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Matérias-primas beneficiam ITV

Depois de meses de baixa procura e elevada oferta, que causaram à queda dos preços e a um aumento das margens dos retalhistas, a retoma progressiva da indústria têxtil e vestuário está a levar a uma subida dos preços das fibras.

[Pixabay Gaertringen]

O índice de preços do Institute for Supply Management (ISM) para agosto registou 59,5%, um aumento de 6,3% em comparação com a leitura de 53,2% de julho, o que mostra que o preço das matérias-primas cresceu pelo terceiro mês consecutivo. As 17 indústrias que estão alegadamente a pagar preços mais altos pelos materiais foram lideradas pelas fábricas têxteis e pelo vestuário, couro e produtos relacionados.

«O aumento dos preços reflete uma mudança de poder para os vendedores, numa altura em que a subida dos custos para produzir matérias-primas está a ser passada para as empresas», destaca Timothy R. Fiori, presidente do comité de inquérito dos negócios de produção do ISM, citado pelo Sourcing Journal.

Os preços do algodão nos EUA rondaram em média 58,37 cêntimos de dólar por libra (equivalente a cerca de 1,11 euros por quilo) na semana terminada a 10 de setembro, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. Este valor é inferior aos 58,92 cêntimos de dólar por libra na semana anterior, mas representa um aumento em comparação com os 55,97 cêntimos de dólar por libra um ano antes, indicou o Departamento de Agricultura.

Há ainda muita volatilidade e incerteza em relação à economia e a um consumidor receoso. A isso junta-se questões globais que afetam a produção de diversas formas. Por exemplo, a Cotton Incorporated afirmou que a proibição por parte dos EUA de importar algodão de Xinjiang pode exigir rastreabilidade para matérias-primas à base de fibras que passem pela China. O custo do sourcing aumenta com esse processo, assim como com os relacionados com a movimentação das cadeias de aprovisionamento e incerteza no geral, o que deverá pesar nos volumes de encomendas e, consequentemente, ter algum efeito no consumo de algodão, referiu a Cotton Inc.

O índice de preços no produtor para as fibras sintéticas baixou 0,5% em agosto em comparação com julho, mês em que subiu 0,6%, segundo os dados do gabinete de estatísticas do trabalho dos EUA. O índice desceu 3,9% face a agosto de 2019.

Embora estes indicadores pareçam demonstrar alguma estabilidade e uma mudança para as fibras, os executivos sentem que pode demorar algum tempo a chegar lá.

Produtores de fibras expectantes

Craig Creaturo, vice-presidente e diretor financeiro da produtora de fibras e fios Unifi, asseverou que o segmento do poliéster evidenciou um declínio de 46,2% no volume de negócios no quarto trimestre terminado a 28 de junho, com o fator principal a ser o volume mais baixo, incluindo uma quebra conjunta de preços e vendas de 16%.

Stefan Doboczky (Lenzing) [©Lenzing]
«A queda do preço médio de venda segue uma descida em termos anuais nos custos da matéria-prima do poliéster», explicou Creaturo.

Contudo, o CEO Edmund Ingle reconheceu que, «na verdade, não verificámos muita pressão nos preços. As pessoas têm-se apoiado mutuamente neste ambiente» e acrescentou que «toda a gente está focada, mais do que tudo, em ter a certeza que consegue o produto que quer, quando precisa dele. E nós temos estado presentes para os apoiar. Mas a pressão dos preços não tem sido uma questão atualmente».

O grupo Lenzing, que produz fibras como Tencel e Modal, revelou no mês passado que enfrentou um «ambiente de mercado historicamente difícil» na primeira metade do ano, com um aumento da pressão sobre os preços e os volumes resultante da pandemia.

«A crise de Covid-19 tem impacto em toda a indústria têxtil e vestuário e a uma maior pressão no preço e volumes em todo o mercado de fibras», admitiu Stefan Doboczky, CEO do grupo Lenzing.

Como contramedida, a empresa anunciou ter intensificado a cooperação com os parceiros da cadeia de aprovisionamento e ajustado os volumes de produção e os preços de venda em linha com a realidade dos mercados. O foco em fibras especiais continuou a ter um impacto positivo.

Gerir margens

Para as marcas muitas vezes apanhadas no meio de crises de preços, o recente segundo trimestre permitiu-lhes beneficiar de alguma forma do caos do primeiro trimestre, depois da chegada do novo coronavírus a todo o mundo. Isso porque após terem sido canceladas ou reduzidas encomendas de produção, foram capazes de usar o inventário que estava disponível para ser vendido à medida que os consumidores regressaram às lojas e aumentaram as vendas online, salienta o Sourcing Journal.

Carlos Alberini (Guess Inc.) [©Bloomberg]
«A nossa margem bruta no segundo trimestre beneficiou de uma combinação favorável de negócio, já que os nossos negócios internacionais foram uma parte maior do nosso volume de negócios total em comparação com o ano anterior e, no geral, têm margens brutas mais altas do que os nossos negócios na América do Norte», apontou Mike Shaffer, diretor de operações e diretor financeiro da PVH Corp. «Além disso, os lucros no segundo trimestre beneficiaram de iniciativas de redução de despesas, incluindo reduções salariais, lay-offs temporários e menos gastos discricionários, incluindo viagens de marketing, custos de consultoria com design e criativos, assim como benefícios únicos de programas de subsídios do governo relacionados com a pandemia nas nossas jurisdições internacionais e da renovação e renegociação com alguns dos nossos senhorios», adiantou.

Para a PVH, no entanto, há ainda problemas a ser ultrapassados. «Esperamos que a nossa margem bruta no segundo semestre se mantenha relativamente estagnada em comparação com o primeiro semestre, já que prevemos uma forte atividade promocional em toda a indústria para limpar inventário, sobretudo nos EUA», indicou Mike Shaffer. «Quando pensamos nas despesas no segundo semestre e quando as comparamos com o segundo trimestre, esperamos que, enquanto percentagem do volume de negócios, sejam ligeiramente superiores no segundo semestre do que no segundo trimestre», resumiu.

Carlos Alberini, CEO da Guess Inc, afiançou este mês que a empresa tem tido «muita estratégia com os preços e, em alguns casos, se sentimos que o valor percebido quer do vestuário, quer do acessório ou de qualquer produto que estejamos a analisar, merece ter um preço mais alto, aumentamos os preços».

«Sinceramente, não sentimos desaceleração na procura quando fazemos isso», garantiu Alberini. «Por isso, estamos a ser cautelosos e tudo começa com os valores percebidos, não é “ok, vamos lá tentar ter mais margem”, não é assim. Tem mais a ver com o que é que vale com base no que estamos a fazer e na qualidade e depois com base no que estabelecemos para o preço», esclareceu.

Efeito no sourcing

Morris Goldfarb, presidente do conselho de administração e CEO do G-III Apparel Group, assegurou que os preços das matérias-primas não têm sido um problema, sobretudo devido a uma mudança na produção.

«Tornámo-nos um player dominante na Jordânia literalmente do dia para a noite. Deslocamos cerca de 10 gestores do nosso escritório na China para viverem lá e supervisionarem a nossa produção na Jordânia e funcionou bastante bem», assegurou Goldfarb.

O CEO avançou que a G-III transferiu a produção de malas da China para o Vietname e a empresa produz agora «uma incrível quantidade de casacos no Vietname e essa foi a solução principal para a produção chinesa».

Embora muitas empresas tenham tirado a produção da China durante a guerra EUA-China numa tentativa de evitar as taxas de importação punitivas impostas pela Administração Trump, o aumento dos preços no Império do Meio a longo prazo deu origem à diversificação do sourcing, sobretudo para fornecedores asiáticos com preços mais baixos, mas também opções de proximidade e sem taxas associadas no hemisfério ocidental.

Morris Goldfarb (G-III Apparel Group) [©Fortune]
No início de setembro, o Ministério do Trabalho do Camboja anunciou que os trabalhadores do vestuário irão receber mais dois dólares por mês a partir de 1 de janeiro, elevando o salário mínimo em 1,05%, para 192 dólares, depois das negociações entre o governo, empresários e sindicatos ter chegado a um impasse. Os dois dólares extra, elucidou o Ministério, somam-se ao “presente” anual do governo. Dependendo da sua senioridade no local de trabalho, os trabalhadores podem também receber compensação por renda, transporte e alimentação que pode elevar os seus rendimentos mensais para um valor entre os 209 e os 220 dólares por mês, acrescentou.

Em setembro de 2019, o Camboja aumentou o seu salário mínimo para os trabalhadores têxteis em 4,4%, para 190 dólares por mês.

Aumentos salariais semelhantes têm sido comuns nos últimos anos em países como o Bangladesh, que subiu em 51% em 2019, mas ainda tornam os custos de produção relativamente baratos em comparação com outros locais de produção, como Itália ou o México.

 No ano passado, o Vietname aumentou o salário mínimo mensal em 5,3%, para um valor entre os 125 e os 180 dólares, dependendo da região.

Uma miríade de fatores que levaram os preços do vestuário no retalho a subirem 0,6% em agosto em termos ajustados sazonalmente – o terceiro crescimento mensal consecutivo – mas desceram 5,9% em termos não ajustados em comparação com o ano anterior, indicou o gabinete de estatísticas laborais dos EUA.

O principal aumento de preço aconteceu no vestuário de homem, com um incremento de 2% em comparação com o mês anterior, com as exigências sazonais e de estilo de vida a parecerem ter impacto nas alterações de preço por categoria. O mesmo padrão seguiu o vestuário de senhora, que registou uma subida dos preços de 0,5% em agosto.