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Materiais revolucionários

A inovação nos materiais tem gerado inúmeras evoluções e revoluções na indústria têxtil e vestuário, como demonstraram os vários exemplos que foram apresentados na mais recente edição da iTechStyle Summit.

Pedro Magalhães

Pegando no tema do próprio painel, João Gomes, diretor de operações do CeNTI, questionou se será necessário uma evolução ou uma revolução ao nível dos materiais. «É, de facto, necessário um choque tecnológico sem perder a cabeça, mas se quisermos evoluir devagar, é também muito provável que sejamos os fósseis do futuro», afirmou, e, embora estejamos a gastar recursos a uma velocidade superior à da sua renovação, «temos uma sustentabilidade económica a manter enquanto fazemos esta transição económica de umas fontes de materiais para outras».

João Gomes

O centro de nanotecnologia e materiais inteligentes tem vindo a trabalhar em diversos projetos, como o Fiber4Fiber, que pretende desenvolver pastas solúveis de celulose, a partir de eucalipto, otimizadas para a produção de fibras de base celulósica, nomeadamente viscose e liocel, e que possam ser rastreáveis ao longo da cadeia de valor, e o Biomat, focado em acelerar a inovação em materiais de isolamento de base biológica contendo nanomateriais para indústrias como a construção, automóvel, mobiliário e acolchoados.

Para o futuro, para encontrar novas formas de matérias-primas «só iremos lá chegar inovando, pensando de forma diferente e pensando que alguns dos materiais que não são óbvios para o sector têxtil, são de facto a resposta, até para a produção de maior volume, produção essa que será, necessariamente, sustentável», resumiu João Gomes.

João Vilas Boas

João Vilas Boas, diretor do laboratório de biomecânica Labiomep da Universidade do Porto, centrou a sua intervenção nos fatos de banho para competição, uma área onde a indústria têxtil e vestuário portuguesa tem «tecnologia altamente sofisticada» que poderá ajudar à evolução do desporto, tendo deixado o apelo para que a indústria têxtil mantenha a parceria com o Labiomep para «desenvolver tecnologia eletrónica embebida no têxtil que nos ajude a monitorizar o treino, que nos ajude a monitorizar a competição, que ajude a trazer mais informação da competição aos espetadores, tornando a competição mais apetecida. Temos um caminho imenso à nossa frente para percorrer neste contexto».

Gilda Santos

Militar e saúde em foco

Do desporto para a área militar, Gilda Santos, gestora da área de proteção e defesa do CITEVE, revelou o projeto Vestlife, focando-se no design, que permitiu criar dois modelos de coletes. «Conseguimos chegar à conclusão que era, de facto, muito indicado termos dois modelos, um mais standard, mais convencional, e outro mais slim, para intervenções mais rápidas, que é um pouco mais leve, protege os órgãos essenciais, que são requisitos mínimos das normas para a certificação, e que permite, também, rapidamente, quando a situação complica, fugir muito rápido», com mais-valias face aos disponíveis no mercado.

Na saúde, Natália Homem, que trabalhou como investigadora no 2C2T – Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil da Universidade do Minho, apresentou um projeto de aplicação de têxteis na área biomédica, nomeadamente a produção de fibras em wet spinning

Natália Homem

desenvolvidas com materiais de base biológica e com aplicação de óleos essenciais com características antimicrobianas. «Foi possível verificar que os óleos essenciais incorporados nas fibras tiveram maior eficácia e ocorreu realmente a libertação controlada de uma forma mais eficaz», destacou, acrescentando que «estas podem ser usadas em pensos antimicrobianos mas podem ter também outras aplicações – recentemente começamos a tentar incorporar estas fibras em misturas asfálticas, em sensores, em diversas aplicações, mas para a parte têxtil o mais interessante tem sido a utilização para reforço dos tecidos, para que passem a ter este tipo de comportamento antimicrobiano».

Da investigação para o mercado

Já as intervenções do lado da indústria mostraram como a inovação pode chegar ao mercado. Sara Rosmaninho, gestora de marketing da empresa de têxteis-lar António Salgado, explicou o projeto HelpInTex, um tapete antiderrapante com sensores que alertam para o movimento e previnem a intrusão de estranhos em casa.

Sara Rosmaninho

«A António Salgado percebeu que havia uma oportunidade de negócio em criar uma nova linha de tapetes multifuncionais inteligentes e entrar assim na área dos têxteis inteligentes nos têxteis-lar», sintetizou Sara Rosmaninho.

Por seu lado, Pedro Magalhães, diretor de inovação da Tintex, descreveu um percurso repleto de projetos de inovação por parte da empresa que deram origem a produtos que estão já no mercado, seja o tingimento com corantes naturais ou a produção de alternativas ao couro usando desperdícios de outras indústrias, sendo o mais recente «o desenvolvimento de um material têxtil que incorpora borras de café, da Nespresso, em parceria com uma empresa portuguesa de calçado e uma marca francesa, que neste momento já está em comercialização».

Na sua intervenção, o diretor de inovação da Tintex desvendou que «relativamente aos materiais, a nossa ideia tem muito a ver com a otimização da performance, a aplicação em diversas áreas daquilo que são os resíduos que podemos utilizar, de preferência de Portugal, porque também estamos preocupados com a economia de proximidade» e deixou duas «provocações positivas». A primeira é que «a inovação é, cada vez exponencial» e, como tal, as empresas têm de estar «preocupadas e preparadas para esta inovação disruptiva e exponencial». A segunda tem a ver com parcerias. «Desengane-se quem acha que consegue fazer este caminho sozinho. Ninguém consegue atravessar todas estas intempéries, todas estas pandemias, guerras, sozinho. As empresas não inovam sozinhas e, digo mais, as empresas não sobrevivem sozinhas, por isso, se acham que podem fazer parte do nosso caminho ou se acham que nós podemos fazer parte do vosso caminho, contactem», apelou Pedro Magalhães.