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Menswear de dentro para fora

Considerando o bom momento da moda masculina que, de acordo com dados do Euromonitor, deverá alcançar os 457 mil milhões de dólares (aproximadamente 411 mil milhões de euros) em 2020, os portais da especialidade têm concentrado as atenções nos exemplos de sucesso do segmento, deixando as coordenadas para a próxima geração do menswear.

Em 2010, as conversações sobre menswear começavam a surgir online, em fóruns de moda masculina, com cada fórum dedicado a um diferente tipo de homem. Um número combinado de fatores contribuiu para este arranque: cada vez mais homens começaram a escrever em blogues, na mesma altura em que a plataforma digital Tumblr criou uma “tag” para o tema (#menswear), que acabaria por se alastrar a redes sociais como o Instagram, assinalando a chegada ao mainstream. Na mesma altura, grandes retalhistas de moda começaram a incluir menswear nas suas propostas – onde se destaca o contributo da americana J. Crew.

Recém-saído da universidade, com formação em literatura, Charlie Morris encontrou-se a trabalhar numa empresa do sector editorial. Além de supervisionar a produção daquilo que recorda como «bíblias extravagantes», as responsabilidades profissionais de Morris incluíam a supervisão de kits de presentes DIY (Do It Yourself – Faça Você Mesmo).

Hoje, Morris é o responsável e designer da Fanmail, marca de moda masculina com sede em Nova Iorque que é vendida na Opening Ceremony, Steven Alan e Mr. Porter, entre outros retalhistas, e já foi escolhida por nomes como o do cantor Drake em tour. O percurso de Morris incluiu também paragens em boutiques ou na assistência de stylists, antes de lançar a Fanmail, em 2013.

Moda sustentável

Outrora uma marca exclusivamente dedicada a t-shirts sustentáveis, a Fanmail foi expandindo o seu leque de produtos, cobrindo hoje todos os básicos do guarda-roupa masculino. Com uma cadeia de aprovisionamento ética, o algodão das peças é orgânico e todos os artigos são produzidos em Nova Iorque, com detalhes sobre o sourcing e fornecedores impressos nas etiquetas.

Felizmente para os seus clientes, Morris é a prova de que não há um único caminho a seguir para chegar à moda, mas há atalhos que ajudam a entrar na indústria com o pé direito.

A par de Morris, o portal de moda Fashionista entrevistou editores de moda masculina, stylists, escritores, designers e publicitários, pedindo-lhes que partilhassem alguns conselhos, considerando suas carreiras no segmento de menswear.

A importância da humildade

A humildade não é um conceito novo mas, na opinião de Matthew Henson, stylist e diretor de moda da plataforma AWGE, coletivo criativo iniciado pelo rapper A$AP Rocky, é uma garantia de sucesso dentro da moda masculina.

«Há muita humildade em aprender e em querer aprender a fazer algo corretamente», afirma. Henson, que trabalhou também como editor de moda na Flaunt e Complex, acredita que a generosidade do seu mentor, o stylist Memsor Kamarake, em dar-lhe as ferramentas de que ele precisava para começar por conta própria foi essencial. «Estou muito feliz por ter estagiado e ajudado durante muito tempo, porque me ensinou tudo o que sei», acrescenta.

Estágios profissionais são porta de entrada

A primeira fase da carreira de Matthew Henson foi no sector dos serviços. «Fiz de tudo um pouco, desde reservas, a trabalhos na receção, e até tentei a minha sorte como porteiro», revela. «Ensinou-me a importância de ter sempre a certeza de que o cliente está satisfeito, como lidar e gerir personalidades desagradáveis, ser habilidoso, e também a ser um mestre do sorriso». Mais vital ainda, este percurso profissional permitiu-lhe ter flexibilidade para fazer alguns estágios na moda – a porta de entrada para a indústria mais citada pelos especialistas entrevistados pelo portal.

Max Berlinger é jornalista freelancer e já escreveu sobre moda para Bloomberg Businessweek, The New York Times e The Cut. Antes chegar aos desfiles, Berlinger fez estágios na Refinery29 e GQ (onde eventualmente voltaria como editor online). O seu primeiro trabalho oficial foi como assistente editorial na Out Magazine. «Consegui esse emprego porque tinha estagiado lá no ano anterior», explica.

Garrett Munce é editor de moda na GQ e também não é um corpo estranho ao universo dos estágios. «Quando estava na universidade fiz muitos estágios», reconhece. Depois dos estudos, Munce entrou num estágio pago – uma raridade na época – na comunicação da Diesel, apesar de saber que uma carreira nas relações públicas não era o seu objetivo. «Adorava moda e foi a primeira oportunidade que me foi apresentada», admite. «Entendi que iria aprender muito sobre como a indústria funcionava». Munce acabou por sair da Diesel para trabalhar como assistente de moda na W Magazine.

Matt Kneller, agora diretor de comunicação para a América do Norte da gigante Nike, recorda que também passou por uma agência de relações públicas, emprego que na altura lhe garantiu um bilhete de regresso a Nova Iorque, depois de se ter mudado para casa, em Atlanta, quando terminou os estudos.

Acabou por ser uma escolha acertada, considerando que, eventualmente, esse trabalho o levou a um desfile da Converse, que é propriedade da Nike. «Só é preciso entrar com uma mente aberta e encontrar o seu lugar», aponta.

Redes sociais profissionalizadas

Dos especialistas entrevistados, a maioria aconselha uma dose redobrada de cuidado quando se utilizam as redes socias como ferramenta de trabalho, alertando para os perigos da sobre-exposição. «Quando se trabalha numa revista, uma das coisas mais importantes a reter é que a revista vem em primeiro lugar. Deve perguntar-se logo no primeiro dia quais são as regras das redes sociais e siga-las», aconselha Garrett Munce, editor de moda na GQ, garantindo que alguns erros podem valer o posto de trabalho.

Em última instância, a importância da humildade no local de trabalho está muitas vezes relacionada com a busca constante de novas aprendizagens – fulcrais para garantir a permanência no segmento. «Não basta ter uma voz ou ser criativo», reconhece Charlie Morris. «É preciso fazer-se algo realmente único», sublinha. Até porque, conclui Berlinger, «o universo masculino é muito mais pequeno do que o feminino», não há tantas oportunidades disponíveis.