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“Make in India” sob escrutínio

Arrancou no dia 13 e prolonga-se até amanhã, 18 de fevereiro, o evento “Make in India”, parte integrante do programa com o mesmo nome, encetado pelo Primeiro-Ministro Narendra Modi, que procura mostrar o potencial de design, inovação e sustentabilidade da Índia aos olhos do mundo.

Milhares de pessoas e imagens do leão-mascote fizeram as honras de abertura da semana dedicada à promoção do programa “Make in India”, que procura atrair investimento direto estrangeiro e foi já apresentado pelo Primeiro-Ministro Narendra Modi como «a maior marca que a Índia já criou», informa a agência Reuters.

Anunciado em setembro, Modi lançou o programa logo depois da campanha “Made in China 2025” (ver China vs. Índia – parte 1). Este pretende atrair investimento estrangeiro e aumentar a quota de produção da terceira maior economia asiática, fixando-a em 25% até 2022, face aos atuais 18%, uma percentagem que se mantém inalterada desde 1947.

Embora existam algumas sobreposições com a campanha chinesa, como a promoção da biotecnologia e da energia renovável, muitos dos 25 sectores de atividade incluídos no “Make in India” não são sectores de vanguarda, mas sim de produção tradicional, como os têxteis e o couro.

Não obstante, ainda que o “Make in India” tenha alcançado novos patamares, alguns patrões questionam o cumprimento de promessas de Modi em torno da simplificação nos negócios, enquanto os especialistas de marketing se mostram cautelosos sobre a criação de expectativas irrealistas.

«Quando se comunica em demasia e não se mostram resultados, o maior risco é que se comece a perder a confiança», explicou Chandramouli Nilakantan, CEO da Blue Lotus Communications, uma consultora de branding e relações públicas.

No que ao buzz diz respeito, a campanha arrancou da melhor forma, com os Primeiros-Ministros da Suécia e da Finlândia a marcarem presença no evento de abertura, no sábado, 13 de fevereiro, onde Modi foi o anfitrião.

No domingo, as delegações percorreram os 10 pavilhões erguidos em Bombaim, a capital financeira da Índia. Cerca de 2.500 empresas estrangeiras e 8.000 domésticas são esperadas no decorrer do certame, de acordo com a organização.

Todavia, no terreno, a experiência de negócios é mais prosaica e o pesado sistema burocrático do país continua a revelar-se impeditivo (ver China vs. Índia – parte 2).

Vinte meses depois de Modi chegar ao poder com uma promessa de crescimento e emprego para os 1,3 mil milhões de pessoas na Índia, os executivos referem que é preciso fazer mais, incluindo melhorar as infraestruturas.

Mais urgente ainda, legislação essencial como os impostos sobre bens e serviços e a lei de aquisição de propriedades estão presas no parlamento, numa altura em que os concorrentes globais, como o Vietname, têm vindo a acelerar os seus esforços de reforma.

«A “Make in India” é uma excelente iniciativa e criou muitos sentimentos positivos», afirma Vikas Agarwal, diretor-geral da empresa de telemóveis OnePlus na Índia. «Agora, o governo precisa de dar continuidade às suas políticas. Isso inclui providenciar incentivos à exportação e taxas aduaneiras, uma racionalização dos impostos e a eliminação das políticas ambíguas de aquisição de propriedades», acrescenta.

Ainda assim, a iniciativa conseguiu arrecadar ganhos significativos, incluindo uma promessa da gigante de eletrónica Foxconn, de Taiwan, de um investimento de 5 mil milhões de dólares (aproximadamente 4,5 mil milhões de euros) numa nova fábrica de aparelhos eletrónicos.

Isso ajudou a que o investimento direto estrangeiro quase duplicasse para os 59 mil milhões de dólares no ano passado, o sétimo nível mais alto no mundo, de acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

Ainda assim, nos aspetos críticos, a Índia permanece aquém dos seus objetivos. A quota da indústria no Produto Interno Bruto está estagnada à volta dos 17% nos últimos cinco anos, abaixo do objetivo de 25%do governo, de acordo com o Boston Consulting Group.

Também de acordo com o Boston Consulting Group, o país criou apenas 4 milhões de postos de trabalho na indústria desde 2010. Se mantiver este ritmo, a Índia apenas conseguirá criar 8 milhões de empregos até 2022, bem abaixo da meta do governo de 100 milhões.

Ravi Aron, um especialista em indústria sediado nos EUA, considera que a Índia não estava bem preparada para um boom de exportações ao estilo chinês, porque o país não dispunha de infraestruturas e capacidade para que as suas exportações pudessem competir internacionalmente.

Aron, professor da Johns Hopkins University, aconselha o governo indiano a reduzir as suas ambições e a concentrar-se no seu mercado doméstico em crescimento.