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Marcas de moda europeias em abismo sustentável

Um novo estudo revelou que apenas três em cada 100 marcas de moda europeias, a Patagonia, The North Face e a Levi's, estão a caminhar para um modelo de negócio sustentável ambientalmente, uma vez que a maioria das insígnias alcançou pontuações «abismais» no Circular Fashion Index.

Patagonia [© Patagonia]

O relatório “Can circularity save the fashion industry”, elaborado pela Kearny, usa o Circular Fashion Index (CFX) para analisar as empresas e as respetivas iniciativas de sustentabilidade ambiental. Como conclusão, os autores da análise salientam que é fundamental haver uma mudança para um modelo de negócio circular.

De acordo com o documento, em 2019, os europeus gastaram 225,9 mil milhões de euros em vestuário, principalmente em marcas fashion, que registaram um crescimento nos últimos anos. Como exemplo, destaca o caso específico da Alemanha onde, em média, o consumidor compra cerca de 17 peças de vestuário por ano, a maioria completamente novas e essas 17 somam-se aos restantes 97 artigos que têm já no guarda-roupa.

Cada um desses artigos dura aproximadamente seis anos e, após esse período, os consumidores vendem-nos, oferecem a alguém ou chegam mesmo a deita fora, ainda que em muitos dos casos o fator qualidade condicione a duração de muitas das peças de vestuário.

O relatório surge como um apelo e incentivo a ações por parte das marcas de moda e também para que os consumidores contribuam de forma positiva e credível para o meio ambiente, avança o just-style.com.

O CFX oferece um panorama geral no que diz respeito à performance de circularidade das 100 maiores marcas de moda que operam a nível europeu, independentemente do seu país de origem. A Patagonia, a The North Face e a Levi’s foram as únicas três marcas a atingir uma pontuação «aceitável».

Em comum, as três insígnias têm o compromisso de investir na sustentabilidade e, em particular, em prolongar a longevidade da sua gama de vestuário, uma vez que encaram este conceito como uma oportunidade de negócio, e também um requisito ambiental, e não apenas como um sacrifício ou uma campanha de marketing.

[©The North Face]
«Estes três líderes comunicam abertamente que os seus produtos devem durar mais e incentivam os consumidores a considerar o impacto ambiental da compra de outra peça de roupa. Como parte dessa iniciativa, as empresas estimulam os consumidores a deixar as suas roupas antigas na loja, incentivando-os com cupões ou descontos. Depois, separam as roupas antigas e doam-nas, vendem como artigos em segunda-mão ou reciclam-nas», clarificam os autores do estudo.

A Patagonia, a The North Face e a Levi’s, as marcas com a pontuação mais elevada, também aumentam continuamente a quantidade de tecidos reciclados que usam nos produtos, nomeadamente de poliéster e algodão. Prova disso é que, na estação primavera-verão 2020, a Levi’s lançou a primeira coleção em que 20% das calças são recicladas. Além disso, as três marcas disponibilizam novos serviços como a retificação de algum problema que possa surgir com o artigo ou até mesmo a manutenção do mesmo, investindo ainda em novos formatos de negócio como o mercado em segunda-mão, que sustenta os esforços circulares de prolongar o tempo de vida das peças de vestuário.

Estratégia de negócio e prática obrigatória

Apesar dos progressos destas três marcas na área da sustentabilidade, a maioria das marcas de moda analisadas no relatório alcançou pontuações descritas como «abismais». No CFX, a pontuação média do total das marcas é de apenas 1,6 e as 80 insígnias com menor desempenho conseguiram uma pontuação inferior a 2,5 em 10. Relativamente ao uso de materiais reciclados, só 15% das marcas o fazem de forma confiável, 46% aplicam esta prática mas somente em artigos selecionados ou nalgumas características de um determinado produto e, por último, 39% não recorrem a qualquer tipo de materiais reciclados.

«Os resultados do nosso índice podem parecer desanimadores no início, mas revelam que as empresas de moda têm o poder de se tornar mais circulantes – e a Patagonia, a The North Face e a Levi’s são a prova viva. O sentimento do consumidor está a mudar conforme as pessoas se querem vestir não apenas na moda, mas também de forma ética e sustentável. A sustentabilidade está a deixar de ser um atributo de marca agradável para se tornar numa estratégia de negócio e uma prática operacional obrigatória», indicam os autores.

Medidas para progredir

Elucidar os consumidores de como podem tratar as suas peças de roupa de forma adequada, é uma das medidas, presentes no estudo, que as empresas devem adotar para enveredar pela circularidade, assim como encorajar os consumidores a usar durante mais tempo os artigos, arranjando-os, se necessário.

Levi’s [©levistrauss.com]
O tipo de matérias-primas utilizadas nos produtos das marcas deverá ser igualmente uma prioridade, sendo que as opções mais ecológicas e os materiais reciclados ou biodegradáveis devem estar em primeiro plano. Os serviços de reparação devem ainda ser uma opção de modo a dar uma oportunidade à peça em causa, aumentando o tempo de vida do artigo que, muitas vezes, acabam em aterros sanitários, uma problemática que deverá ser tida em conta através da logística de recolha. Se, efetivamente, as roupas danificadas não tiveram possibilidade de reparação, o ideal será o seu reaproveitamento para produção de novas peças.