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Luxo em Macau

Os casinos podem deixar de ser o principal atrativo de Macau. A ex-colónia portuguesa, conhecida como a capital mundial do jogo, está a tentar diversificar a sua imagem, numa estratégia onde o luxo tem o papel principal para atrair os chineses abastados que estão a trocar Hong Kong por outros destinos.

A retalhista de relógios de luxo Halewinner vai quase que duplicar o número de lojas no território chinês de Macau, dando mais um golpe no mercado de retalho de Hong Kong, já em dificuldades. O Halewinner Watches Group vai abrir pelo menos mais nove lojas em Macau e encerrar duas em Hong Kong, segundo revelou o presidente do conselho de administração, Karson Choi, em entrevista. A maioria das novas lojas serão em Cotai Strip, onde o Sands China vai abrir o seu resort parisiense este ano e onde o Wynn Macau irá estrear o Wynn Palace.

«Este ano vamos avançar com o nosso grande plano de expansão», afirma Choi, filho do bilionário Francis Choi. «Esse plano está em Macau», acrescenta.

A península, que acolhe o maior centro de jogo do mundo, está a tentar diversificar a sua imagem acolhendo mais consumidores de luxo. Esse esforço está a ajudar a atrair os grandes consumidores de Hong Kong, onde o número de visitantes da China cai há nove meses consecutivos e as vendas a retalho em fevereiro desceram o máximo registado em 17 anos. O número de visitas em grupo, que basicamente consistem em turistas chineses do continente, caiu 60% no primeiro trimestre em comparação com o ano anterior.

Nem mesmo a Apple Inc escapou, com as vendas para a Grande China a caírem 26% no trimestre terminado a 30 de março. «Grande parte da debilidade na região da Grande China está em Hong Kong», afirmou o diretor-executivo Tim Cook na conferência com os analistas, que teve lugar a 26 de abril. Uma das razões citadas é o câmbio face à força do dólar. «Isso tem afetado o turismo, as compras internacionais e está a levar a uma queda em comparação com o que aconteceu há um ano», explicou Cook.

Os retalhistas de moda e de carteiras de luxo estão também a sofrer com os negócios na região. As vendas do grupo Burberry em Hong Kong caíram mais de 20% pelo terceiro trimestre consecutivo e a empresa está a tentar reduzir os pagamentos das rendas locais.

A Prada SpA, que teve a maior oferta pública inicial em Hong Kong em 2011, reportou que as vendas na Ásia caíram 16% no ano passado.

«As previsões a curto prazo para as vendas a retalho vão ainda ser restringidas pela fraca performance do turismo interno e incerteza nas perspetivas económicas», indicou o governo de Hong Kong depois das estatísticas de retalho terem sido divulgadas no final de março.

Tempo de luxo

O pai de Choi é o bilionário Francis Choi, cuja empresa Early Light Industrial Co. produz brinquedos para mais de 30 marcas, incluindo a Mattel, a Hasbro, a Disney e a Wow Wee. A Early Light detém também propriedades em Hong Kong e está a avançar para a eletrónica de consumo e para produtos medicinais para ajudar a aumentar as margens de lucro, explica o jovem Choi, de apenas 30 anos, à Bloomberg.

As lojas Halewinner vendem relógios de mais de 40 marcas, incluindo um relógio Jaeger-LeCoultre de 200 mil dólares (cerca de 173 mil euros) e um Blancpain de 180 mil dólares. A família comprou a retalhista de relógios em 2010, quando tinha apenas sete lojas. Agora tem mais de 30 lojas em Hong Kong, Macau e na China Continental.

As vendas nas suas lojas de Hong Kong caíram 30% no ano passado devido ao abrandamento económico da China, à campanha governamental anticorrupção e protestos por parte dos residentes de Hong Kong, que se queixam que a cidade serve os visitantes ricos do continente à sua custa.

Zhou Guoliang, de 54 anos, diretor-geral em Xangai, revelou à Bloomberg que está mais hesitante em ir a Hong Kong com a esposa devido às tensões sociais, por isso vai levar o seu dinheiro para Macau.  «Ouvi dizer que as pessoas em Hong Kong insultam os chineses», explica Zhou, que chegou a comprar um relógio de 7.000 dólares com o seu dinheiro. «Vimos para trazer consumo e eles deviam ser simpáticos e guiar os visitantes», considera.

As exportações de relógios suíços para Hong Kong caíram 38% em março em comparação com o mesmo mês do ano passado, o maior valor entre os principais mercados, segundo a Fédération de l’Industrie Horlogère Suisse FH.

O Chow Tai Fook Jewellery Group, a maior cadeia de joalharia do mundo cotada em bolsa, e a Sa Sa International Holdings registaram quedas durante as festas do Ano Novo Lunar em fevereiro, altura em que o número de turistas chineses do Continente em Hong Kong caiu 26% face ao ano anterior.

Saem charutos

O abrandamento económico da China e os esforços anticorrupção também afetaram Macau e a sua indústria de casinos, avaliada em 30 mil milhões de dólares. No entanto há sinais de que o pior já terá passado por agora. O número de visitantes da ex-colónia portuguesa aumentou 4,2% em março e há vários novos projetos, incluindo a Batman Ride, direcionados para turistas e famílias.

«Os retalhistas ainda estão dispostos a expandir-se em Macau porque os visitantes chineses vão continuar a vir e a jogar», considera Michael Cheng, partner de retalho e consumo para a Ásia Pacífico & Hong Kong/China na PricewaterhouseCoopers (PwC).

As 15 lojas da Halewinner em Macau registaram uma quebra no ano passado, embora continuem fortes porque «a situação melhorou» no quarto trimestre e a cidade é a única na China com casinos.

A empresa planeia ter mais de 20 lojas no território até ao final do ano e está a experimentar diferentes métodos para envolver os consumidores – incluindo organizar festas com vinho e charutos para mostrar os novos relógios.

«Fazer compras é uma das coisas que se faz quando se vai de férias», lembra Choi. «Eles compram porque ganharam algum dinheiro ou porque perderam algum dinheiro. Muitos clientes perdem dinheiro e vêm comprar um produto para se sentirem melhor», justifica.