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Luxo sem logótipo

Há algo em falta nas carteiras que adornam as prateleiras da boutique parisiense de Serge Amoruso. Não é, com certeza, a etiqueta com um preço elevado ou a qualidade superior de um produto feito à mão. O que o cliente não vai encontrar é o símbolo universal do consumismo dos anos 90 – o logótipo. A mensagem de Amoruso é clara. Exclusividade é o que os seus consumidores – muitos deles da China e do Japão – querem agora e não se importam de pagar por isso. Por entre o sentimento de que algumas marcas se tornaram tão populares que perderam o seu prestígio, os que têm os bolsos cheios procuram artesãos como Serge Amoruso para restaurarem uma certa mística às suas compras. Para os clientes de Amoruso, a experiência de compra começa não com uma fila à chuva na porta de um grande armazém, mas com um encontro pessoal. Juntos, dão forma à carteira, selecionando tudo, desde o estilo e o tipo de pele a detalhes como o fecho e o tecido para o forro. Serge Amoruso, que também produz uma gama de outros artigos de luxo como porta-moedas e cigarreiras, vai ao Japão pelo menos duas vezes por ano, onde realiza metade do seu negócio. Com os seus dois aprendizes, produz cerca de 100 carteiras por ano, com um preço médio de 2.500 euros. «Cada peça é uma história e os meus clientes procuram isso», explica. «Um cliente japonês veio ter comigo por causa de uma bolsa para o iPad. Acabou a pedir-me uma mala de viagem», conta. «Demorou oito meses a produzir esta peça em pele de búfalo. Custou muito ao cliente, mas ele sabia que ia ultrapassar todas as suas expectativas», acrescenta. Os clientes chineses, por seu lado, pedem-lhe muitas vezes para gravar a carteira com o seu número da sorte. A paixão de Serge Amoruso por pele remonta à sua infância, quando realizava experiências com uma saia de couro pertencente à sua mãe e mais tarde percebeu que «com este material pode fazer-se qualquer coisa». Depois da escola e uma formação especializada, trabalhou na Hermès, onde esteve sete anos. «Tive acesso a materiais fabulosos. Descobri um universo, gosto, elegância», revela. Ao longo dos anos, quase todas as casas de luxo lhe pediram para criar peças para elas. Mas sempre recusou, insistindo que não é «um subcontratado», preferindo, em vez disso, colocar a sua assinatura em cada peça – embora não sob a forma de um logótipo. Em particular, Amoruso é conhecido pelo seu talento com a exótica pele de raia. «Sempre nos disseram que não podíamos fazer uma carteira de pele de raia, por isso trabalhei para lá chegar e fui bem sucedido», refere. Mas gosta de sublinhar que não está interessado no domínio técnico por si só, mas apenas se for usado «ao serviço da beleza». Tudo tem de ser sobre «a emoção que emana do objeto», sublinha. E para o consumidor conhecedor, tudo é possível no seu atelier, no leste de Paris, onde não há máquinas e tudo é feito à mão. Mas os logos vão continuar ausentes do seu trabalho. «Acabámos por acreditar que o luxo era ter uma carteira com um logótipo. Mas isso é apenas marketing, não qualidade», justifica.