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Made in China

Quem percorre as auto-estradas do Sul da China às vezes pensa que se enganou no caminho e foi parar a outro lugar qualquer. Nosoutdoors, modelos ocidentais, de olhos redondos, anunciam marcas com nomes em inglês – Eastern Camel, K’great, Fairy Fox, J&J Footwear, Ever Profit International. Parecem nada ter a ver com o sítio onde se encontram. Mas têm.

 

Precisamente porque estão ali, no Sul da China, onde as fábricas não param de crescer, laborando dia e noite, invadindo o mundo com o selo «Made in China». Aqueles reclames não são para os chineses, que não percebem o que querem dizer. Estão lá para os homens de negócios que vêm de todo o mundo à procura do lugar onde se fabrica barato.

 

Chen Jian faz estas estradas várias vezes por ano, para se abastecer dos produtos que vendem em Portugal. Dono do Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, e do armazém de revenda Chinatown, este empresário vive em Porto Alto desde 1992, com a família. «Sou um haoqiao», revela. Em mandarim não se usa a palavra emigrante, diz-se chinês ultramarino, acentuando a ligação à pátria que mantêm os cerca de 30 milhões de chineses no estrangeiro. «Como eu, muitos vivem entre os dois países».

 

Chen Jian explica que está obrigado a esta vida de caixeiro-viajante porque não se fazem bons negócios ao telefone. «É preciso conversar com as pessoas, discutir preços». E acrescenta: «Sobretudo procuro qualidade para vender na Europa». Na sua carrinha de nove lugares, transporta mais de 200 quilos de catálogos de fornecedores chineses que visita a milhares de quilómetros uns dos outros. É isso que faz dele um excelente cicerone, guiando o EXPRESSO neste novo mundo em que se tornou o velho Império do Meio.

 

De cada vez que vem ao seu país, Chen sente as coisas mais mudadas. As estradas que percorre são sempre acompanhadas de fábricas, a prova viva do tão falado crescimento económico de 9,8% ao ano – o maior do mundo, a par com a Índia. «Às vezes, chega a ser difícil encontrar a morada que procuramos, porque tudo mudou em semanas». Chen diz isto porque está à procura da Unitex, em Quanzhou, onde compra roupa de bebé para uma loja que vai abrir no Freeport, em Alcochete. Um fabricante que fornece o grupo Sonae.

 

Finalmente, encontram a fábrica, num banalíssimo prédio de quatro andares de uma rua suburbana e poeirenta. À primeira vista parecem apartamentos, mas com atenção percebe-se que são enormesopenspaces: as mesmas luzes fluorescentes iluminam todos os pisos. Nesta cidade de 300 mil habitantes, novas ruas abrem-se com prédios construídos à pressa, revestidos de azulejos baços, baratos. A cidade cresceu ao ritmo de necessidades mais importantes que o planeamento urbano.

 

A Unitex é uma linha de montagem de 250 empregados, a maioria mulheres. Apesar da banalidade da imagem, parecem mesmo formigas a trabalhar. Diligentes e caladas, sentadas em pequenos bancos sem costas, frente às suas máquinas de costura alinhadas em fila indiana, cada uma cose uma parte de uma peça que, quando estiver completa, será a roupa que crianças do mundo inteiro vão vestir.

 

«Temos aqui o sistemawork-flow», afirma Dave Chan, sócio-gestor da Unitex. Dave Chan fala a linguagem dos negócios: quando frequentava a primária já o sistema imposto por Pequim tinha percebido que era mais útil do que subversivo ensinar inglês na escola e hoje quase não se nota qualquer sotaque. Aos 35 anos, faz parte de uma geração sem complexos, que arrumou o comunismo na gaveta. Licenciado por uma universidade local em relações comerciais internacionais, estava na linha da frente para um bom emprego quando o Estado decidiu incentivar a iniciativa privada.

 

Durante três anos trabalhou para um patrão, até que decidiu ser a cabeça da galinha em vez da cauda do dragão, estabelecendo-se por conta própria. Não precisou de sair do país para ficar rico. Agora, as roupas que fabrica iluminam-se com as etiquetas de marcas internacionais. As que a Sonae vende em Portugal, a Basics e a Happy Bear, assim como as dos armazéns franceses Le Halle e Tati e da cadeia britânica Mamas and Papas.

 

Fábricas como a Unitex são o alicerce da cadeia de produção, que fazem produtos anónimos para que os outros lhes acrescentem os valores de mercado. Chen Jian adapta os produtos da Unitex aos gosto dos portugueses. «Isto fora da caixa, que eles não gostam. Este fato sem pés, lá não faz muito frio».

 

As máquinas da Unitex estão habituadas a coser conforme as partituras da música internacional. «Os ingleses gostam de tons pastéis, enquanto que os franceses são maisfashion, mais exigentes», revela Dave Chan. «Os portugueses da Sonae preferem os algodões».

 

Apesar de não ter o poder negocial dos hipermercados Continente, Chen Jian consegue «um preço de jeito», segundo as suas próprias palavras num português aprendido com ciganos vendedores e donos de lojas dos 300.

Cada peça sai da fábrica chinesa ao custo de cerca de um euro e será vendida na Europa por dez vezes mais. Dava Chan consegue preços muito baixos pagando salários baixos: no máximo 70 euros. Na Europa e nos EUA, milhares de trabalhadores são despedidos porque o seu trabalho se tornou caro. Na China, um trabalho numa empresa privada como esta, mesmo mal pago, é a única esperança para milhões de trabalhadores.