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Maquinaria dá liderança à China

Os números mais recentes das compras de maquinaria têxtil apontam para que o Império do Meio continue a dominar a indústria têxtil mundial no futuro. Em 2017, o país foi, de longe, o maior investidor em maquinaria para fiação, texturização, tecelagem e tricotagem.

De acordo com o 40.º relatório anual de estatísticas de envio de maquinaria têxtil, publicado pela International Textile Manufacturers Federation (ITMF) e realizado em cooperação com mais de 200 construtores de maquinaria têxtil, no ano passado registou-se um crescimento a dois dígitos nos envios mundiais de novos fusos de fibra curtas (+21%), fusos de fibras longas (+46%) e rotores open-end (+24%) em comparação com 2016.

O número de fusos para texturização e teares sem lançadeira que foram exportados aumentou 23% e 13%, respetivamente, enquanto os envios de teares eletrónicos de malha retilínea e de máquinas de acabamentos em descontínuo subiram 44%.

Pelo contrário, as entregas de teares de malha circular estagnaram em 2017, com uma variação positiva de apenas 0,12%, e as máquinas de acabamentos em contínuo registaram mesmo uma queda de 2%.

Fiação soma fusos

Os envios de novos fusos de fibras curtas cresceram pela primeira vez desde 2013, aumentando em cerca de 1,65 milhões de fusos. A maior parte dos novos fusos de fibra curta (95%) foram enviados para a Ásia, onde o crescimento foi de quase 24% em termos anuais. A China, o maior investidor em fusos de fibra curta, registou uma subida de 34%, enquanto as entregas para o Bangladesh e o Vietname desceram 33% e 39%, respetivamente. As entregas na Indonésia subiram 135%.

Os seis maiores investidores no segmento de fibras curtas em 2017 foram a China, a Índia, o Uzbequistão, o Bangladesh, o Paquistão e a Indonésia.

Os envios mundiais de fusos de fibra longa (lã) aumentaram 46%, passando de cerca de 114 mil em 2016 para quase 165 mil em 2017. As entregas para o Irão aumentaram 445%, de 11 mil para 59 mil em 2017. A maioria dos fusos de fibra longa (68%) tiveram como destino a China, enquanto 30% foram entregues na Europa.

Os envios de rotores open-end cresceram 24%, para mais de 788 mil rotores em 2017. Cerca de 85% foram enviados para a Ásia, o que significa que as entregas na região subiram 15%, para quase 674 mil rotores.

Também aqui a China é o maior investidor mundial, tendo aumentado o seu investimento em 6% no ano passado. Mas países como o Irão, Brasil, Uzbequistão e Japão duplicaram as suas compras em comparação com 2016. A seguir à China, os maiores investidores em 2016 foram a Turquia e a Índia.

Texturização com números diferentes

Os envios mundiais de fusos de texturização com aquecedor simples – que são sobretudo usados para filamentos de poliamida – caíram 87%, de quase 8.500 em 2016 para 1.060 em 2017. Com uma quota de 50%, a Ásia é a região que recebeu mais fusos deste tipo, seguida da Europa de Leste e da Europa Ocidental, com quotas de 36% e 8%, respetivamente.

Já os envios de fusos de texturização com aquecimento duplo – usados essencialmente para filamentos de poliéster – registaram uma subida de 27% em termos anuais, para 340 mil fusos. A quota da Ásia atingiu os 90% e a China manteve-se como o maior investidor, representando 66% de todos os envios.

Tecelagem cresce

Em 2017, as expedições mundiais de teares sem lançadeira aumentaram 12%, para 95.400 unidades. O maior crescimento foi verificado nos teares a jato de ar (+18%, para cerca de 27 mil), a jato de água (+14%, para 36.200) e teares de pinças/projétil (+7%, para 32 mil).

Mais uma vez, os principais destinos dos teares sem lançadeira (a jato de ar, a jato de água e de pinças/projétil) em 2017 foi a Ásia, com 91% das entregas mundiais, das quais 48% foram teares a jato de água, 31% teares de pinças/projétil e 28% teares a jato de ar.

A quota de teares de pinças/projétil enviados para a Europa e as Américas atingiu 65% e 37%, respetivamente, enquanto a quota de teares a jato de ar foi de 2% e 25% nas mesmas regiões, respetivamente.

Malhas retilíneas com recorde

Os envios mundiais de grandes teares de malha circular subiu ligeiramente (+0,12%), para um nível próximo das 28 mil unidades em 2017. A Ásia foi o maior investidor mundial nesta categoria, representando 84% do total. Com 39% das entregas mundiais, a China foi o maior investidor, seguida da Índia (5.100 unidades) e do Vietname (2.000 unidades).

As entregas de teares eletrónicos de malhas retilíneas aumentaram 44%, para quase 202 mil máquinas em 2017 – um recorde. A Ásia recebeu novamente a grande maioria dos equipamentos (96%), com a China a ser, de longe, a maior investidora, com uma quota mundial de 76% e um aumento anual de 101.550 unidades para 154.850 unidades.

Acabamentos a subir

No segmento em contínuo, os envios de linhas de mercerização, calandras e râmulas aumentou 54%, 11% e 2%, respetivamente.

No segmento em descontínuo, os envios de máquinas de tingimento a jato de ar e máquinas de tingimento por esgotamento aumentou 35% e 72%, respetivamente.

O que revelam os números

As tendências dos investimentos em maquinaria para fiação, tecelagem e tricotagem são um indicador importante para o futuro das fontes da produção têxtil – e os números mais recentes sugerem que a China, que é já a maior fornecedora de fibras, fios e tecidos, não vai sair do topo do pódio em breve.

Os números também permitem inferir que os principais exportadores de vestuário, como o Vietname e o Bangladesh, ainda têm um longo percurso a percorrer no desenvolvimento de uma capacidade significativa para produzir os têxteis que são necessários para as suas indústrias de vestuário. Há, inclusivamente, algumas preocupações que os governos locais do Vietname estejam a recusar licenças para projetos de produção de têxteis e tinturarias com receio da poluição.

A dominância da China no comércio de têxteis a nível mundial é inabalável. Em 2016, o país produziu mais de metade (54,8%) das fibras e tecidos, as suas exportações atingiram 106 mil milhões de dólares e representaram 37,2% do total mundial. Durante o mesmo ano, a China também exportou vestuário no valor de 161 mil milhões de dólares, o que lhe deu uma quota de 36,4% do mercado mundial – e a maior quota nos três principais importadores de vestuário: os EUA, a UE e o Japão.

Grande parte da sua força deve-se ao tamanho da sua base de aprovisionamento, a sua gama de qualificações, os seus níveis de qualidade, a sua variedade de produtos e a integração completa da sua cadeia de aprovisionamento, desde as matérias-primas aos tecidos, tinturaria, acabamento e produto final.

Mas o sector têxtil do país também tem beneficiado de regras de origem sob acordos regionais de comércio livre, assim como de cadeias de aprovisionamento mais integradas e eficientes de têxteis e vestuário na Ásia.

Há ainda outros números que mostram o quanto estas bases de produção de vestuário com salários baixos e menos desenvolvidas estão dependentes dos fios e tecidos importados da China.

Por exemplo, em valor, 47% das importações têxteis do Bangladesh tiveram como origem a China em 2015, em comparação com apenas 39% em 2005. A história é semelhante para o Camboja (de 30% para 63%), Vietname (de 23% para 50%), Paquistão (de 32% para 68%), Malásia (de 25% para 49%), Indonésia (de 26% para 40%) e Sri Lanka (15% para 38%).

Muito deste crescimento tem sido ajudado pelo investimento em fábricas têxteis a montante, onde equipamentos novos e modernos estão a impulsionar a eficiência e a qualidade, juntamente com custos de produção mais baixos, permitindo ainda que as fábricas chinesas compensem a pressão de leis ambientais cada vez mais exigentes.

Iniciativas recentes do governo chinês, como o “Made in China 2025” e o 13.º plano quinquenal para a indústria têxtil (que abrange o período de 2016 a 2020) estão igualmente a pôr um grande foco em produção com valor acrescentado e na automação, que por sua vez apoia o investimento em fábricas têxteis a montante.

Mas a capacidade de exportação chinesa está cada vez mais sob pressão. Por isso, o plano quinquenal encoraja também a indústria têxtil a aproveitar a iniciativa “One Belt, One Road” (iniciativa chinesa de investimento numa rede de infraestruturas e serviços de ligação por terra e por mar da China ao Mediterrâneo e ao Atlântico) e a expandir a produção de matéria-prima e de processamento no estrangeiro para assegurar um fornecimento estável e aproveitar os custos laborais e energéticos mais baixos.

Em 2016, o investimento direto estrangeiro da indústria têxtil chinesa atingiu um nível recorde, com um aumento de 89,3% em termos anuais, para 2,66 mil milhões de dólares. De acordo com as estatísticas do Ministério do Comércio, no final de 2014 mais de 2.600 empresas chinesas tinham aberto unidades de produção de têxteis e vestuário em mais de 100 países e regiões, com a maior parte do investimento a ir para a Ásia. Isto significa que muito do investimento têxtil em todo o mundo ainda está a ser financiado por empresas chinesas.

O papel da China na cadeia de aprovisionamento têxtil está a mudar também de outras formas. Embora o país continue a ser, de longe, o maior produtor e exportador de têxteis e vestuário, a sua quota no mercado de vestuário, medida em valor, caiu de 38,6% em 2015 para 35,8% em 2016. A sua quota nos mercados dos EUA, UE e Japão também mostra uma tendência negativa nos últimos cinco anos.

Isto deve-se, em parte, ao aumento da procura de vestuário dos mercados de consumo nos países próximos, na Ásia.

Mas a China é também um dos principais mercados de consumo – e a maioria do vestuário comprado na China é feito na China, de tecido ou malha produzido na China. Isto significa que muito do investimento atual e futuro em maquinaria têxtil deverá provavelmente centrar-se em responder à procura do seu próprio mercado interno e pode levar à concorrência pela capacidade de produção de exportação exigida pelas marcas e retalhistas ocidentais e por outros produtores asiáticos.