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México pronto para guerra comercial

O México pode vir a impor impostos sobre as importações de têxteis e vestuário dos EUA se o presidente norte-americano, Donald Trump, avançar com as ameaças de um aumento de 20% nos impostos sobre as importações mexicanas.

«Seria uma boa ideia se o governo fizesse alguma coisa para compensar isso [os impostos sugeridos pela administração Trump]», considera Sixto Mercado, vice-presidente da associação da indústria de vestuário Canaive no estado de Jalisco, em declarações ao just-style.com. «Temos muitos exportadores de vestuário aqui que seriam afetados», acrescenta (ver Trump defende protecionismo).

O comentário de Mercado surge depois de Donald Trump ter reiterado, a 2 de fevereiro, as suas preocupações com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que envolve também o Canadá, afirmando que gostaria de acelerar as negociações para renegociar ou substituir o acordo. No dia anterior, o presidente mexicano Enrique Peña Nieto iniciou as negociações comerciais para reformular o NAFTA em maio, depois de um período de consulta de 90 dias com empresas mexicanas.

O ministro da economia, Ildefonso Guajardo, afirmou em meados de janeiro que se Trump impusesse um aumento dos impostos sobre as importações, o México iria tomar medidas semelhantes.

Os EUA expedem cerca de 6,5 mil milhões de dólares (aproximadamente 6,02 mil milhões de euros) em vestuário e têxteis para o México – 4 mil milhões de dólares em tecido e 1,2 mil milhões de dólares em peças de vestuário, de acordo com a Canaive. Por outro lado, o México expede 4,5 mil milhões em vestuário e têxtil – cerca de 3,5 mil milhões em vestuário e mil milhões de dólares em têxteis.

A guerra comercial latente tem vindo a corroer as relações diplomáticas e desencadeou um alvoroço nacionalista no México, com grupos populistas a incitarem os consumidores a boicotar empresas americanas, incluindo o Walmart, Starbucks e McDonalds. Um porta-voz do Walmart informou que a empresa está «a monitorizar a situação», sem mais comentários.

Se o imposto de 20% proposto for cobrado (entre outras opções), «poderemos crescer abaixo de zero», nota Mercado, acrescentando que as exportações poderiam cair 10%.

Em 2016, a indústria têxtil e vestuário do México cresceu 5%, uma vez que as fortes vendas de vestuário locais compensaram uma queda de 4,3% nas expedições para os EUA.

Mas com o México perante uma possível recessão, Mercado acredita que as vendas locais possam crescer apenas 7% este ano, em comparação com os 10% de 2016. No entanto, face ao forte sentimento antiamericano, o volume de negócios doméstico poderia eclipsar o das marcas norte-americanas pela primeira vez nos últimos anos.

«Nunca tivemos um nacionalismo tão forte no México, todos estão a ser incentivados a comprar produtos mexicanos, o que afetará as vendas das marcas americanas», espera o vice-presidente da Canaive em Jalisco.

Apostar na diversificação

Face a esta situação, as ameaças de Trump estão a fazer da diversificação das exportações uma prioridade para o México, que expede 95% do seu vestuário para o maior mercado do mundo.

Para isso, os fabricantes estão a trabalhar novos mercados na América Central e na Europa, com os quais o México tem acordos de livre comércio. «Costa Rica, Panamá e América Central podem ser bons mercados para competir em preço e qualidade, excluindo a Argentina e o Brasil, porque têm indústrias e marcas muito fortes», considera Sixto Mercado. As empresas mexicanas de denim Oggi e a Siete Leguas podem fazer uma incursão bem-sucedida na Europa, porque têm produtos de alta qualidade, tecidos inovadores e novas tecnologias de lavagem, de acordo com Mercado. «Essas empresas vendem jeans premium para a Levi’s, Wrangler e True Religion, por isso também podem começar a vender na Europa», antevê.

Esta investida, no entanto, irá requerer inovação, formação e outros investimentos que a indústria mexicana tem tardado em implementar. «Precisamos de fazer mais moda e design e diversificar as nossas exportações porque somos muito dependentes dos EUA», concorda Alfonso Zepeda, o homem forte da Expo Denim, feira de denim que será inaugurada em Guadalajara no final de maio, acrescentando que a Europa deverá ser uma prioridade. «Há nichos que poderíamos explorar, aqui em Jalisco fazemos casacos, malhas de algodão, jeans e fatos, podemos vendê-los para lojas mais pequenas», acrescenta Zepeda.

Manuel de la O, diretor de vendas da fabricante de máquinas de costura Casa Diaz, sublinha que os consumidores americanos irão pagar pelos impostos da Administração Trump e que as marcas terão dificuldades em substituir os fornecedores mexicanos, pelo menos de imediato. «Eles podem enviar as suas encomendas para o Vietname ou para a China e economizar os 20%, mas os custos de transporte subiriam 5% e o investimento e os custos associados à mudança geográfica poderiam subir essa percentagem para os 13%», destaca.