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Lusitano quer transformar a ITV

Apresentado na passada sexta-feira, o projeto Lusitano contempla um investimento superior a 110 milhões de euros, parte do qual foi já realizado pelas empresas Calvelex, Paulo de Oliveira, Polopiqué, Riopele e Twintex. Entre os objetivos traçados constam ainda a criação de mais de 300 empregos e um acréscimo de 78 milhões de euros por ano em produtos no mercado.

Paulo Augusto Oliveira, Luís Guimarães, José Alexandre Oliveira, António Costa, César Araújo, Marco Araújo, António Mineiro, Mário Passos e Rui Freitas

A instalação de uma unidade de fiação para fios reciclados e com fibras naturais mais amigas do ambiente, como linho, cânhamo e urtiga, a investigação e desenvolvimento de novos têxteis e vestuário, a criação de soluções para melhorar a gestão dos recursos que respondam aos desafios ambientais e energéticos, e a promoção e internacionalização da indústria têxtil e do vestuário nacional são alguns dos objetivos do Projeto Lusitano, anunciados na passada sexta-feira, 13 de janeiro, nas instalações da Riopele, uma das 17 parceiras que integram o consórcio do projeto, liderado pela Nau Verde, uma empresa criada pela Calvelex, a Paulo Oliveira, a Polopiqué, a Riopele e a Twintex.

César Araújo

«O Projeto Lusitano reúne um conjunto de empresas de vários segmentos e áreas de atividade. Podemos dizer que estas empresas representam cerca de 300 anos de conhecimento. Com esta agenda estamos a ligar universidades e centros tecnológicos e ajudar empresas a prepararem-se para a transição digital, energética e com quadros qualificados», afirmou César Araújo, presidente do conselho de administração da Calvelex.

«A nossa agenda conta com 111,5 milhões de euros de investimento aprovado, envolvendo 11 empresas, universidades, centros de investigação e desenvolvimento e associações, tendo projetos mapeados em todos os eixos considerados fundamentais: investigação e desenvolvimento, inovação produtiva, internacionalização, promoção e disseminação e informação», elucidou Rui Freitas, presidente do conselho de administração da Nau Verde, durante a apresentação realizada no âmbito da iniciativa governamental PRR em Movimento.

Rui Freitas

A meta final é «impactar a indústria de forma transversal, da fibra ao consumidor. Parecendo uma ideia simples, obrigará à investigação na área das fibras, a adoção de tecnologias industriais que transformarão as nossas fábricas com recurso à inteligência artificial, que levarão a sustentabilidade aos consumidores e lhes permitirão um consumo mais consciente. Mas não terminaremos aí. Na busca pela circularidade, reintroduziremos o que antes era desperdício de novo na cadeia de valor e iremos dar atenção particular à preservação dos recursos naturais. Com isto queremos fazer marca, promover o nosso modo de fazer pelo mundo e fazer sustentável feito em Portugal incontornável da nossa indústria», esclareceu Rui Freitas. «É nosso objetivo consolidar a moda portuguesa no pelotão da frente da moda internacional. Criaremos mais de três centenas de postos de trabalho. Capacitaremos a nossa mão de obra com cerca de 55 ações de formação, numa agenda com uma capacidade exportadora de 91%. Desta Agenda sairão publicações científicas, cerca de 78 milhões de euros de novos produtos, por ano, no mercado», destacou.

Investimentos em curso

Vários investimentos foram já realizados no âmbito do Projeto Lusitano, como a central de biomassa da Riopele, que recebeu a visita do Primeiro-Ministro, António Costa, do Ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, e do Secretário de Estado da Economia, Pedro Cilínio, também na passada sexta-feira. O investimento, que ronda os 6 milhões de euros entre equipamentos e edificado, deverá começar a funcionar em pleno no final de janeiro, permitindo à empresa reduzir em 65% o consumo de gás.

Visita à central de biomassa da Riopele – José Alexandre Oliveira e António Costa

E a empresa tem novos investimentos preparados. «Temos um projeto de investimento para a Riopele na ordem dos 14 milhões de euros para os próximos três anos», revelou o presidente José Alexandre Oliveira.

Paulo Augusto Oliveira

A Paulo de Oliveira, que está «alinhada com os restantes parceiros na parte da reciclagem, na parte digital, na parte da redução da pegada de carbono, da circularidade», como assegurou, ao Portugal Têxtil, Paulo Augusto Oliveira, administrador da empresa, já fez investimentos numa caldeira de biomassa, no aumento do parque fotovoltaico, em novas tecnologias de fiação para fibras recicladas e no desenvolvimento de novos produtos. «Neste momento, mais de 50% dos investimentos estão contratualizados, alguns já estão a ser instalados», indicou.

Luís Guimarães

O mesmo acontece na Polopiqué. «Já começámos a implementar investimentos desde o início de 2022», garantiu Luís Guimarães, presidente da empresa, que espera ter a caldeira de biomassa a funcionar ainda este trimestre, vai instalar mais 5 MW de fotovoltaicos, tem efetuado investimentos na fiação para aumentar a produção, nomeadamente de fibras recicladas, e um sistema de tratamento de águas residuais, «que é o nosso investimento mais forte», salientou.

Nas especialistas em vestuário que integram o consórcio, os investimentos estão igualmente em curso. «A Calvelex quer criar o maior atelier industrial do mundo. Significa que qualquer cliente a nível mundial vai querer ter nem que seja um modelo produzido por nós», explicou César Araújo, sendo que para isso a empresa está a apostar «em design, inovação, máquinas automatizadas, mas sempre sem perder a componente de alfaiataria». Até ao momento, «a Calvelex já investiu mais de 40% do previsto no PRR», avançou.

António Mineiro

Também a Twintex «nunca cristalizou ao longo dos anos. Tivemos sempre um desenvolvimento bastante importante e agora com este projeto, penso que é um reforço nas condições que temos vindo a desenvolver, nomeadamente ao nível da sustentabilidade, da investigação, da tecnologia, que nos vai dar uma margem de resistência para mais alguns anos», asseverou António Mineiro, fundador da empresa.

Governo aplaude

Para o Primeiro-Ministro, «a transição energética e o investimento no digital e na automação do chão de fábrica são desafios cruciais para o futuro da nossa indústria», sendo que, no caso do têxtil e vestuário, a história recente, nomeadamente durante a pandemia, mostrou a sua capacidade de resiliência e transformação. «Essa capacidade de reinvenção demonstra bem que temos uma enorme oportunidade para podermos ser um local de relocalização ou de aumento da capacidade de produção industrial da Europa. Nós beneficiamos de uma posição geográfica que deixou de ser uma desvantagem e passou a ser uma vantagem na articulação da Europa com o resto do mundo. Nós temos a vantagem de ser um dos países mais seguros do mundo num momento onde a segurança tem um valor quase incalculável. Nós temos um saber feito ao longo de uma experiência industrial de quase um século aqui nesta empresa, de mais de um século em outras empresas e temos uma capacidade e uma mão de obra qualificada», afiançou António Costa.

António Costa

Aproveitar o PRR, cujo prazo de execução termina «às 24 horas do dia 31 de dezembro de 2026», para acelerar a transição da indústria é, por isso, fundamental, considera o Primeiro-Ministro, que destacou ainda a importância da colaboração, que é um dos requisitos destas agendas. «É muito importante que se tenha lançado este desafio, de que as empresas trabalhem em conjunto porque temos de aumentar a dimensão das empresas. As pequenas têm de ser médias, as médias têm de ser grandes e as grandes têm de ser globais. Eu não sou empresário e, por isso, não digo aos empresários como é que crescem, se crescem organicamente, se crescem colaborando entre si. Agora, o desafio que lançámos foi que estas verbas das agendas existem para quem venha em consórcio, um convite para que trabalhem em conjunto e esse é o primeiro passo fundamental para ganharmos escala, para ganharmos dimensão», porque «somos muito maiores todos juntos e a trabalhar em conjunto», referiu.

Em relação ao Projeto Lusitano, António Costa deixou «um grande e profundo agradecimento a todos os parceiros do consórcio, à dedicação e ao empenho que fizeram para o construir, para o desenhar, para o financiar, porque o apoio do PRR é só uma parcela, importante, no conjunto do investimento que realizam pelos vossos próprios meios e que permitem a concretização deste projeto. E, portanto, a ousadia de o conceber, de o executar, de o cofinanciarem e, sobretudo, de o porem a correr, o meu agradecimento e os meus votos de um grande sucesso na sua execução».