal Têxtil. Um desejo de continuidade que vive também desta paixão redescoberta do agora ilustrador. «Obviamente, isto abriu-me a cabeça e a ambição para outros projetos. Já tenho também vontade de desenhar coisas, não sei se escritas por mim, porque não sei se tenho essa capacidade, mas quero, sem dúvida, explorar mais esta área, esta minha faceta de ilustração, que acho que é uma faceta que poderia ter desenvolvido, que poderia ter sido a minha vida e que foi preterida ou relegada para um segundo plano devido à moda», sublinhou Luís Buchinho.