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Malásia desafia dress code

Diversas mulheres na Malásia, considerada uma nação islâmica moderada, foram impedidas de entrar em edifícios governamentais, devido às suas saias demasiado reveladoras, o que ventilou receios de um conservadorismo crescente, num país com numerosas minorias não-muçulmanas.

A woman walks past a sign with information about a dress code outside a government building in Kuala Lumpur, Malaysia, July 15, 2015. REUTERS/Olivia Harris

A relutância do primeiro-ministro Najib Razak em intervir na aplicação súbita de um código de indumentária, dizem os analistas, demonstra que o líder liberal não está disposto enfrentar os conservadores, num momento em que enfrenta acusações de corrupção.

As sensibilidades étnicas provocam, ocasionalmente, disputas na Malásia, especialmente quando nenhuma das mulheres criticadas pelas suas roupas eram da comunidade muçulmana malaia, que representa dois terços de uma população de cerca de 30 milhões. Os habitantes de etnia chinesa representam 25% da população e os de origem indiana aproximadamente 7%. O código de vestuário, que proíbe roupa reveladora em edifícios do governo, não tinha ainda sido estritamente seguido, pelo que a aplicação mais rigorosa surpreendeu muitos malaios. Os incidentes tornaram-se virais nos media sociais, com os ativistas a concederem destaque à expansão de poderes concedidos a funcionários menores, que podem agora julgar e corrigir a indumentária das mulheres. «Eles não são pagos para serem polícias da moda», subliha a ativista Marina Mahathir, filha do ex-primeiro-ministro Mahathir Mohamed. «Uma vez que, não ouvimos ninguém no topo a dizer “isso é errado”, [essa atitude] é tomada como uma apologia dessas ações e uma permissão para que eles o façam».

Mahathir, ex-primeiro ministro, opôs-se a medidas similares impostas pelos funcionários durante o seu mandato de 22 anos. Os incidentes mais recentes mostram que a Malásia está a regredir e a «agir como a Arábia Saudita», afirma o ex-primeiro-ministro. Em junho, o fato usado por uma ginasta nacional provocou, também, protestos por ser alegadamente provocante. As mulheres malaias começaram a adotar estilos mais conservadores na década de 1970, refletindo uma crescente politização da religião no mundo islâmico. Muitas usam, agora, o véu, que nas décadas anteriores era usado maioritariamente pelas alas mais conservadoras. Os analistas e ativistas políticos têm acusado diversos partidos, ais como a Organização Nacional das Nações Malaias (UMNO na sigla inglesa) de Najib, que lidera a coligação governamental, de usar a religião como forma de reforçar o apoio dos eleitores.

«Os líderes receiam que, se sua religiosidade for questionada, possam enfurecer ou perder eleitores», aponta Ivy Josiah, assessor de Organização de Ajuda às Mulheres. A UMNO, que sofreu o seu pior resultado eleitoral em 2013, conta com o apoio da maioria étnica malaia, genericamente conservadora, proveniente principalmente de áreas rurais. Enfrenta, agora, escrutínio relativamente ao papel de Najib no endividamento do fundo estatal “1Malaysia Development Berhad” (1MDB), embora um relatório do governo o tenha ilibado de suspeitas. Najib referiu, recentemente, que o livro sagrado do Islão, o Corão, seria o guia para todas as políticas e ações do governo. A constituição consagra o Islão como religião da Malásia, mas permite a prática de outras religiões. «Sempre que os apoiantes levantam questões conservadoras, Najib mantém-se quieto», considera o analista político Wan Wan Saiful Jan, do Instituto para a Democracia e Assuntos Económicos.

«Ele pode ser progressista, mas não conseguiu convencer o seu partido e o seu governo a segui-lo». Os religiosos viram a aplicação de um código de vestuário mais rigoroso como um sinal de respeito pelos muçulmanos, em especial durante o mês recém-concluído do Ramadão. «Se um muçulmano que está a jejuar vê as “aurat” de uma mulher, isso anulará os seus benefícios», afirma Harussani Zakaria, um clérigo do norte do estado de Perak, referindo-se às partes do corpo que devem ser cobertas, como sugerido pelas escrituras muçulmanas.

Algumas mulheres opuseram-se à crítica que enfrentaram. «Para mim, foi uma vergonha», revela C. Premananthi, uma repórter de 32 anos de idade, que foi impedida de entrar num edifício do governo, recusando-se a usar um sarong disponibilizado pelos funcionários de segurança. Os ativistas afirmam que a disponibilidade de tais sarongs, entregues às mulheres, é a prova da existência de um movimento mais amplo, rumo a um maior conservadorismo, encorajado pelas autoridades. «Alguém teve de o comprar e dar aos funcionários de segurança», explica Marina, acrescentando que «isto aponta para alguma forma de regulamentação».