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Microfábrica com a Kornit produz para o consumidor

A Fashion-Enter estabeleceu uma parceria com a Kornit Digital que lhe permite, em apenas 25 minutos, criar uma peça de vestuário do design ao envio para o consumidor final, num processo que ambas as empresas consideram ser uma espécie de microfábrica e que querem partilhar com a indústria da moda.

[©Kornit Digital]

A empresa de produção de vestuário, que tem também uma missão social de transmitir know-how na produção de moda, e a Kornit Digital abriram, assim, o que descrevem como a microfábrica completa mais eficiente e sustentável do mundo. As tecnologias de estamparia digital direta no tecido e em peça da Kornit Digital, que estão agora na sede da Fashion-Enter no norte de Londres, no Reino Unido, podem, em menos de 25 minutos, permitir fazer um vestido completo a partir do design no computador.

Numa apresentação e visita à microfábrica, seguida pelo Just Style, o CEO da Kornit Digital, Ronen Samuel, destacou os problemas de sustentabilidade da indústria da moda e revelou que o objetivo do processo da especialista em soluções de estamparia digital – que em Portugal é representada em exclusivo pela Tajiservi – é tornar a cadeia de aprovisionamento de vestuário mais curta e eficiente, assim como mais sustentável, eliminando a necessidade de produtos químicos nocivos e usando uma quantidade mínima de água. As estatísticas da Kornit Digital apontam para que os seus sistemas usem menos 95% de água, menos 94% de energia e quase menos 83% de emissões de gases com efeito de estufa.

Ronen Samuel também referiu que o sourcing de moda atual não é adequado às necessidades de hoje, com o custo do envio a partir de países como a China e o Bangladesh a ser 10 vezes mais caro do que antes. Como tal, indicou, as marcas querem aproximar a produção do consumidor final para reagir mais rapidamente às últimas tendências no TikTok e no Instagram.

Jenny Holloway, CEO da Fashion-Enter, afirmou na sua apresentação que «a moda tradicional está morta», citando, como exemplo, os casos em que as mercadorias ficam

Jenny Holloway [©Fashion-Enter]
presas em navios e exigem o recurso a descontos e promoções para que os stocks sejam escoados. «É simplesmente insustentável», garantiu.

Em entrevista exclusiva ao Just Style, Jenny Holloway explicou que «a forma tradicional de comprar com um ano de antecedência acabou», devido, nomeadamente, às dificuldades com os transportes, tanto em tempo como em dinheiro, e, mais recentemente, à guerra na Ucrânia. Além disso, sublinhou, a era digital já chegou e a tendência é para que abarque cada vez mais áreas. «Este é realmente o único caminho a seguir atualmente na moda, pois dará aos compradores e consumidores o que eles precisam hoje», assegurou a CEO da Fashion-Enter, acrescentando que a indústria tem de assumir a importância de fabricar vestuário «por encomenda».

Partilhar conhecimento

A parceria entre as empresas surgiu de uma conversa que Jenny Holloway teve com o responsável de transformação de retalho da Kornit Digital, Scott Walton, após um podcast que fizeram juntos.

Walton estava a falar das suas crenças e do espírito da empresa, que correspondiam à visão da Fashion-Enter de tornar a moda um lugar mais ético e sustentável, contou Jenny Holloway. Inicialmente a colaboração era com a retalhista online Asos, mas agora está aberta a todas as marcas de vestuário.

Na verdade, realçou a CEO da Fashion-Enter, a ideia é partilhar o conhecimento com outras empresas e incentivar os designers, assim como as grandes marcas e retalhistas, a experimentarem a tecnologia na microfábrica para tornar a moda mais sustentável e eficiente.

«Incentivamos os responsáveis e os assistentes de compras a virem cá e a passar um dia aqui para trabalharem nas suas coleções, tendências e designs. Depois de oito horas connosco, terão 15 peças disponíveis para começar a coleção», convidou Jenny Holloway.

[©Kornit Digital]
O designer Joshua Scacheri já está a usar a tecnologia na microfábrica para produzir vestuário para a sua marca Love Hero, o que, avançou ao Just Style, já levou a que reformulasse a sua forma de pensar no que diz respeito a desenhar e criar coleções.

«A tecnologia está a mudar a forma como eu desenho, já que estou a desenhar e a colaborar com a tecnologia, o que elimina erros e desperdícios», admitiu. A tecnologia está igualmente a permitir que o designer crie vestuário mais circular, como seja estampar em cima de desenhos anteriores para criar novos trabalhos ou criar um estampado que combine com peças que já fazem parte da coleção.

Disseminar as microfábricas

Jenny Holloway orgulha-se da Fashion-Enter ter atualmente o único serviço sustentável “por encomenda” do Reino Unido, onde qualquer pessoa pode vir com os seus próprios designs, que podem ser manipulados, os padrões podem ser criados imediatamente e a equipa da Fashion-Enter pode fazer as peças de imediato e à sua frente. A CEO acredita que o que é bom no software Kornit Digital é que os designers podem fazer designs virtuais, pressionar um botão, estampar o tecido e fazer a amostra imediatamente. Isso significa eliminar a espera pelos tecidos vindos da estamparia e uma redução do tempo, e do desperdício, no processo de amostragem.

«Tivemos vários contratempos, a começar pelo compressor ter o tamanho errado, e não conseguirmos colocar o equipamento físico no edifício, que nos levou a ter de obter autorização para construir uma porta maior, mas simplesmente não se pode desistir com os obstáculos. É preciso ter perseverança e resiliência», reconheceu.

Ao Just Style, Jenny Holloway asseverou que sabia que tornar o processo numa realidade não seria fácil para a Fashion-Enter, mas que se não o fizesse, a empresa poderia ser severamente afetada por não promover mudanças internamente e dar um novo ponto de referência inovador aos compradores.

«Qual foi a nossa proposta de venda exclusiva como fábrica, porque todos podem oferecer design e todos podem ver as gamas de tecido? Era importante para mim, como CEO, proteger a nossa força de trabalho e trazer algo novo, mas ainda dentro do nosso conceito de produção ética», esclareceu.

[©Kornit Digital]
Holloway gostaria de ver a microfábrica replicada noutras áreas do Reino Unido que já possuem várias fábricas de vestuário, como Leicester e o País de Gales, e acredita que a sua empresa também pode ajudar a encontrar um parceiro na Escócia.

«Acho que quando as pessoas entenderem e valorizarem os benefícios deste processo, vão surgir [microfábricas] como cogumelos – vai tornar-se na nova norma da indústria», concluiua CEO da Fashion-Enter.