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Luxo sustentável sobre rodas

Para as marcas de automóveis de luxo, como a Land Rover ou a Audi, os têxteis ecológicos e reciclados são o admirável mundo novo no design de interiores dos veículos. O luxo começa a ser indissociável da sustentabilidade na gama alta dos carros.

Land Rover Evoque

A fibra de carbono costumava ser essencial para mostrar quanto dinheiro se conseguia gastar no interior de um carro, noticia a Bloomberg. Um tablier amplo, painéis das portas personalizados e assentos em couro eram alguns dos elementos necessários para mostrar que o veículo era caro, desportivo, único e pertencia a alguém que era importante e, possivelmente, interessante.

Do eucalipto à soja

«Há 50 anos, um assento em couro representava o ponto mais alto do luxo», afirma Massimo Frascella, diretor criativo da Land Rover. «Agora, nos melhores hotéis e habitações tal não se verifica. O processo é idêntico nos carros. No futuro, um design inovador e sustentável irá criar a estrutura necessária para a mudança», assegura.

Frascella esteve em Manhattan durante o New York International Auto Show, que decorreu entre 19 a 29 de abril, para apresentar a nova linha de materiais da Land Rover, sem couro e totalmente vegan, desenvolvida para “vestir” o Range Rover Evoque, o Range Rover Velar e o Jaguar I-Pace. «Há cada vez mais pessoas que estão preocupadas com a proveniência das matérias-primas e dos têxteis que estão dentro do seu veículo», reconhece. A nova linha tem como objetivo atrair esses consumidores que consideram que o nível mais alto do luxo tem que estar alinhado com os seus princípios éticos.

Ford

A marca britânica apostou, por exemplo, no Eucalyptus Melange – uma composição obtida a partir de fibras do eucalipto –, que consome significativamente menos água do que matérias-primas mais convencionais, como o plástico, e pode ser tingido em qualquer cor. A Land Rover usou igualmente uma mistura de lã, da empresa Kvadrat, que é durável e cujo toque se assemelha a uma camisola de lã. A construtora utilizou ainda a Dinamica Suedecloth, uma microfibra à prova de fogo e extremamente durável, que imita a camurça e é obtida a partir de garrafas de plástico recicladas – 53 garrafas por veículo, em média, segundo a Land Rover. Estes são os ingredientes utilizados pela marca para criar uma opção ecológica para os clientes mais preocupados com as questões da sustentabilidade.

Mas há mais marcas de automóveis a apostar nesta vertente “verde” para o interior dos veículos. A Volvo garante que pelo menos 25% das superfícies de plástico presentes nos seus veículos serão, até 2025, derivadas de matérias-primas sustentáveis. Para a almofada do assento, a Toyota Motor Corp. utiliza fibras que usam etilenoglicol derivado da cana de açúcar, em vez do etilenoglicol derivado do petróleo. A Ford Motor Co. desenvolveu uma espuma para os assentos a partir de soja e a Faraday Future brincou com a utilização de fibras de minerais e algodão de vestuário descartado para utilizar nos seus carros.

Inovação à boleia da ecologia

Num mundo onde os chamados SUV custam 250 mil dólares (cerca de 223 mil euros) e existem híbridos cujos preços chegam aos seis dígitos faz sentido que os interiores sejam tanto de luxo como sustentáveis. «Isto faz parte de uma tendência mundial que está a crescer incessantemente», admite Filip Brabec, vice-presidente da Audi AG para a gestão de produto. «Tem a ver com o facto de os consumidores estarem a ganhar uma maior consciência sobre o impacto no meio ambiente», acrescenta.

A indústria do couro sintético por si só irá valer 45 mil milhões de dólares, até 2025, de acordo com a Grand View Research. A seguir ao mobiliário, os têxteis renováveis terão nas aplicações para o segmento automóvel o seu segundo maior uso. Neste cenário, «aprovisionado de modo responsável» e «alternativas premium» são as principais palavras-chave.

Audi q4 e-tron

A Audi apostou em matérias-primas sustentáveis, até livres de carbono, para os seus veículos elétricos. Os assentos do modelo q4 e-tron são obtidos a partir de plástico reciclado e o modelo e-tron GT conta com uma opção para os interiores em couro sintético e microfibras recicladas, incluindo o tapete feito a partir de redes de pesca usadas. O carro é totalmente vegan.

No seu conceito Aicon¸ a Audi apresenta as coberturas dos assentos fabricadas com Climatex, um material têxtil com duas camadas, a de cima em poliéster e a de baixo em lã. Foi desenvolvido de forma a que as duas camadas possam ser separadas e recicladas no fim de vida do veículo. «Tivemos algumas boas estreias. Olhamos para isto como uma grande oportunidade para nós e queremos continuar a desenvolver ainda mais inovações», revela Filip Brabec.

A Land Rover antecipa uma maior mudança nas preferências dos consumidores. A marca britânica está a introduzir têxteis sustentáveis no Evoque, um modelo que, apesar de não ser o mais vendido da construtora (título exclusivo do Range Rover Sport), é considerado uma compra sofisticada e ambiciosa. No ano passado, a Land Rover vendeu 9.917 modelos Evoque nos EUA, quando este foi introduzido, sendo que 85% dos clientes que o compraram estavam a adquirir pela primeira vez automóveis da marca. Massimo Frascella assegura que os têxteis sustentáveis não acarretam nenhum custo adicional em relação aos materiais tradicionalmente utilizados – a não ser que se conte o prazer premium que dão aos consumidores preocupados com o meio-ambiente.