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Made in America

Os produtos “made in America” estão a crescer em popularidade no seu mercado interno, amplamente exaltados pelos meios de comunicação nacionais, porém os números relatam uma realidade distinta.

A marca Filson, com sede na cidade americana de Seattle, tem vindo a fabricar a maioria dos seus kits básicos de sobrevivência e blusões de caça nos EUA, no decorrer dos últimos 118 anos. A par da sua fábrica original, a Filson inaugurou uma segunda unidade em Seattle, em 2012, e uma terceira em Post Falls, no estado do Idaho, em 2014.

«Estamos numa curva de crescimento muito boa neste momento», afirma Gray Madden, presidente da Filson. Embora a empresa não divulgue números de vendas, revela que emprega atualmente 226 pessoas nas fábricas de Seattle e 62 em Post Falls. «Não somos uma marca que faz muita publicidade nos media», indica. «Temos esta dinâmica natural de apoio. Eles estão a encontrar-nos», acrescenta. Madden e a sua equipa regressaram recentemente da feira de moda italiana Pitti Uomo, onde a Filson expôs, a par de outras marcas americanas, na secção “Born in the USA”.

Muitas das marcas presentes, incluindo a The Hill-Side e Ernest Alexander, produzem uma parcela significativa das suas peças de vestuário e acessórios nos EUA. Apenas algumas semanas antes da feira Pitti, a Filson esteve em Washington, no Northern Grade, um mercado itinerante que vende apenas produtos feitos nos EUA. «Nós somos parte dessa história de produção americana, que significa muito mais para os consumidores neste momento do que no passado», sustenta Madden.

«Eles querem saber a origem do produto: onde os seus alimentos são cultivados, de onde vieram as suas peças», aponta. No portefólio da tendência “Made in America” encontram-se muitas histórias como a de Filson. Em 2014, a LL Bean ampliou a sua unidade de produção em Brunswick, estado do Maine, a fim de responder à procura do seu modelo de bota clássico “Bean”, cuja lista de espera rivaliza com a de qualquer carteira de reconhecimento mundial. A Cone Denim, em Greensboro, Carolina do Norte, fornece tecido a designers e marcas de jeans. A Horween, de Chicago, fornece o couro utilizado nos equipamentos de metade da Liga Principal de Basebol, aplicado em tudo, desde os cabedais de calçado, às braceletes dos relógios. Os designers estão, inclusive, a tentar fazer malhas nos EUA.

O fundador da marca The Elder Statesmen, Greg Chait, construiu uma fábrica em Los Angeles que tece as suas camisolas e, no outono passado, a Zady produziu integralmente uma camisola nos EUA, com lã de ovelha proveniente do nordeste do estado do Oregon, que foi então convertida em fio na Pensilvânia e, posteriormente, num pullover em Los Angeles. Porém, é preciso avaliar o que isto significa. «O número de roupas e sapatos produzidos nos EUA aumentou de forma consistente ao longo dos últimos anos, no que poderia ser descrito como uma pequena, mas crescente, tendência», considera Nate Herman, vice-presidente de comércio internacional da Associação Americana de Vestuário e Calçado (AAFA na sigla original), que representa mais de 1.000 marcas e mais de 340 empresas americanas.

De acordo com a AAFA, 513 milhões de peças de vestuário foram produzidas nos EUA em 2013, um aumento de mais de 6% face a 2012 e quase 35% em comparação com 2009, quando apenas 381 milhões peças de vestuário foram produzidas em território doméstico. No entanto, apenas 2,6% de todos os itens de vestuário vendidos nos EUA, em 2013, foram confecionados em solo americano. Quando comparado com os resultados obtidos há 22 anos, este crescimento mostra-se residual. Em 1993, 6,4 mil milhões de peças de vestuário foram fabricadas nos EUA, com 52,4% das peças vendidas a serem feitas no país. Atualmente, esse valor não supera os 2,6%. Para compreender estes resultados é necessário recuar um pouco mais. Nos anos 60, 95% dos americanos compravam vestuário produzido nos EUA. Porém, com a emergência do mercado chinês e outros países, nos quais os salários baixos permitiam uma produção menos dispendiosa, esses números diminuíram de forma constante.

O NAFTA – o Acordo Americano de Livre Comércio, que tornou mais barato comprar e vender produtos entre o México, os EUA e o Canadá, foi implementado em 1994. Nesse momento, não fazia sentido financeiro para um retalhista de massas produzir o seu vestuário nos EUA. A AAFA ainda não divulgou os resultados de 2014, embora Herman acredite que o padrão crescente se manterá. «A produção americana pode ser uma vantagem porque as empresas estão mais próximas do cliente e podem responder mais rapidamente às suas necessidades», afirma, referindo os tempos de resposta mais rápidos que a produção local proporciona.

Os desafios, é claro, são muitos. «Pode ser mais difícil encontrar materiais ou mão de obra necessária especializada», acrescenta Herman. Na verdade, encontrar trabalhadores qualificados é um desafio constante para os fabricantes como a Filson. «A costura é uma arte perdida», sustenta Madden. A empresa depende fortemente de referências de trabalhadores atuais para encontrar novos, que recebem nove meses de formação já no desempenho das suas funções. «Não é difícil atraí-los porque nós pagamos um salário mínimo gratificante. Mas é difícil encontrá-los», sublinha.

Coloca-se, agora, a questão sobre o impacto da Parceria Trans-Pacífica no renascimento da tendência “Made in America”. O acordo, que irá reduzir as tarifas e outros custos associados à importação e exportação de mercadorias entre os EUA e outros países participantes – incluindo o Vietname e o Japão – tem dividido o sector do vestuário. Muitos fabricantes de menor dimensão temem que os produtos produzidos no exterior se tornem ainda mais baratos, dificultando, portanto, a concorrência – como o NAFTA desencadeou em meados dos anos de 1990 –, enquanto outros acreditam que este irá conceder às marcas americanas uma oportunidade acrescida de acederem a outros mercados.

«A TPP representa uma grande oportunidade para as empresas de vestuário e calçado. O PIB atual combinado dos 12 países da TPP é de 28,1 biliões de dólares, ou 39% da economia mundial. Isso é importante, dado que 95% dos consumidores do mundo vivem fora dos EUA», indica Herman. «Um acordo como este abre mercados para produtos feitos nos EUA e criará oportunidades de aprovisionamento livres de impostos. Os impostos sobre alguns produtos feitos nos EUA, [como] sapatos de couro, poderão ser tão elevados como 188% em alguns países da TPP. Isso faz com que o custo desses produtos americanos se tornem inacessíveis para muitos consumidores», acrescenta. Dado que apenas um escasso número de produtos consumidos nos EUA é feito localmente, as marcas poderão aperceber-se de que os compradores que conscientemente adquirem bens de produção nacional, continuarão a fazê-lo, independentemente do custo.