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Marcas potenciam exploração na Turquia

Apesar dos esforços por parte de um pequeno grupo de marcas de moda e retalhistas europeus para combater a exploração de refugiados sírios e outros trabalhadores nas cadeias de aprovisionamento turcas, a maioria ainda não está a tomar medidas necessárias para prevenir estes abusos.

São vários os relatórios que mostram as más condições de trabalho que os refugiados sírios enfrentam na Turquia, incluindo salários discriminatórios abaixo dos níveis legais, trabalho infantil, assédio sexual e outros tipos de abusos. Porém, um novo estudo do Business & Human Rights Resource Centre, analisado pelo just-style.com,

revela que as próprias práticas de compra das marcas estão a potenciar o risco de abusos laborais, reduzindo salários, fomentando o trabalho precário, ao penalizarem as empresas que não vão de encontro aos seus irrealistas prazos de entrega.

Fluxo de refugiados

Desde que a guerra civil síria começou em 2011, mais de 3,6 milhões de sírios escaparam para a Turquia. Desses, cerca de 650 mil trabalham na indústria de vestuário do país. A maioria são trabalhadores ilegais, nos níveis mais baixos da cadeia de aprovisionamento e, por isso, particularmente vulneráveis a abusos e exploração.

Graças, em parte, a esta grande oferta de mão de obra barata, a indústria do vestuário turca está a crescer. A Turquia é o terceiro maior fornecedor de vestuário da União Europeia e deverá aumentar as suas exportações em 10% em 2019. Com o surgimento de marcas online e a ênfase crescente nos tempos reduzidos de entregas para dar resposta às constantes mudanças nas tendências, a Turquia deverá manter a sua importância estratégica, tanto junto de marcas europeias emergentes como com as já estabelecidas, dada a sua proximidade do mercado europeu.

Embora o papel das marcas de moda na exploração dos trabalhadores seja evidente, o novo estudo indica que tipo de práticas estão a criar condições para a exploração de refugiados sírios e outros trabalhadores na industria do vestuário da Turquia.

Entre as principais descobertas está o facto das relações temporárias entre fornecedores e marcas potenciarem o emprego precário e o abuso nas horas extraordinárias. Segundo os fornecedores, existem poucas relações duradouras com as marcas, com a maioria a referir que apenas consegue prever as encomendas entre dois a três meses. Sem planeamento, os próprios trabalhadores também ficam sujeitos a contratos de curto prazo. A esta acrescentam-se as pressões sobre os preços, que conduzem à redução os salários dos trabalhadores, segundo os entrevistados. Um dos fornecedores admitiu mesmo aceitar encomendas abaixo do custo e outros reconhecem que esta prática é habitual na indústria.

Prazos de entrega pouco realistas conduzem à subcontratação, já que, para garantir as encomendas, os fornecedores subcontratam empresas mais pequenas, abusando de trabalhadores temporários.  As penalizações financeiras impostas pelas marcas comprometem os lucros dos fornecedores, que aceitam o pagamento por atrasos como parte normal da sua relação com as marcas. Estas práticas, aponta o relatório, criam as condições necessárias à exploração de trabalhadores vulneráveis, na sua maioria mulheres, refugiados sírios e imigrantes. Estes grupos não têm a capacidade de se sindicalizarem ou de fazerem exigências negociais coletivas.

As recomendações

Entre várias recomendações, o Business & Human Rights Resource Centre avisa que as marcas têm que alterar radicalmente as suas práticas de compra – o que exige uma mudança cultural gigante –, bem como procurar outras formas de compreender o impacto que as suas decisões negociais tanto nos fornecedores como nos trabalhadores que estes empregam.

Mesmo as marcas conhecidas por ter programas de responsabilidade social foram citadas pelos fornecedores, que, garantem, têm praticas de compra agressivas, incluindo o pedido de encomendas «por preços pouco razoáveis» e a imposição de penalizações por atrasos nas entregas, mesmo que estes já sejam curtos.

Deste modo, as marcas devem comprometer-se a levar totalmente em conta o aumento do salário mínimo de 2019 e todos os aumentos futuros nos salários mínimos nos valores que pagam aos fornecedores. As marcas devem comprometer-se a custear os custos de mão de obra, para garantir salários dignos; devem dar fortes incentivos para os compradores criarem relações a longo prazo com os fornecedores, para que garantam condições de trabalho seguras e proteção. As marcas devem ainda compreender a capacidade produtiva das empresas, criando prazos de entrega justos.