Entre paredes também elas de luxo, na Casa do Infante, no Porto – um dos edifícios mais antigos da Invicta, onde se acredita que nasceu o impulsionador dos Descobrimentos, o Infante D. Henrique, em 1394 –, marcas e especialistas de luxo juntaram-se na passada sexta-feira para analisar o mercado, as estratégias e os casos de sucesso de uma das indústrias mais cobiçadas do mundo: o luxo.

Com um mercado que ascendeu a 865 mil milhões de euros em 2014, de acordo com os dados apresentados por Armando Branchini, vice-presidente da Fondazione Altagamma, o luxo deverá continuar a crescer, incluindo nas duas principais categorias: automóveis de luxo, com 351 mil milhões de euros, e bens de luxo pessoais, com 223 mil milhões de euros. «A Europa tem uma quota de mercado superior a 70%», destacou Armando Branchini, que sublinhou que «a indústria do luxo é património da Europa, da UE em particular, a que se soma a Suíça».

A taxa de crescimento no último ano, contudo, foi diferenciada, sendo a indústria automóvel a que registou maior evolução (+10%), um segmento onde a Alemanha tem uma quota de mercado que ultrapassa os 80%.

O retalho monomarca deverá continuar a ser o principal motor de crescimento do consumo de luxo, embora as vendas online se estejam a tornar «interessantes», representando atualmente 5% de todas as compras, com destaque para o consumo online nas Américas, região que representa atualmente 58% das compras de luxo pela Internet.

Na sua apresentação, Branchini destacou ainda as principais cidades do luxo, uma lista encabeçada por Nova Iorque, que sozinha representou 22 mil milhões de euros. «É a verdadeira capital do luxo do mundo, seguida de Paris», indicou o vice-presidente da Fondazione Altagamma.

Incidindo no pronto-a-vestir, Branchini destacou o equilíbrio entre o consumo por parte de homens e senhoras, com estas últimas a terem-se destacado no ano passado, retomando a liderança, mas por uma margem reduzida. No futuro, as previsões deste especialista são de que, no pronto-a-vestir, «o crescimento será, em média, entre 4,5% e 5% ao ano».

Dominique Jacomet, presidente do Institut Français de la Mode, por seu lado, destacou os desafios que os atores da indústria do luxo, nomeadamente as casas de moda francesas, enfrentam na atualidade. «O seu principal desafio, na minha perspetiva, é combinar a indústria com a história», referiu, citando o exemplo da Hermès, que «há 30 anos era muito pequena» e hoje tem escala mundial.

A solução encontrada parece residir na verticalidade. «Estão cada vez mais envolvidas na produção, decididas a fazer e a produzir “em casa”, mas também a vender no retalho, com lojas próprias», afirmou Jacomet, que por último destacou o impacto desta indústria na economia. «Depois da crise financeira, a indústria do luxo continuou a empregar pessoas – criam emprego direta e indiretamente», sublinhou.

Tudo isto torna o luxo fundamental para o mercado mundial, incluindo para a realidade portuguesa. Prova disso foram os casos apresentados ao longo do dia, como os empreendimentos do Pine Cliffs Resort, onde os serviços são pensados à medida de cada consumidor, para umas férias verdadeiramente de luxo, a capacidade de reinvenção e de contar uma história da Symington Family Estates, que detém os vinhos do Porto Graham’s, ou ainda o sucesso internacional da Farfetch e das marcas Munna e Ginger & Jagger da Urbamint Design, cujas peças já conquistaram clientes de renome como a Dior.

«A mensagem das histórias de sucesso que aqui estiveram está relacionada com a autenticidade, de as pessoas não renegarem as suas raízes, verem o que fazem de melhor e sobre isso basearem uma estratégia», considera Isabel Cantista, fundadora e CEO da FFI – Fast Forward Innovation, que organizou a Porto Luxury Brands Summit. «Um dos desafios que foi aqui lançado é que as marcas não devem querer ser seguidoras mas, dentro da matriz da cultura europeia que nós temos, procurar os valores que têm a ver com a lusofonia, com Portugal, com as muitas coisas que temos de raiz», acrescentou.

«Portugal foi o país que impulsionou, segundo os livros de história, o primeiro grande movimento de globalização. Antes dos portugueses, não existia mundo. Acho que estamos numa fase em que podemos perfeitamente protagonizar uma nova onde de globalização em que existe também o ADN português», concluiu Isabel Cantista.