Início Arquivo

Luxo invade o Japão

Os consumidores japoneses continuam a gastar, mas não nos grandes retalhistas. Se espreitarmos dentro da mochila da Prada de uma consumidora japonesa, Saori Fukuda, vemos os padrões de compra de uma secretária de 25 anos: batôn de farmácia, um lenço da Uniqlo e uma carteira da Louis Vuitton. «Eu gosto de poupar dinheiro para as coisas que eu realmente gosto. Para tudo o resto, o barato é sempre o melhor», afirmou Saori. Como a indústria retalhista do Japão está a descobrir, os compradores como a Saori são agora a norma, e não a excepção. A maior crise económica da década e o mais elevado nível de desemprego de todos os tempos, não reduziu a vontade dos japoneses em obter artigos de marcas conhecidas. No entanto, também as cadeias de lojas como a Uniqlo, Matsumotokiyoshi Co Ltd e Don Quijote Co Ltd, estão a facturar. Mas no que diz respeito às lojas de mercadorias conhecidas por GMS – General Merchandise Stores – (que vendem tudo desde produtos frescos a electrodomésticos), estão a ser postas de lado. O colapso da Mycal Corp., a quarta maior cadeia de supermercados do Japão, que tem agora 11.6 mil milhões de dólares (cerca de 2 mil milhões de contos) em débito e o interesse em suportar as dívidas, estão a revelar uma mudança fundamental nas trocas comerciais. Entretanto, o maior grupo de artigos de luxo LVMH, com os nomes de marca como Louis Vuitton, Fendi e Givenchy, «invadiram» o Japão praticamente duplicando o número de lojas nos últimos dois anos e meio. Com as principais marcas da LVMH e os seus artigos de pele, que somam cerca de 60% dos lucros operacionais do grupo, as vendas no Japão totalizam quase 37% do total, quase tanto como na Europa, América do Sul e América do Norte. «Quando há algum tipo de marca escondida ou alguma coisa que seja atractiva para os consumidores japoneses, eles vão e gastam o dinheiro,» disse Ron Bevacqua, economista na Commerzbank Securities. A Fast Retailing Co Ltd, a criadora da barata e popular marca Uniqlo, espera obter um recorde a nível de vendas e lucros operacionais até Agosto. A Don Quijote, a principal loja de desconto, prevê também um recorde de vendas e lucros em 2000/2001. Finalmente, também a Matsumotokiyoshi está a ver as suas vendas crescer. Mas então, porque é que as cadeias GMS não estão a obter resultados similares? «O retalhista GMS pensou que sempre poderia ganhar dinheiro. Então, parou de pensar acerca de quais os melhores produtos para vender ou para criar preços competitivos, focando-se apenas em abrir novas lojas,» afirmou Hirokazu Ishii, analista na Nikko Salomon Smith Barney. Agora, o tradicional retalhista japonês, GMS, tem como objectivo alcançar lucros através do «caminho mais curto», seguindo o exemplo da Aeon Co Ltd, a antiga Jusco, que tem deslocado todos os seus produtos para zonas de preços baixos nos últimos dois anos. A Ito-Yokado, anunciou já os seus planos para tomar medidas similares de redução de preços. A maioria dos analistas de retalho, apontam a Aeon como a empresa melhor preparada para voltar à rentabilidade sustentada no futuro, dado ter sido bastante agressiva na sua reestruturação. Com os preços de propriedade a cair e os governos locais a facilitar as restrições aos retalhistas de grande escala, as «nuvens negras» da dura competição, estão a atingir os retalhistas GMS. O maior retalhista europeu, o Carrefour francês, tem já três lojas no Japão e está a pensar abrir mais. A maior cadeia de supermercados alemã, Metro AG vai também abrir um espaço no Japão já no próximo ano. E há também rumores de que a britânica Tesco Pl e a Kingfisher Plc estão a «olhar» para o Japão. No entanto, estão todos à espera para ver se a Wal-Mart Inc vai patrocinar os planos de reabilitação da Mycal, formando o maior retalhista mundial com acesso a 250 lojas de âmbito nacional, incluindo as 100 que a Mycal afirma serem rentáveis. «Quando um grande jogador (como a Wal-Mart) entra no mercado, eles fazem-no com base nos preços, o que faz com que os preços de competição, sejam intensificados largamente,» refere Nikko Salomon Smith Barney’s Ishii. A Wal-Mart recusou comentar o seu interesse na Mycal, mas não obstante a decisão de fazer parte dos planos de reabilitação desta, e de acordo com alguns conhecedores da indústria, a sua entrada no mercado japonês parece ser uma questão de quando vai entrar e não de se vai entrar. Espera-se que a Mycal formalize um contrato a meio de Novembro com o patrocinador, com vista a apoiar o seu programa de reabilitação, depois de 20 empresas terem já oferecido o seu apoio à falida cadeia de supermercados.