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Michael Porter, ITV e Plataforma Têxtil em questão

«As empresas portuguesas concorrem basicamente como fornecedores de produtos básicos perante rivais cada vez mais competitivos no preço. Actualmente, falta ao cluster a sofisticação da tecnologia e da gestão para evoluir para uma situação mais sustentável de fornecedor diferenciado, com um maior conteúdo em termos de moda ou pela via do marketing de marcas e de revenda.» Em 1994, Michael Porter resumia, assim, a situação da ITV nacional. Após oito anos, o documento “Construir as Vantagens Competitivas de Portugal” continua a ser um dos paradigmas da política de promoção da competitividade nacional. Paralelamente, e em parte devido à envolvente comunitária, o abandono da visão vertical da política industrial, privilegiando a lógica horizontal, transversal, é um dos principais factores subjacentes à política industrial e tecnológica desenvolvida em Portugal, ao longo dos últimos anos. Em 1994, Porter apontava a indústria têxtil e do vestuário como um dos clusters para os quais se deveria desenvolver um plano de acção. Dentro da ITV, Porter destacava, claramente, a importância do sector das malhas. O diagnóstico de Porter destacava três questões essenciais do cluster da ITV nacional:

  • Produtividade: Dado o reduzido custo de mão de obra, as empresas não eram estimuladas a investir no aumento da produtividade. Tendo em conta os investimentos substanciais efectuados em equipamento, através do PEDIP, Porter considerava que as diferenças de produtividade face aos concorrentes residiam mais nas ineficiências operacionais (layout da fábrica, gestão, etc.) do que na questão da antiguidade dos equipamentos;
  • Diferenciação insuficiente: Segundo o relatório, a incapacidade na diferenciação dos produtos era coerente com as estratégias implícitas de baixos custos das empresas portuguesas. Destacava-se também o facto de haver insuficiências nas actividades de alto valor acrescentado (tinturaria e acabamentos);
  • Falta de Resposta do Mercado: O contacto com o utilizador final era extremamente limitado pelo facto da maioria das empresas vender por intermédio de agentes e distribuidores. As capacidades de design eram limitadas por razões análogas, com a maioria das empresas a produzir designs do próprio cliente.
  • Segundo Porter os pontos críticos para o desenvolvimento do sector eram:

  • Melhorar a produtividade e flexibilidade da produção através de acções de consultoria;
  • Promover e ensinar as técnicas de “Resposta Rápida”;
  • Ensinar e criar serviços de informação sobre Design;
  • Incentivar a cooperação entre empresas, para avançarem com práticas de revenda, através da partilha de know-how e dos riscos;
  • Unir ou criar uma associação unificada dos têxteis para organizar com eficiência iniciativas com base no cluster.
  • Paralelamente, Porter advogava a intervenção urgente em mais duas áreas: a capacidade de gestão e a ciência e tecnologia. A análise de Porter vinha de encontro ao postulado das novas políticas de promoção da competitividade industrial, nomeadamente ao advogar uma coordenação estreita entre política de ciência e tecnologia, educação, emprego e formação profissional. É neste campo que surge a aposta, defendida ainda durante o PEDIP I, de um forte investimento nos «factores dinâmicos de competitividade», em detrimento do apoio ao desenvolvimento da capacidade produtiva. Tendo em conta o enquadramento europeu da política industrial, que apenas apoia as políticas de base horizontal ou regional, surge, em 1995, uma oportunidade única para que a lógica apresentada por Porter e aceite pelo Governo da altura fosse aplicada de uma forma clara na indústria têxtil e do vestuário. É, neste último ano, que a Comissão Europeia aprova o cofinanciamento de um programa específico para a ITV nacional, de forma a modernizar esta indústria, diminuindo a sua vulnerabilidade face à nova concorrência, saída dos acordos do GATT. Este programa, o IMIT, representava uma tripla excepção: era um programa para um único país, para uma única actividade, e que se situava não no quadro das políticas regionais, mas sim da política industrial, assumindo um claro papel de valorização da especialização internacional. O orçamento global do IMIT ascendia a 108,2 milhões de contos, dos quais a União Europeia garantia 81,2 milhões de contos, com a contrapartida nacional a assumir os restantes encargos. Ao longo do período de vigência do IMIT (1995-1999), foram apoiados 1.155 projectos, envolvendo um investimento de 265 milhões de contos e incentivos de 114,8 milhões de contos. Paralelamente, estava aberta para as empresas da ITV a possibilidade recorrer a programas alternativos de promoção da competitividade, como o PEDIP, RETEX e SIR. As empresas têxteis e de vestuário que utilizaram os diferentes sistemas de incentivos (IMIT, RETEX, SINDEPEDIP e SIR), totalizaram 747, tendo apresentado 1765 projectos, aos quais está associado um investimento global de mais de 328 milhões de contos e um incentivo de cerca de 110 milhões de contos (considerando, no caso do IMIT os valores até 31-12-1998). A avaliação da contribuição do IMIT para a promoção e sustentação da competitividade da indústria têxtil e de vestuário nacional permite concluir que este se configurou como um programa indutor ou receptor de estratégias de investimento inseridas, no essencial, em modelos de desenvolvimento “puxados” pela tecnologia e pela renovação de equipamentos, mas onde se regista como factor mais positivo, a dimensão assumida por estratégias mais centradas no produto, na sua diferenciação e na racionalização das suas condições de produção. No âmbito da medida A.2. do programa (Planos de Modernização Empresarial), 62% do investimento foi dirigido para equipamentos, enquanto que, ao nível das áreas funcionais, 49% foi dirigido para a produção. Na medida A.3. (Promoção de Factores Dinâmicos de Competitividade), 47% do investimento foi efectuado em equipamentos. Relativamente aos projectos de cariz voluntarista, o IMIT apoiou 23 intervenções, que absorveram 7,4 milhões de contos. Dos projectos voluntaristas, que resultam duma parceria entre entidades públicas e associativas, a maioria do orçamento foi utilizado em 5 grandes projectos, que totalizaram um investimento de 5,2 milhões de contos: “Afirmar no Mundo uma Grande Região Têxtil” – ICEP/DGI, com 2 milhões de contos, “Portugal Fashion Internacional” – APT/DGI, com 895 mil contos, “Programa Infante” – AEP, com 859 mil contos, “SIPROFIT” – IDITE-Minho/DGI, com 750 mil contos e “Minho – Pólo de Excelência Têxtil” – AIMinho/DGI, com 586 mil contos. Globalmente, no período entre 1988 e 1999, as políticas de promoção de competitividade apoiaram investimentos no valor de 610 milhões de contos na indústria têxtil e do vestuário, através de incentivos que ultrapassaram os 192 milhões de contos.