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Marcas devem lutar contra abusos no sourcing

As retalhistas Boohoo e Quiz foram incitadas a ajudar os respetivos fornecedores no Reino Unido a melhorar as condições de atuação, em vez de dispensar os seus serviços. O objetivo é acabar com a exploração laboral ao invés de a ocultar.

[©The Telegraph]

O escrutínio crescente em relação às fábricas de vestuário na cidade de Leicester, no Reino Unido, fez com que os defensores do trabalho apelassem aos retalhistas de moda para não deixarem de empregar os fornecedores com quem têm parcerias em curso, mas sim ajudá-los a criar boas condições de trabalho, para evitar a exploração.

As marcas britânicas que contam com fornecedores em Leicester, no centro da Inglaterra, têm estado a tentar responder ao longo do mês de julho a várias notícias e relatos ativistas, que indicam que os fornecedores com quem trabalham não têm uma remuneração justa nem estão a operar com condições que os protejam do novo coronavírus.

Após toda a polémica gerada sobre o assunto, a Boohoo e a Quiz prometeram averiguar a situação das cadeias de aprovisionamento e melhorar o funcionamento, visto que as notícias mencionaram que os trabalhadores em causa recebiam menos de três libras por hora, o que é equivalente a menos de metade do salário mínimo para este sector no Reino Unido.

No início da semana, a Quiz anunciou que já não trabalha com um fornecedor que subcontratava, sobre violação das ordens dadas pela marca. Também a Boohoo afirmou ter suspendido a ligações com dois fornecedores, mas não especificou qualquer razão para o ter feito.

A decisão das marcas continua a gerar muitas questões, uma vez que analistas e ativistas consideram que estas medidas beneficiaram unicamente as próprias empresas, que colocaram outras em risco assim como vários postos de trabalho. Este tipo de ações, ainda na perspetiva dos especialistas, vai fazer com que os fornecedores deixem de levar as suas preocupações referentes às condições de trabalho aos compradores, o que vai fazer com que a problemática do trabalho abusivo não se consiga rastrear.

«Cortar e fugir é uma solução rápida de relações públicas para as marcas passarem a culpa para os fornecedores e desviar a atenção das más práticas de compra das marcas», explicou Meg Lewis, diretora de campanha do grupo de defesa Labour Behind the Label. «Isto só deixa o problema ainda mais escondido», afirmou à Thomson Reuters Foundation numa entrevista via telefone.

A política britânica Sara Thornton assumiu também, na semana passada, que as marcas não devem cortar relações com os fornecedores ao «primeiro sinal de problemas», enquanto as insígnias em questão não fizeram qualquer comentário imediato perante as acusações.

Especialistas da indústria de vestuário admitiram que a exploração no trabalho em Leicester, que possui 1.500 fábricas têxteis e emprega 10 mil funcionários, ainda é uma problemática por resolver, mesmo com todas as denuncias feitas durante os últimos anos e até mesmo com uma investigação parlamentar em 2019.

Os retalhistas online de fast fashion exigem preços cada vez mais reduzidos e uma rapidez superior na mão de obra, o que leva a que os fornecedores subcontratem outros serviços. Como resultado, o risco de ausos no trabalho aumentam, assim como a escravidão, por dívidas que, de acordo com os ativistas, se tornam ainda mais difíceis de rastrear.

Problemas geram mais problemas

Acabar com uma parceria com os fornecedores simplesmente porque recorreram a produções subcontratadas só cria mais problemas, reforçou Nigel Venes, líder estratégico de têxtil e vestuário na The Ethical Trading Initiative (ETI), um grupo de associações, empresas e instituições solidárias que promovem os direitos dos trabalhadores. «Quando uma marca abdica de um fornecedor, geralmente acontece duas coisas. A fábrica fecha e os trabalhadores são demitidos ou, o que sucede por norma, uma fábrica encerra e abre com um nome diferente. Mas as condições e os protocolos continuam a ser os mesmos», afiançou.

[©Financial Times]
A exploração laboral é, muitas das vezes, uma questão omitida porque a grande parte dos trabalhadores deste sector em Leicester provém do sul da Ásia e, por isso, não denuncia a falta de condições nem o abuso por não se considerarem no direito de o fazer, com medo de serem despedidos, presos ou deportados graças à falta de meios legais para viveram na Grã-Bretanha.

Para resolver este tipo de situações, Lucila Granada, diretora da Focus on Labour Exploitation considera que as marcas têm se focar mais em responder às denuncias de abusos nas cadeias de aprovisionamento através de entrevistas com os depoimentos dos colaboradores. «Isto deve levar a um plano estruturado com metas especificas em vigor, para monitorizar as melhorias nas práticas dos fornecedores», esclareceu, acrescentando que as marcas devem ocupar-se dos custos que daí possam advir.

Medidas como o financiamento para inspeções no trabalho, leis que obriguem a que as empresas publiquem listas de fornecedores e detalhes das auditorias e certificação devida do cumprimento dos diretos humanos são alguns dos passos pelos quais os ativistas estão a lutar.

Na semana passada, as autoridades, incluindo a polícia, oficiais de imigração e inspetores de saúde e segurança, asseguraram não ter encontrado qualquer prova de escravidão modernas nas visitas às fábricas em Leicester, ainda assim estão já agendadas mais visitas.

Remi Edwards, investigador de trabalho na Sheffield University, acredita que o foco na escravidão ou em qualquer marca pode reduzir esta temática a uma ofensa criminal feita por um «empregador abusivo». «Enquanto isso, o centro da questão não está a ser resolvido e a escandalização do abuso em Leicester representa-a como uma exceção à regra, tirando o foco de abusos sistemáticos, generalizados e registados», concluiu.