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“Made in USA” cresce dentro e fora de fronteiras

A indústria têxtil e vestuário dos EUA tem crescido nos últimos 10 anos, tendo aumentado o volume de negócios e as exportações. O retrato destes sectores mostra que estão a evoluir a velocidades diferentes, com o têxtil a avançar mais rapidamente do que o vestuário em termos de dimensão e diversificação de mercados.

Os têxteis e vestuário “made in USA” atraíram uma atenção crescente nos últimos anos devido à escalada da guerra comercial EUA-China, o crescente custo das importações e a exigência de chegada ao mercado cada vez mais rápida por parte dos consumidores.

As estatísticas mostram que o valor da produção de têxteis e vestuário nos EUA totalizou 28,1 mil milhões de dólares (cerca de 26 mil milhões de euros) em 2018 – um recorde desde 2010. Simultaneamente, estão a ser vendidos mais têxteis e vestuário no estrangeiro do que no passado. De acordo com o OTEXA, o gabinete responsável pelos têxteis e vestuário dentro do Departamento de Comércio, o valor das exportações americanas deste tipo de produto atingiu os 22,9 mil milhões de dólares em 2019, um aumento de quase 20% em comparação com há uma década.

Contudo, apesar da forte produção e da performance das exportações, os fabricantes americanos não parecem ter «visibilidade suficiente», apontam Kendall Keough, que está a concluir o mestrado em estudos de moda e vestuário, e Sheng Lu, professor associado do mesmo departamento da Universidade do Delaware, que analisaram os números num artigo do just-style.com. Por exemplo, segundo os dados expostos no estudo de 2019 US Fashion Industry Benchmarking Study, da US Fashion Industry Association (USFIA), publicado em julho do ano passado, muitas das marcas e retalhistas de moda inquiridos afirmam que a falta de informação suficiente sobre fábricas têxteis e de vestuário sediadas nos EUA é um estrangulamento à expansão do sourcing “made in the USA”.

«Tendo em conta a escassez de informação, analisámos a demografia, produção e estratégias de aprovisionamento, assim como o comportamento de 122 produtores americanos de têxteis e vestuário incluídos na base de dados “Made in the USA” do OTEXA», explicam os autores do artigo, que daí retiraram cinco conclusões.

Concentração

As 122 fábricas incluídas nesta base de dados estão espalhadas por 26 Estados, cerca de metade do país. Mas para todas as principais categorias – desde fios a tecidos, têxteis-lar, têxteis técnicos e vestuário –, mais de 50% das unidades produtivas estão localizadas em cinco Estados que são os principais produtores desses artigos. Nomeadamente, 61% dos produtores de fios são da Carolina do Norte, seguidos da Carolina do Sul, que representa mais 11%.

«A concentração da fiação no sul, em particular, pode ser atribuída à abundante oferta de algodão dessa região», justificam Keough e Lu. Já a Califórnia tem uma das mais completas cadeias de aprovisionamento de têxteis e vestuário do país, com a presença de produtores de todos os subsetores. O resultado é, segundo os autores, altamente consistente com um estudo nacional de 2017 do Departamento de Comércio, que também destacou a Califórnia como o principal centro produtivo de têxteis e vestuário.

Têxteis ganham dimensão

As fábricas têxteis americanas têm uma elevada concentração de empresas com mais de 100 funcionários, particularmente os envolvidos na produção de fios (53%), tecidos (37%) e têxteis técnicos (38%). Na última década, muitas empresas têxteis de tamanho relativamente pequeno fundiram-se para aproveitarem as vantagens de economias de escala e redução de custos de produção. «As fábricas maiores têm maior probabilidade de poderem pagar máquinas e tecnologias de automação dispendiosas, necessárias para a produção de têxteis», explicam Kendall Keough e Sheng Lu. Fontes da indústria revelam que as fábricas têxteis americanas gastam cerca de 1,7 mil milhões de dólares por ano na atualização das suas unidades produtivas e parque de máquinas.

Já no caso do vestuário, mais de metade das confeções na base de dados do OTEXA reportou menos de 50 funcionários. Com efeito, de acordo com o Census Bureau, equivalente ao Instituto Nacional de Estatística em Portugal, em 2016 (os últimos dados disponíveis) cerca de 70,6% dos confecionadores de vestuário tinham menos de 10 empregados. «Devido a uma desvantagem significativa no custo do trabalho, os produtores americanos de vestuário não estão a tentar substituir as importações, mas a focar-se em mercados de nicho», indicam os autores do artigo, dando como exemplo a popularidade das microfábricas em centros de moda como Nova Iorque e na Califórnia. «Estas fábricas normalmente oferecem serviços customizados, desde a prototipagem à produção de amostras», realçam.

Integração vertical reduzida

Com a maquinaria e as técnicas necessárias para a produção de fios, tecidos e vestuário a serem bastante diferentes, a integração vertical torna-se muito dispendiosa, sobretudo para pequenas e médias empresas, apesar das vantagens de controlo da cadeia de aprovisionamento que daí advêm. Como tal, apenas uma pequena parte das empresas adotou algum tipo de integração vertical, sendo as mais empenhadas nesta forma de trabalhar as produtoras de tecidos: cerca de um terço destas indicou produzir igualmente vestuário (15,6% do total de empresas), têxteis técnicos (16,4%) ou têxteis-lar (10,7%).

Além disso, 20% dos produtores de têxteis técnicos na base de dados do OTEXA incorporaram uma componente de vestuário no seu portefólio de produtos. «Esta é uma tendência significativa a seguir, já que cada vez mais marcas de sportswear estão a desenvolver vestuário funcional impulsionado pela tecnologia», reconhecem os autores do artigo, que admitem ainda que poucas empresas têm um modelo de integração vertical com três ou mais tipos de produtos.

Tónica nos serviços

A maioria das empresas na base de dados referiu ter dentro de portas capacidade de design, incluindo as confeções (86%), produtoras de tecidos (80%), fiações (61%), produtores de têxteis-lar (71%) e negócios dedicados aos têxteis técnicos (91%). Também se descrevem frequentemente como «inovadoras» ou «fornecedoras de soluções» nos seus websites para evidenciarem que a natureza do seu negócio é servir as necessidades dos clientes e não somente fazer produtos.

Exportação é objetivo

Das 122 empresas inquiridas, 70,5% afiançaram estar envolvidas na exportação, uma tendência que justifica o aumento das exportações americanas de têxteis e vestuário nos últimos anos. Sobre esta questão, os autores salientam que as fábricas têxteis (76%) estão mais empenhadas nas exportações do que os que produzem apenas vestuário (37%) e que as empresas maiores exportam mais do que as mais pequenas – 90% das empresas com mais de 150 funcionários exportam, em comparação com 69,7% das que têm menos de 150 trabalhadores.

Quanto aos mercados, o hemisfério ocidental (que compreende as regiões a oeste do Meridiano de Greenwich, ou seja, essencialmente as Américas, mas também uma pequena parte de África e, na Europa, a Península Ibérica, uma faixa da parte mais ocidental de França e quase todo o Reino Unido) é o principal destino de fios (53%), tecidos (52%) e têxteis-lar (54%) americanos, sobretudo graças a acordos de comércio livre como o NAFTA (com o México e o Canadá) e DR-CAFTA (com a Costa Rica, Guatemala, Nicarágua, Honduras, El Salvador e República Dominicana). Já no caso do vestuário e têxteis técnicos há uma maior diversificação, especialmente entre as Américas, a Ásia e a Europa.

A estratégia de diversificação das exportações é, no entanto, mais adotada pelas empresas da indústria têxtil – a maioria (77%) das fiações conta com três ou mais mercados, por exemplo. As produtoras de vestuário, por seu lado, procuram menos destinos – 42% exporta apenas para dois mercados e 37% apenas para um –, o que os autores do estudo explicam pelo seu «tamanho relativamente pequeno».

«Em conclusão, as fábricas têxteis e de vestuário têm uma presença razoável nos EUA e a exportação é um motor de crescimento crítico para apoiar o desenvolvimento e a expansão mundial do “made in USA”», resumem Kendall Keough e Sheng Lu, que citam a necessidade de mais apoios aos esforços de exportação, principalmente para as PMEs, aconselhando ainda o estabelecimento de mais acordos comerciais para abrir novos destinos para os produtores dos EUA. «Isto é crítico já que países da União Europeia e da Ásia estão a trabalhar em novos acordos comerciais regionais e a melhorar a integração económica regional – o que pode colocar os produtos têxteis e de vestuário dos EUA em maior desvantagem, quando competem com produtos feitos localmente nestes mercados», acrescentam.