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Marrocos quer ser 100% vertical

A indústria de confeção marroquina adaptou-se para fazer máscaras e assim lidar com o cancelamento massivo de encomendas provocado pela pandemia de Covid-19. Um desafio que os empresários acreditam poder ser uma oportunidade se, tal como neste período, se mantiverem as ligações com a cadeia têxtil a montante.

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«Durante a semana de 9 de março, quando Espanha entrou em confinamento, começámos a receber cancelamentos de encomendas», conta Fatima-Zohra Alaoui, diretora-geral da AMITH – Association Marocaine des Industries du Textile et de l’Habillement ao just-style.com. «Os clientes disseram aos fornecedores: “tudo o que estiver cortado, enviem; se não está cortado, não enviem; falaremos depois”», acrescenta.

O impacto foi severo e a produção acabou por parar a 20 de março, sem que os empresários tivessem fundos para cobrir os salários dos trabalhadores.

De acordo com Hichem Mghirbi, proprietário da produtora de vestuário Groupe Filmod, sediada em Casablanca, nenhuma empresa apresentou ainda insolvência em Marrocos. O Governo adiou os prazos de pagamento de impostos até ao final de junho, tendo pago subsídios de 180 euros por mês diretamente aos trabalhadores também até ao fim do mês passado.

Fatima-Zohra Alaoui afirma que, no início de abril, com o Covid-19 a afetar Marrocos – a 17 de junho, segundo o Worldometers, o país tinha 16.638 casos confirmados, dos quais 2.463 ainda ativos, e 263 mortes –, as fábricas converteram as suas linhas de produção para fazer máscaras descartáveis tanto para os profissionais de saúde como para o público em geral. Uma resposta às novas regras de distanciamento e proteção da saúde impostas pelo Ministério da Saúde Pública de Marrocos.

As fábricas que faziam sacos de compras tinham grandes stocks de não-tecidos para as confeções usarem. Contudo, a procura por máscaras foi tão grande que, explica Alaoui, «tivemos de mobilizar as nossas produtoras de tecidos e malhas para fazerem têxteis para transformar em máscaras reutilizáveis. A indústria foi rápida a adaptar-se, a desenvolver e a acelerar a produção num curto período de tempo».

Hichem Mghirbi espera que este trabalho permita desenvolver ligações entre os sectores têxtil e de vestuário de Marrocos que perdurem após a pandemia, com as empresas a perceberem agora o benefício da cooperação ao longo da cadeia de valor, desenvolvendo uma nova forma de pensar na indústria marroquina.

«Espero que sejamos capazes de investir em fiação e tecelagem, para criar uma cadeia de valor 100% vertical e que isso se torne num movimento muito mais vasto na indústria», sublinha.

Encomendas de moda de volta

Segundo Fatima-Zohra Alaoui, clientes europeus como a gigante espanhola Inditex, que detém a Zara e a Bershka, começaram a colocar pequenas encomendas junto dos fornecedores marroquinos, numa altura em que começam a testar os mercados para recuperarem a confiança dos consumidores no retalho.

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Mghirbi afirma que a sua empresa teve sorte porque a sua principal época de atividade começa em julho, com a produção de casacos de inverno. «A partir do início de julho, tenho a capacidade tomada», revela. Mas garante que empresas centradas em gamas para a primavera-verão foram mais afetadas, tendo perdido negócio em março, o mês de maior produção para encomendas de proximidade.

O dono do Groupe Filmod acredita que a indústria marroquina tem de «monitorizar o que se passa, ver como as vendas estão a correr e mover-se rápido na direção certa» assim que tiverem informação de mercado.

Os produtores, assevera, têm de se centrar em «sustentabilidade, flexibilidade e clientes online», sublinhando que a pandemia está a acelerar estas tendências, impulsionadas pelos clientes Millennial que querem «compras online, moda sustentável e personalização».

O empresário considera que Marrocos tem que se preparar para um aumento potencial de encomendas a médio prazo, prevendo que «a pandemia vai mudar os hábitos de aprovisionamento do Extremo Oriente para as compras na região Euromed, por isso isto é uma oportunidade». Para Mghirbi, «temos de ser otimistas e realistas ao mesmo tempo e temos de nos focar em adaptabilidade e resiliência».

Antes da pandemia, a indústria têxtil e vestuário de Marrocos estava a iniciar um projeto de desenvolvimento para se alinhar melhor com as exigências do sector em áreas como a fast fashion e a produção ecológica.