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Mercado de roupa usada sofre com pandemia

As vendas de vestuário em segunda-mão para mercados emergentes estão a ser gravemente afetadas pela pandemia e a levar a uma grande acumulação de stocks nas empresas do sector. Uma situação que afeta toda a cadeia, desde os exportadores ocidentais aos consumidores de países em desenvolvimento.

Green World Recycling [©Reuters/Phil Noble]

A indústria de vestuário em segunda-mão, além de gerar milhares de milhões de euros, contribui para dar uma nova vida à roupa usada e evitar que toneladas de têxteis acabem em aterros. A pandemia de Covid-19, contudo, levou a uma queda do comércio e a uma acumulação de stocks.

De Londres a Los Angeles, muitas lojas de artigos em segunda-mão e depósitos de vestuário foram inundados com mais roupa do que aquela que podia ser vendida, levando a uma enorme acumulação de vestuário em armazéns de separação.

Desde que a pandemia começou, os especialistas em reciclagem e exportação de têxteis e vestuário tiveram de cortar nos preços para movimentar o stock, uma vez que as medidas de confinamento restringiram o movimento e os negócios diminuíram nos mercados externos. Para muitos, a reciclagem e venda de roupa em segunda-mão deixou de ser comercialmente viável.

«Estamos a chegar a um ponto em que os nossos depósitos estão completamente cheios», revelou António de Carvalho, dono da Green World Recycling, uma empresa de reciclagem de têxteis em Stourbridge, Inglaterra, numa carta enviada em junho a um cliente e citada pela Reuters.

A empresa paga às câmaras municipais para ter contentores espalhados pelas ruas onde os consumidores podem deixar as roupas que não usam. Depois recolhe-as e vende-as para outros países.

Desde maio, afirma António de Carvalho, que o preço de venda caiu de 570 libras (cerca de 629 euros) para 400 libras por tonelada, tornando mais difícil para a empresa cobrir os custos de recolha e armazenamento.

Os compradores também começaram a pedir um aumento do período de crédito – em vez de pagarem em 15 dias, estão a solicitar uma extensão do prazo para 45 a 60 dias, o que agrava os problemas de liquidez. «Estamos a perder uma grande quantidade de dinheiro, causando um grande prejuízo a toda a operação», escreveu António de Carvalho.

Dificuldades transversais

A experiência da Green World Recycling é semelhante à de outras empresas no sector, sugerindo que, mesmo depois da pandemia passar, pode levar muito tempo a recuperar este tipo de comércio. Vários players estão a retirar os contentores das ruas, a reduzir o número de vezes que os esvaziam por semana e a ponderar dispensar trabalhadores, para se manterem viáveis, de acordo com as entrevistas da Reuters a 16 empresas que atuam neste sector na Grã-Bretanha, EUA, Alemanha e Holanda.

António de Carvalho [©Reuters/Phil Noble]
Ao mesmo tempo, e ironicamente, os donativos dos consumidores aumentaram, já que as pessoas aproveitaram o tempo que estiveram em casa confinadas para limpar o guarda-roupa.

«É muito diferente de qualquer outra recessão no último século», sublinha Jackie King, diretora-executiva da Secondary Materials and Recycled Textiles Association (SMART) dos EUA. «Antecipo que haja empresas que irão à falência», afirma.

A retirada de especialistas em reciclagem está a ter consequências graves para uma indústria que, de acordo com os dados de comércio das Nações Unidas, registou exportações anuais superiores a 4 mil milhões de dólares (3,4 mil milhões de euros) nos últimos cinco anos.

Menos exportações

Na Grã-Bretanha, o peso das exportações de vestuário usado entre março e julho caiu para cerca de metade em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo os dados oficiais do comércio. As exportações melhoraram em julho, o último mês com registos, com os vendedores a apressarem-se a mover os stocks à medida que os países começaram a reabrir, mas ainda assim registaram uma queda de cerca de 30%.

Nos EUA, o valor das exportações de março a julho baixou 45% em relação a igual período do ano passado, de acordo com os dados do governo. Até um terço das roupas doadas nos EUA – o maior exportador mundial de vestuário em segunda-mão – acabam à venda em mercados de países em desenvolvimento.

As consequências desta queda estão a ser sentidas em países como o Quénia, que importou 176 mil toneladas de roupa usada em 2018, o equivalente a mais de 335 milhões de jeans. O próprio país está a sentir um decréscimo na procura.

«Antes do coronavírus chegar, eu conseguia vender pelo menos 50 pares de calças por dia», revela Nicholas Mutisya, que vende calças de ganga e chapéus no mercado ao ar livre de Gikomba, em Nairobi, um dos maiores mercados de roupa em segunda-mão da África Oriental. «Agora até mesmo vender um par por dia se tornou difícil», garante.

Mercado de Gikomba, Nairobi [©Reuters/Thomas Mukoya]
O próprio governo queniano proibiu a importação de têxteis usados em março, uma medida que ​​foi suspensa em agosto, graças à pressão dos comerciantes locais e das associações europeias e americanas, que explicaram que o vestuário em segunda-mão é seguro porque o vírus não sobrevive à viagem até África.

O lado negro da moda

As transações em larga escala de vestuário usado da Europa e dos EUA para os mercados emergentes de África e da Europa Oriental começaram a descolar na década de 90, devido à procura de moda ocidental por parte desses mercados. Essa procura deu um escape para um mercado de moda em crescimento, onde a produção de vestuário quase que duplicou nos últimos 15 anos, de acordo com a Ellen MacArthur Foundation.

Segundo o programa ambiental das Nações Unidas, a indústria da moda é o segundo maior consumidor de água e responsável por até 10% das emissões globais de carbono – mais do que todos os voos internacionais e transporte marítimo juntos.

O vestuário é ainda uma parte considerável do lixo que todos os anos acaba em aterros sanitários. Na Grã-Bretanha, os consumidores compram mais roupa per capita do que em qualquer outro país da Europa, chegando a cerca de cinco vezes mais do que o que compravam na década de 1980, de acordo com um relatório parlamentar do Reino Unido realizado no ano passado. Cerca de 300 mil toneladas de vestuário são enviadas para aterros ou incineração todos os anos, acrescenta o mesmo relatório.

Muitos retalhistas, incluindo a Inditex e a H&M, estão a incentivar os consumidores a levarem a roupa que já não usam às suas lojas para que sejam recolhidas e, no caso da H&M, oferecem descontos em novas compras.

Mas apenas uma pequena percentagem da roupa recolhida pela Inditex acaba à venda nos mercados internacionais, de acordo com um porta-voz do grupo espanhol. Quanto à H&M, as peças recolhidas são processadas pela I:CO, uma unidade da empresa alemã de reciclagem de têxteis Soex.

«O problema está apenas a tornar-se maior», considera Anna Smith, que está a fazer o seu doutoramento no King’s College London, na área do sistema de economia circular, que pretende eliminar o desperdício. «As pessoas estão a consumir cada vez mais», assegura.