Início Notícias Mercados

Menos é mais na Inditex

Com os consumidores a comprarem cada vez mais online, o encerramento de lojas físicas é uma tendência em crescimento no retalho. Contudo, a Inditex continua a apostar na sua rede de lojas para impulsionar o crescimento, tendo vindo a aumentar o espaço de vendas.

Zara

A gigante mundial, que detém marcas como a Zara, Pull&Bear, Bershka e Massimo Dutti, tem vindo a reduzir a rede de lojas no seu mercado doméstico, tendo fechado, desde 2012, 297 lojas em Espanha. Os encerramentos levaram a que investidores e analistas se preocupassem com uma possível diminuição do crescimento das vendas, numa empresa cujo modelo de negócio foi construído a partir de uma rápida expansão do número de lojas. No entanto, apesar dos encerramentos, o grupo aumentou o seu espaço de vendas em Espanha no mesmo período, abrindo lojas flagship em localizações privilegiadas, segundo uma fonte que pediu anonimato à Reuters.

O espaço de venda em território espanhol também cresceu no último ano financeiro, refere a mesma fonte. O número de trabalhadores não diminuiu com os encerramentos, já que os funcionários foram transferidos para outros estabelecimentos, segundo a empresa e agentes sindicais.

A estratégia de expansão da Inditex pode ser arriscada numa altura em que os consumidores procuram, cada vez mais, por descontos em compras online, além de as margens de lucro do sector estarem a diminuir e a Amazon se ter tornado a maior vendedora de vestuário nos EUA e no Reino Unido.

A retalhista espanhola está, deste modo, a resistir à tendência de encerramentos do sector, com os retalhistas a diminuírem o seu portefólio de lojas. A norte-americana Gap Inc revelou, recentemente, que irá encerrar 230 lojas da sua marca Gap, à semelhança de marcas como a Victoria’s Secret e a New Look, que diminuíram o número de lojas sem expandirem o espaço de vendas. Entretanto, a Abercrombie & Fitch, a Target e a Sephora apostaram em lojas de tamanho menor.

Zara (Bilbao)

O sucesso ou o falhanço do plano da Inditex poderá ajudar a determinar se a combinação das vendas online com uma forte rede de lojas físicas poderá, ou não, prevalecer na indústria, numa altura em que blazers custam menos de 30 euros e os vestidos de silhueta midi menos de 50 euros.

«Os hábitos de compra dos consumidores estão a mudar. Estão a comprar online, é verdade, mas ainda valorizaram as lojas flagship», garante Alistair Wittet, gestor do portefólio de ações da Comgest, um dos 20 maiores investidores da Inditex, segundo dados da Refinitiv. «É esse o pensamento por detrás da estratégia da Inditex – encerrar lojas secundárias e ampliar e melhorar as lojas flagship». Em Bilbao, por exemplo, a Inditex abriu uma loja da Zara de três andares, no ano passado, num edifício histórico no centro da cidade – com candeeiros, colunas em mármore e vitrais – e fechou simultaneamente três lojas mais pequenas na mesma cidade.

Margens mais reduzidas

A Inditex possui cerca de 7.500 lojas a nível mundial, das quais mais de um quarto é Zara. A gigante espanhola tem quase o dobro das lojas da Gap Inc e da Fast Retailing e, em relação à sueca H&M, são mais 2.500. A Espanha é o país onde a Inditex tem a maior rede de lojas, com mais de 1.600 estabelecimentos, e o mercado espanhol representa cerca de um sexto das vendas do grupo.

Note-se que a redução no número de lojas não é limitada ao mercado doméstico. No ano passado, pela primeira vez, a Inditex fechou mais lojas do que abriu na China – o seu segundo mercado com maior rede de lojas.

De modo geral, a Inditex ainda está a aumentar o seu número de lojas, mas o ritmo de crescimento está a diminuir. A empresa surpreendeu os investidores, em março, quando anunciou que encerrou mais lojas do que o esperado, no último ano financeiro. O grupo planeava abrir entre 300 a 400 lojas e fechar 200, mas acabou por inaugurar 370 espaços e encerrar 355. «Para nós, a qualidade do espaço é tão importante como o ritmo de crescimento», afirmou, na altura, o diretor da Capital Markets, Marcos Lopez. No mesmo mês, a Zara abriu uma loja de dois andares em Nova Iorque, em Hudson Yards, um novo bairro em Manhattan. À escala mundial, o espaço de vendas cresceu 4,7% no último ano financeiro. Este ano, a empresa espera um crescimento de 4%.

Zara (Hudson Yards)

As margens operacionais da Inditex diminuíram consecutivamente ao longo dos últimos seis anos, de 19,5% em 2013 para 16,7% no último ano, de acordo com dados da Refinitiv. Ainda assim, a margem operacional da Inditex é mais elevada do que a de muitos dos seus rivais.

O crescimento anual das vendas no ano passado foi o mais lento desde 2001. Contudo, a Inditex mais do que duplicou as vendas ao longo da última década e o crescimento de 7%, no ano passado, é positivo, quando comparado a rivais como a H&M, que registou um crescimento de 3%. «Um crescimento de 7% numa altura difícil para o retalho é, na verdade, muito atrativo», considera Ramiz Chelat, gestor de fundos da Vontobel Asset Management, que detém ações da Inditex.