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Manuela & Pereira inaugura novas valências

A empresa de confeção investiu quase meio milhão de euros em novas tecnologias e no alargamento das instalações para produzir máscaras e outros equipamentos de proteção individual, mas também para preparar o futuro na área da moda pura e não só. Na calha está ainda o lançamento de um novo artigo anti-Covid-19.

Numa casa cheia, incluindo o Secretário de Estado Adjunto e da Economia, João Correia Neves, e o presidente do conselho diretivo do IAPMEI, Nuno Mangas, mas a respeitar todas as medidas de segurança – do distanciamento à medição de temperatura e desinfeção das mãos –, não estivesse presente a delegada de saúde local, a Confecções Manuela & Pereira inaugurou as novas valências, construídas e montadas em tempo recorde na passada segunda-feira, 7 de setembro.

«É nos momentos difíceis que as empresas devem investir», afirma a sócia-gerente Manuela Pereira, citando uma das lições que aprendeu durante o curso de gestão. Foi essa máxima que presidiu ao investimento numa altura difícil, marcada pela disseminação do novo coronavírus e pela consequente quebra nas encomendas dos clientes da empresa. «Está em causa a nossa sobrevivência», reforçou, no seu discurso de inauguração, Joaquim Pereira, o outro sócio-gerente da empresa.

Manuela Pereira e João Correia Neves

Do medo, contaram, passaram à ação, apostando na produção de máscaras sociais, aprovadas pelo CITEVE a 23 de abril. «A partir daí até ao fim do mês de maio, sensivelmente, a procura foi exponencial», revelou, ao Portugal Têxtil, Manuela Pereira. «Foi uma coisa completamente fora do comum – cheguei a atender pessoas quase à meia-noite. Se na altura tivesse um milhão de máscaras, era um milhão de máscaras que tinha vendido», confessou.

Essa procura permitiu à Confecções Manuela & Pereira passar praticamente sem recurso ao lay-off (menos de um mês para a maior parte dos trabalhadores) e prosseguir a atividade, recorrendo inclusive a subcontratados para dar resposta à procura. «Fizemos um outsourcing com três empresas, que nos apoiaram naturalmente. Nós cortávamos e preparávamos as máscaras, incluindo os acessórios, elas confecionavam e depois fazíamos o controlo de qualidade», explicou, até porque «era fundamental para pudermos dar uma resposta cabal ao país».

Manuela Pereira

O que justificou a resposta negativa que teve de dar a clientes de outros países. «Quando surgiu a possibilidade de exportarmos para França, Dinamarca e Noruega, não tivemos condições de ter capacidade de resposta [e recusamos]. Entendemos que deveríamos primeiro vender para o nosso país e depois então vender para fora, o que chegou a acontecer com França», indicou Manuela Pereira.

A partir de junho, os pedidos de máscaras esmoreceram e a empresa passou a produzir também batas e a retomar os pedidos da área da moda, que tem vindo a recuperar mas que guarda ainda muitas incertezas, assumiu a sócia-gerente da Confecções Manuela & Pereira. «Não na sua totalidade, mas uma boa parte já recuperou. Agora a nossa maior preocupação são os meses que aí vêm», admitiu, apontando três razões. A primeira diz respeito à possibilidade de haver um novo confinamento, que trave o consumo, a segunda aos elevados stocks que existem no mercado.

Joaquim Pereira

«É verdade que, em termos de peças pesadas, que é nosso forte, possivelmente [os stocks] foram escoados, mas as peças de primavera-verão estão nas lojas e nós, a partir de outubro, começamos a produzir esse tipo de peças», esclareceu. A terceira razão prende-se com o medo que ainda se sente nos consumidores. «Nota-se que as pessoas têm receio de vestir uma peça», reconheceu.

Investir no presente e no futuro

Apesar desta incerteza, a empresa avançou com o investimento de quase meio milhão de euros, apoiado pelo Norte 2020 no âmbito do sistema de incentivos à inovação produtiva no contexto da Covid-19, e em menos de dois meses – o projeto foi aprovado a 20 de junho e concluído a 20 de agosto – construiu um novo pavilhão e adquiriu os equipamentos, que incluem corte e estendimento automáticos, prensa de termocolagem e máquina ultrassónica para peças coladas. «São equipamentos completamente flexíveis. As máquinas de colados, como lhes chamamos, têm uma panóplia enorme de utilizações – posso produzir uma máscara ou um casaco, uma bata cirúrgica ou os fatos completos para proteção ao Covid-19. Acho que o céu é o limite em termos de imaginação para aquelas máquinas», garantiu Manuela Pereira.

Em curso está também o desenvolvimento de um novo produto que deverá ser lançado dentro de um mês. «É um produto inovador que pode vir a ajudar a não ter um contacto tão direto com o Covid-19», adiantou, desvendando apenas que é fruto de uma parceria com uma empresa fornecedora de tecidos.

Os projetos da Confecções Manuela & Pereira, que atualmente emprega cerca de 50 pessoas, a que se deverão juntar mais três colaboradores em breve, e que em 2019 faturou cerca de 900 mil euros, passam também pela internacionalização do negócio das máscaras – que estão já à venda online e na plataforma Springkode – e pela continuação do crescimento.

«O nosso objetivo final é trabalhar com qualidade, prontidão e oferecer um serviço de referência ao nosso cliente», salientou a sócia-gerente, que coloca ainda como meta ultrapassar o milhão de euros, até para conseguir o estatuto de PME Líder e PME Excelência. «Não é correto ver micro e pequenas empresas serem divididas pelo número de trabalhadores. É fundamental que alterem essa situação, as empresas devem ser medidas pelo volume de negócios. Podemos ser uma pequena empresa mas o nosso nível de faturação não é tão grande quanto isso porque trabalhamos o private label e, quando é assim, uma empresa não tem condições de ter grandes números de faturação», assegurou Manuela Pereira.

«Eles deviam alterar o valor do milhão de euros, porque deve haver muitas outras empresas que são de referência, muito boas, que têm tudo em ordem em relação à segurança social, aos trabalhadores e ao fisco e depois não conseguem chegar a esse patamar pelo problema da faturação», defendeu.

Para o futuro próximo, «faturar, faturar, faturar» é o lema da Confecções Manuela & Pereira, sobretudo depois deste «investimento muito audaz», mas que não deve ficar sozinho. «Gostaria de pegar no outro pavilhão, na outra parte da empresa, e pô-la tão eficiente como esta [acabada de inaugurar]», asseverou a sócia-gerente.

No fundo, continuar o caminho iniciado a 19 de maio de 1990. «Enquanto houver estrada pra andar/A gente vai continuar», como assumiu Joaquim Pereira, numa citação de uma música de Jorge Palma.

Manuela Pereira