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Marcas ignoram sinais de alerta na Turquia

À luz dos mais recentes relatórios, são várias as marcas internacionais de vestuário que estão a ignorar a exploração de refugiados sírios nas respetivas cadeias de aprovisionamento na Turquia.

Trabalho infantil, salários baixos e condições de trabalho perigosas estão entre os riscos enfrentados pelos refugiados sírios que trabalham ilegais na indústria de vestuário da Turquia, de acordo com o Business and Human Rights Resource Center. A instituição de solidariedade social londrina entrevistou 38 marcas com fábricas turcas nas respetivas cadeias de aprovisionamento sobre quais as medidas adotadas para a proteção dos trabalhadores vulneráveis da exploração. «A grande maioria das marcas está a fazer pouco. Devem proibir o abuso de refugiados nas suas cadeias de aprovisionamento e insistir para que os seus fornecedores ofereçam trabalho digno a todos os trabalhadores», afirmou Phil Bloomer, diretor executivo do Business and Human Rights Resource Center, à agência Reuters.

Quase 3 milhões de refugiados – mais da metade com menos de 18 anos – fugiram para a Turquia como escape à guerra na Síria e muitos trabalham ilegalmente na indústria de vestuário turca. Este ano, uma investigação da Reuters encontrou crianças sírias a trabalhar em fábricas de vestuário na Turquia em condições ilegais e, mais recentemente, uma pesquisa levada a cabo pelo programa “Panorama” da BBC (ver Crianças refugiadas na ITV) descobriu crianças refugiadas sírias em fornecedores da Marks & Spencer (M&S) e da Asos.

Autorizações de trabalho

A instituição londrina revelou que muitas marcas justificavam a inação negando a existência de refugiados nas suas cadeias de aprovisionamento. Na pesquisa do Business and Human Rights Resource Center, desenvolvida em conjunto com sindicatos e ativistas, apenas nove marcas afirmaram ter encontrado refugiados sírios ilegais nas fábricas suas fornecedoras. Essas marcas foram a Asos, C&A, H&M, KiK, LC Waikiki, Primark, New Look, Next e o Otto Group.

Até este ano, os refugiados sírios não tinham direito a licenças de trabalho e muitos trabalhavam clandestinamente (ver Refugiados ilegais na ITV). A Turquia começou a emitir autorizações em janeiro, mas o Business and Human Rights Resource Centre informou que «a grande maioria dos refugiados sírios continua a trabalhar sem proteção legal, sendo vulnerável a abusos».

Marcas como a Asos, C&A, Esprit, GAP, Inditex, LC Waikiki, Mothercare, New Look, Otto Group, Primark, Tesco, Tchibo e a White Stuff esperam que os seus fornecedores apoiem a partir de agora os refugiados ilegais na obtenção de licenças de trabalho, sob pena de serem excluídos da cadeia de aprovisionamento. «Esta é uma mudança positiva, uma vez que muitas marcas já mencionaram uma política de tolerância zero em relação aos refugiados ilegais que trabalham nas fábricas, levando ao corte de relações com os fornecedores», referiu a instituição no relatório.

A instituição londrina elogiou ainda a atitude da Next, da New Look e da Mothercare por apresentarem planos detalhados que visam a proteção dos refugiados e o pagamento de um salário mínimo, mesmo quando os sírios são empregados sem autorização de trabalho.

Contudo, os métodos padronizados utilizados para garantir que as cadeias de aprovisionamento estejam livres de exploração (nos quais as marcas anunciam antecipadamente auditorias aos chamados “fornecedores de primeira linha”) mereceram a reprovação. O Business and Human Rights Resource Centre ressalvou, no entanto, que a Adidas, C&A, Debenhams, LC Waikiki, Puma, Inditex, Asos, H&M e a NEXT auditam também empresas subcontratadas, mas que ainda há muito para ser feito.

Também com nota positiva, a pesquisa mostrou que algumas marcas estavam a adotar medidas coletivas sobre a exploração na Turquia através da Ethical Trading Initiative, uma aliança de sindicatos, empresas e instituições de caridade que promove os direitos dos trabalhadores. «De forma dececionante, seis marcas não responderam às perguntas (da pesquisa) – a Gerry Weber, Lidl, Mexx, New Yorker, River Island e Sainsbury’s», lamentou a instituição londrina no relatório. Arcadia, Burberry, S.Oliver, SuperGroup, VF Corp e Walmart limitaram-se a fazer pequenas declarações.