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Made in L.A.

Resistindo às pressões de diversas origens, a indústria de vestuário localizada na região de Los Angeles continua a registar um desempenho positivo, apesar dos elevados custos com a mão-de-obra. Apostando na rapidez de resposta, proximidade com o mercado, especialização, tecnologia e know-how, as empresas da região mantêm um elevado nível de competitividade e são apontadas como exemplos de sucesso.

Ao longo deste artigo, baseado numa reportagem do LA Times, são apresentados diversos exemplos de empresas da região, focando em particular as estratégias adoptadas, as vantagens competitivas e os eventuais cenários para o futuro da indústria na região.

O exemplo da Koos Manufacturing Inc. é ilustrativo das dificuldades sentidas pelos produtores norte-americanos de vestuário, sendo um bom exemplo sobre como pode ser possível ultrapassar essas dificuldades. Há dois anos atrás, a empresa californiana, localizada na cidade de Southgate, produzia 200.000 pares de calças de ganga por semana. A produção era subcontratada por diversas marcas, sendo as calças distribuídas para alguns dos principais retalhistas norte-americanos.

No entanto, as margens de lucro eram reduzidas. De acordo com Yul Ku, dono da empresa, esteve sujeito a pressões constantes por parte dos retalhistas para diminuir os preços. As pressões para a redução das margens continuaram até que o dono da empresa recusou-se a negociar mais e os retalhistas colocaram as suas encomendas noutras empresas.

Actualmente a Koos Manufacturing, com 700 trabalhadores, possui uma produção semanal de aproximadamente 35.000 pares de calças de ganga. No entanto, a empresa produz actualmente artigos de gama alta, com preços ao público que rondam os 170 dólares. Apesar da linha de fabrico ser muito menor do que em 2003, a situação actual é suficientemente segura para que Yul Ku planeie a produção de mais duas linhas de calças de ganga, com artigos ainda mais caros do que os actualmente produzidos com preços de venda ao público na ordem dos 250 dólares por cada par de calças.

Mesmo com o fim de 30 anos de quotas de importação, Yul Ku acredita que existirão sobreviventes na ITV norte-americana, afirmando que a Koos Manufacturing será um destes.

Ao longo da região de Los Angeles, as empresas de vestuário acreditam que vão manter a sua competitividade e até o crescimento, face a um mercado global mais competitivo do que nunca. Estas empresas trabalham em nichos de moda e produção especializada, privilegiando a rapidez de resposta nas reposições dos artigos e na resposta às necessidades do mercado.

Apesar da sua proximidade com o mercado e a capacidade de resposta, com apenas algumas semanas entre o esboço inicial do designer e a entrega dos artigos nos pontos de venda, é inegável a pressão que existe sobre as empresas locais. A eliminação das quotas de importação no dia 1 de Janeiro de 2005 beneficiou os produtores com baixos custos laborais, em especial na China, forçando outros produtores a modificarem ou adaptarem as suas estratégias de produção, de forma a manterem-se competitivos e obrigando-os eventualmente a concorrer nos mesmos nichos de mercado das empresas localizadas em LA.

Até ao momento, a China encontra-se fundamentalmente empenhada na produção em massa de artigos de preço médio. No entanto, alguns responsáveis da indústria acreditam que não tardará muito tempo até que as empresas chinesas sejam capazes de produzir tudo, incluindo calças de ganga vendidas a 300 dólares por par. Caso este cenário se verifique, a indústria de têxteis e de vestuário na Califórnia poderá ser completamente eliminada, de acordo com a opinião de alguns responsáveis sectoriais da região.

A região de Los Angeles é actualmente o principal produtor de vestuário dos EUA, não sendo estranha às tumultuosas forças da globalização. Durante décadas, os retalhistas norte-americanos têm procurado em todo o mundo os fornecedores com preços mais baixos. A perda de postos de trabalho nos sectores têxtil e vestuário registou uma aceleração após 1994 com a assinatura do NAFTA (North American Free Trade Agreement), ano a partir do qual a produção foi deslocalizada para Sul da fronteira norte-americana. Ao longo destes anos, o número de trabalhadores no sector de vestuário diminui para os 61.400 indivíduos, uma diminuição de 41% relativamente aos dados de 1996. Com a eliminação das quotas de importação, muitos acreditam que o número de postos de trabalhão vai continuar a decrescer, apesar das opiniões divergirem relativamente ao nível e à taxa desta diminuição.

No entanto, a região de Los Angeles não é tão vulnerável como os estados do Sul dos EUA, como a Carolina do Norte, Carolina do Sul e Virgínia, que têm tentado convencer o Governo norte-americano a manter algumas medidas proteccionistas contra as eficientes empresas da China, Bangladesh, Honduras e outros países em desenvolvimento.

As quotas limitaram a quantidade de produtos têxteis e de vestuário que poderiam ser importados para os mercados norte-americano e europeu, o que obrigava os compradores a distribuírem as suas encomendas em todo o mundo. Com a eliminação das restrições, os compradores podem mais facilmente transitar as suas encomendas para fornecedores mais baratos, o que certamente não é aplicável no caso da região de Los Angeles.

Na região de Los Angeles, uma trabalhadora que costura uma saia ganha um total de 15 dólares por hora, e até mesmo um trabalhador não legalizado a trabalhar para uma empresa não licenciada, poderá ganhar 7 dólares por hora. Na China, o salário desta trabalhadora encontra-se entre os 68 e os 88 cêntimos de dólar.

Actualmente, as calças de ganga de gama alta (cujo valor de venda encontra-se acima dos 120 dólares) representam uma pequena fracção do mercado norte-americano das gangas, cifrado na totalidade nos 11 mil milhões de dólares. A região de Los Angeles é responsável pela confecção de cerca de 85% deste nicho de mercado, os produtores locais estão a apostar na vontade dos seus clientes em pagar o excesso que permite a existência do sector de vestuário na região.

De acordo com a opinião do director comercial da Koral Industries, Rick Crane, o facto de possuir uma marca reconhecida no mercado diminui a relevância do preço, permitindo que a empresa produza as calças de ganga nos EUA. No entanto, a vantagem de Los Angeles ultrapassa as questões monetárias, estando também relacionada com o próprio ambiente da região. Para além do elevado poder de compra, os industriais locais salientam o pulsar da cidade, que estimula o desenvolvimento e o acompanhamento de novas tendências.

Para além das vantagens intangíveis, o know-how associado aos processos produtivos é considerado com uma vantagem competitiva fundamental para o sucesso das empresas da região. A rapidez de produção é um ponto fundamental na indústria de vestuário de Los Angeles e um factor de competitividade face a outras origens como a China e outros centros de produção. A Koos Manufacturing demora 24 horas a apresentar uma amostra e o seu armazém de dois andares está repleto de produtos acabados.

Os designers e os retalhistas querem novos estilos e variações com o objectivo de atraírem e responderem aos gostos e às tendências que rapidamente mudam, exigindo que os novos artigos estejam disponíveis nas lojas antes que a moda passe e os gostos dos clientes se modifiquem.

A American Apparel está localizada na baixa de Los Angeles, ocupando um edifício de sete andares. A empresa está equipada com 75 teares de malha de 45.000 dólares cada, existindo planos para duplicar o número de máquinas instaladas durante 2005. Actualmente, de acordo com os responsáveis, caso a empresa receba uma encomenda de 1.000 t-shirts às 14h00, a encomenda estará concluída às 17h30 desse mesmo dia.

Com um stock permanente de 820 toneladas de tecido acabado, a empresa garante a rapidez de resposta. A empresa emprega 3.100 funcionários que trabalham em dois turnos, que está a expandir a sua linha de artigos de algodão e a abrir novas lojas para fomentar o crescimento da sua marca.

No entanto, a ameaça da China é uma realidade iminente. Registando aumentos significativos de produtividade, fruto do investimento externo e do desenvolvimento tecnológico, e uma rapidez de resposta cada vez mais competitiva, diversos empresários da região estão pessimistas com o futuro da indústria de vestuário na região.

Face à concorrência externa, uma das opções passa pela diversificação da localização das empresas. Como exemplo desta estratégia temos o caso da Koos Manufacturing que possui uma fábrica localizada no México, cujos 1.200 trabalhadores dedicam-se ao fabrico de calças de ganga para a cadeia de retalho norte-americana Buckle.

No entanto, é difícil resistir à atractividade da China. Alguns produtores de LA mantêm uma atitude atenta em relação aos desenvolvimentos que se têm registado no gigante asiático. Um industrial local tem subcontratado pequenos trabalhos a empresas chinesas, de forma a avaliar e monitorizar o grau de evolução tecnológica que possuem. De acordo com este responsável, os chineses estão a melhorar significativamente, registando evoluções positivas de uma estação para outra.