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Maurícias: missão possível

A pequena ilha do Oceano Índico quer reforçar o seu posicionamento como produtora de vestuário de elevada qualidade, com missões de prospeção e promoção em diversas partes do mundo. O Reino Unido, onde trabalha já com o Arcadia, M&S e Harrods, é a mais recente aposta da indústria de confeção do país.

A indústria textil e vestuário das Maurícias estabeleceu, ao longo dos anos, uma reputação sólida como produtora de vestuário de gama alta. E o país está mais empenhado do que nunca em reforçar esta imagem através do investimento em inovação e na expansão geográfica, segundo revelaram executivos da indústria ao just-style.com.

Com acesso sem taxas aos mercados da União Europeia e dos EUA, graças ao Acordo de Parceria Económica UE-África Oriental e do Sul e ao recentemente alargado Africa Growth and Opportunities Act (Agoa), as Maurícias têm trabalhado para impulsionar a sua indústria têxtil e vestuário.

O sector já abrange cerca de 250 empresas que empregam mais de 44 mil pessoas e representa cerca de 55% das exportações. Sem surpresas, a Europa, os EUA e a África do Sul continuam a ser os principais mercados – e as Maurícias estão atualmente numa missão para mostrar as suas credenciais no Reino Unido.

O interesse no Reino Unido

«Atualmente o Reino Unido é um dos mercados mais importantes e o nosso objetivo é consolidar e expandir a nossa quota de mercado», explicou Arvind Radhakrishna, CEO da organização de promoção do comércio Enterprise Mauritius, ao just-style.com, à margem de um evento de dois dias com compradores e fornecedores em Londres. «Estamos já a fazer negócios com grandes retalhistas como o Arcadia, a M&S e o Harrods, mas a ideia é expandir sempre mais», acrescentou.

As Maurícias, que são conhecidas pela produção de moda de gama alta, estão, contudo, a competir num mercado britânico que tem uma obsessão com a fast fashion e preços baixos, algo que muitos mauritanos veem como um desafio quando tentam entrar no mercado.

Subhas Ramchurn, diretor-geral da Shivani Manufacturing, admitiu que o mercado é difícil tendo em conta que os consumidores são tão conscientes dos preços. «As Maurícias não são conhecidas pelo seu vestuário barato. Temos preços altos, por isso não podemos competir com o Camboja e o Bangladesh. Fazemos as coisas bem, conseguimos prosperar com pequenas quantidades», acrescentou.

Da mesma forma, Manoj Juddoo, diretor-geral da Chemiserie Bellville, que exporta para a África do Sul e para França, afirmou estar a tentar renovar contratos no Reino Unido mas percebeu que os preços baixos são um problema. Ainda assim, tal como Shivani, Juddoo sublinhou que os produtos de vestuário das Maurícias são conhecidos pelo seu detalhe, qualidade e pequenas quantidades.

Uma questão de qualidade

Mas o Reino Unido não é uma novidade para as Maurícias, onde já vende há 40 anos, pelo que Radhakrishna não se mostrou perturbado pela ascensão da fast fashion e pelo desafio colocado pelos concorrentes de preços mais baixos.

«Claro que há concorrência, mas a qualidade que produzimos é diferente. O Vietname, o Bangladesh, a índia, o Paquistão estão cá, mas isso não nos afeta porque com os nossos mercados e os nossos compradores criamos uma reputação – cumprimento dos padrões éticos e internacionais, o que é muito importante atualmente», referiu.

Embora anteriormente a indústria estivesse dependente dos básicos, estes passaram agora para países como Madagáscar, ficando as Maurícias com as gamas mais altas. Como resultado, a indústria têxtil e vestuário do país tem investido, com a ajuda do governo, em novas tecnologias e inovação para atrair novos compradores.

O investimento foi feito em termos de construção de capacidade, com a redução de prazos de produção e mais artigos de têxteis técnicos e novos «projetos de expansão das empresas» estão a caminho, adiantou Arvind Radhakrishna. Foi ainda lançado recentemente no país um “Fórum de Tendências”, envolvendo o conhecimento de «consultores mundiais reconhecidos» para ajudar a criar capacidade e aconselhar os produtores sobre como desenhar e criar coleções para certos mercados.

«Estamos prontos para tudo. Isto está a acontecer porque os nossos produtores estão bem conscientes de que se não inovarem, se não mantiverem a sua produtividade e competitividade, vão ter de fechar porque a concorrência é muito acérrima. Isso está a acontecer e o governo está a dar todo o seu apoio. O que é fantástico é que quando vamos para novos mercados pela primeira vez, percebemos que há um enorme interesse em vestuário feito nas Maurícias, por causa da qualidade e porque muitos compradores estão cansados de aprovisionarem na China com os preços a subirem», acrescentou.

O Firemount Group, que detém a FM Denim, é uma dessas empresas que investiu em nova tecnologia, sobretudo na área da sustentabilidade, e conta com a Jasper Conran, Calvin Klein e Tommy Hilfiger entre os seus clientes.

O diretor-geral Soma Sekharan afirmou ao just-style.com que «usamos menos água e menos mão de obra e atualmente estamos também a fazer lavagens especiais sem químicos. Estamos a investir muito em nova tecnologia. As Maurícias são caras, mas é um produto melhor e temos mais experiência do que o Bangladesh, temos pessoas muito qualificadas. Somos mais como a China. Toda a gente está à procura do barato, mas nós não podemos baixar os custos. As pessoas conhecem as Maurícias e nem toda a gente quer comprar ao Bangladesh – estamos bastante à frente».

Para atrair novos compradores, a Enterprise Mauritius está a aumentar o número de eventos que organiza em todo o mundo, assim como a participar em feiras internacionais. Está ainda a promover missões inversas, onde os compradores podem visitar diretamente empresas no país.

Mas para além de tentar chamar a atenção de clientes em mercados mais tradicionais como o Reino Unido, França e EUA, a Enterprise Mauritius está a procurar novos mercados emergentes, como o Japão, a Austrália e a República Checa.

«Neste momento estamos a ter reuniões com pessoas da Holanda e a falar em fazer um grande projeto aí», referiu Radhakrishna. «E no Japão estamos a ajudar as nossas empresas a produzir ao gosto do mercado japonês, já que é muito diferente. Por isso estamos a entrar agora em todos esses mercados e o interesse é muito bom», acrescentou.

O objetivo último é construir uma indústria de moda nas Maurícias, confessou Radhakrishna. «Estamos a dar todo o tipo de apoio aos nossos produtores para assegurar que inovam e se reforçam para ter a capacidade adequada em termos de tendências e sourcing dos tecidos certos. Há muito apoio sólido para aumentar as nossas exportações», concluiu.