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“Made in USA” pede apoios

Com o retalho em queda, os produtores de algodão, têxteis e vestuário dos EUA sentem dificuldades para manter o negócio. Há, todavia, quem esteja a superar as expectativas, quer com modelos de negócio diferentes, quer com a produção de artigos para a área da saúde.

Suuchi

O impacto final do novo coronavírus na indústria de algodão e têxtil é incerto, mas, tal como acontece com a economia, o sector tem sido fortemente afetado pela pandemia, segundo o International Cotton Advisory Committee (ICAC), que nas mais recentes projeções, publicadas a 2 de maio, deu conta de um declínio de 11,8% no consumo em 2019/2020.

Esta queda na procura está a afetar os agricultores americanos de algodão que, graças ao pacote de ajuda de 19 mil milhões de dólares (17,5 mil milhões de euros) por parte do Governo, deverão, no entanto, manter uma área de cultivo próxima dos 4,7 milhões de hectares, apesar da pressão sobre os preços. O Coronavirus Food Assistance Program (CFAP) foi anunciado logo depois de um grupo de 21 senadores do Cotton Belt terem endereçado uma carta ao Secretário da Agricultura, Sonny Perdue para chamar a atenção para «este sector crítico», que tem sido muito afetado pelo surto de Covid-19.

«Desde o início de 2020, os preços futuros do algodão evidenciaram um declínio de 30%. À medida que as lojas de retalho encerraram em todo o mundo, os pedidos das fábricas têxteis baixaram 90% no último mês. Os comerciantes e distribuidores de algodão também estão a enfrentar custos adicionais de armazém, juros e outros custos de transporte, já que a procura a nível mundial se encontra significativamente reduzida», referem na missiva.

Produtores em dificuldades

Também a jusante, a indústria enfrenta adversidades. Os têxteis e vestuário “made in USA” atraíram maior atenção nos últimos anos devido à escalada da guerra comercial EUA-China, ao crescente custo das importações e à exigência de chegada ao mercado cada vez mais rápida por parte dos consumidores.

As estatísticas mostram que o valor da produção de têxteis e vestuário nos EUA totalizou 28,1 mil milhões de dólares (cerca de 26 mil milhões de euros) em 2018 – um recorde desde 2010. Além do consumo interno, os têxteis e vestuário produzidos no país começam também a ser exportados. De acordo com o OTEXA, o gabinete responsável pelos têxteis e vestuário dentro do Departamento de Comércio, o valor das exportações americanas deste tipo de produto atingiu os 22,9 mil milhões de dólares em 2019, um aumento de quase 20% em comparação com há uma década.

Os produtores estão, contudo, a viver os mesmos problemas que assolam outras geografias. Numa primeira fase, a escassez de matérias-primas fez parar as produções. A seguir, com o agravamento da situação em todo o mundo, veio a anulação de encomendas. «Estamos a receber emails a cancelar encomendas de todo o lado – todo o nosso planeamento foi completamente erradicado», revelou, ao Sourcing Journal, Kathryn Hildebrand, presidente e CEO da Good Clothing Company, que acabou por despedir os seus quase 30 funcionários por falta de trabalho.

Alguns produtores, como a Suuchi, mantiveram-se a trabalhar, graças a um modelo de negócio que, sublinha a CEO Suuchi Ramesh, lhe permite uma maior resiliência. A empresa é verticalmente integrada, aprovisiona-se em mercados no hemisfério ocidental e tem como arma secreta a análise preditiva de consumo. «Isto pode ser um alerta em relação a como gerirmos as cadeias de aprovisionamento», reconheceu a CEO. «Se for um sistema local-para-local numa plataforma, há um maior controlo em vez de ter uma cadeia que passa meio mundo até à China», explicou.

OnPoint Manufacturing

O mesmo acredita a OnPoint Manufacture, uma produtora de vestuário por encomenda no Alabama, que também manteve as portas abertas. A maior parte das matérias-primas são compradas nos EUA, por isso não houve disrupções, e como só produz sob encomenda, não tem inventário não vendável.

Máscaras para sobreviver

Não obstante, muitas empresas voltaram-se para a produção de máscaras e outros artigos destinados à área da saúde.

Uma coligação de empresas têxteis e de vestuário reuniu forças para construir uma cadeia de aprovisionamento que acelerasse a produção de máscaras para hospitais, profissionais de saúde e cidadãos que lutam contra a propagação do vírus. Como resposta a um pedido urgente da Casa Branca por produtos médicos, a gigante de fiação Parkdale ajudou a liderar esforços com a Hanesbrands, Fruit of the Loom e outras empresas para montar uma rede de sourcing e impulsionar a fabricação de máscaras. A American Giant, a Los Angeles Apparel, a AST Sportswear, a Sanmar, a America Knits, a Beverly Knits e a Riegel Linen foram algumas das entidades que se juntaram à coligação. Todas as empresas asseveraram estar a dedicar ativos, recursos e capacidade de produção para o objetivo comum.

AST Sportswear

A Portland Garment Factory foi uma das primeiras unidades industriais a voluntariar-se para mudar a produção para máscaras descartáveis de polipropileno, mas, como explicou, ao Sourcing Journal, Britt Howard, fundadora e proprietária da empresa, trata-se apenas de ganhar algum controlo entre o caos e a incerteza, já que mais de metade das encomendas foi cancelada ou suspensa. «Não quero ser produtora de máscaras o resto da vida. Quero voltar a ter o meu negócio normal e quero que tudo volte ao normal. Mas, até lá, vou fazer o que ajudar mais a comunidade», afiançou.

O mesmo sucede com a UStrive Manufacturing, a primeira fábrica nos EUA com as certificações GOTS (Global Organic Textile Standard) e OCS (Organic Content Standard), que negociou com o gabinete do presidente da câmara de Los Angeles para ser fornecedora de artigos médicos, nomeadamente batas e máscaras cirúrgicas, tendo para isso contratado mais 100 costureiras, além dos 90 funcionários que já empregava. «Sem o contrato, seria difícil continuar a trabalhar», assumiu Scott Wilson, fundador e sócio da empresa. «Ontem o céu estava a cair, hoje parece que se vai tornar parte da solução», confessou.