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Marcas da resistência

Nos EUA, as marcas de moda indie têm vindo a marchar com mais ou menos tropas contra algumas medidas polémicas da administração de Donald Trump, estando inclusivamente a capitalizar com as sugestões e afirmações menos felizes do presidente norte-americano, convertidas em slogans humorísticos.

As políticas protecionistas de Donald Trump e o respetivo mantra “América primeiro” estão a alimentar a criatividade de marcas e designers independentes, que ridicularizam as medidas anti-imigração do presidente eleito ou as suas afirmações mais polémicas em modelos de negócio de resistência, que têm vindo a conquistar cada vez mais clientes. «Não sonhava em fazer camisolas políticas», admite Rachelle Hruska MacPherson, em declarações à Fast Company.

MacPherson é a fundadora da Língua Franca, marca de camisolas de caxemira bordadas em Nova Iorque e vendidas em retalhistas como a Saks ou a Net-a-Porter. Até aqui, as peças apresentavam frases como “Original Gangsta” ou “Old School” e eram usadas por nomes como Leonardo DiCaprio ou Christy Turlington.

Com a eleição de Trump, a Língua Franca sofreu uma reviravolta. Rachelle MacPherson emprega mais de 30 imigrantes e o seu marido tem raízes mexicanas. A retórica anti-imigração do presidente atingiu-a e tornou-se pessoal. MacPherson começou então a produzir peças por medida com slogans políticos como “We Are All Immigrants”, “Power To The Peaceful”, “Science Not Fiction”, “Resist” e “I Didn’t Vote For Him”.

A linha reinventada rapidamente esgotou, forçando Rachelle MacPherson a reconsiderar o seu plano de negócios. No mês passado, choveram mais de mil pedidos para o modelo recém-lançado “I Miss Barack” (relativo ao ex-presidente norte-americano).

No entanto, MacPherson não está sozinha neste negócio acidental. Muitos designers e artesãos também começaram a perceber como o descontentamento impacta as compras dos consumidores. Com efeito, os retalhistas independentes podem assumir riscos políticos que as grandes marcas não podem. Plataformas de retalho como a Zazzle e a Etsy registaram um crescimento nas listas de produtos políticos durante e depois da eleição.

A Zazzle teve um aumento de 26% em encomendas de merchandising político nos últimos seis meses, em comparação com o período homólogo de 2012. Já na Etsy, uma pesquisa por artigos “anti-Trump” oferece quase 5.000 produtos ao utilizador.

O designer Joseph Robinson, da marca de streetwear Joe Fresh Goods, desenvolveu a coleção-cápsula “Fuck Donald”, que propositadamente não faz referência ao último nome de Donald Trump. «Sempre que Trump faz ou diz algo inapropriado, a venda das t-shirts explode», revela.

Um slogan repetidamente visto em toda a campanha de Hillary Clinton e na frente da Marcha das Mulheres foi o da t-shirt “The Future is Female”. A peça minimalista tornou-se viral em 2016, mas o design teve origens humildes: foi inspirado por uma imagem de arquivo de 1975 na conta de Instagram da Herstory, que cataloga a cultura lésbica.

Rachel Berks é a fundadora da Otherwild, uma loja, estúdio e marca de moda de Los Angeles que representa designers feministas e LGBT. Em 2015, Berks encontrou a imagem no Instagram e decidiu encomendar 24 t-shirts estampadas com o slogan. Esgotaram em 24 horas. «Percebi que havia uma necessidade e um interesse nessa mensagem», recorda.

Rachel Berks compreendeu que tinha ali uma oportunidade única para unir solidariedade social e negócio e começou a doar parte das vendas. Desde então, manteve um stock constante do modelo que sentiu um boom nas vendas durante a campanha presidencial de Hillary Clinton. Ainda assim, 9 de novembro de 2016 (dia da vitória de Trump) foi o melhor dia de vendas da t-shirt.

Alguns criativos adotaram uma abordagem diferente, mais leve. Os autores de comédia J.D. e Kate Dobson, fundadores da JD and Kate Industries, canalizaram a sua frustração política para a cera. Em 2016, a dupla começou a vender velas inspiradas em Vladimir Putin na Etsy, como brincadeira e, no outono passado, adicionaram uma vela anti-Trump à oferta.

Saber quais serão os próximos passos de um negócio emergente é sempre desafiante, talvez ainda mais se o negócio for um pouco acidental e estiver dependente da atmosfera política. Quanto mais poderá durar esta apetência pela roupa de resistência? «Depende de quanto tempo Donald Trump for nosso presidente», afirma MacPherson. Até lá, o negócio será para estes designers e marcas uma espécie de terapia. Permitindo que os empresários comuniquem o seu descontentamento nos respetivos campos criativos.