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Missão Empresarial à China – Parte 1

Admirável mundo novo

Sete empresas portuguesas do sector do vestuário (Irsil, Sonicarla, Ernestino Miranda, Summavielle e Amorim, Marfel, Olmac e Chapuis & Alves) realizaram uma missão empresarial de 10 dias à China, entre 19 e 28 de Outubro. Organizada pela Anivec/Apiv, com o objectivo central de desenvolver e consolidar estratégias de internacionalização das marcas nacionais direccionando-as para novos mercados e novas oportunidades. A missão contou com o apoio do Icep Portugal, e foi «desenhada» com a colaboração da empresa de consultoria em negócios internacionais Market Access- Consultores em Negócio Internacional, Lda. O Jornal Têxtil foi convidado e também integrou a missão. A Anivec/Apiv e a Market Access prestaram ao longo da viagem um acompanhamento personalizado e um apoio técnico, de acordo com as intenções de participação e expectativas das empresas relativamente ao mercado chinês.

Sendo vastos os objectivos da missão, também vasto foi o programa com visitas a vários department stores, centros comerciais e mercados, encontros bilaterais com players locais, encontros com jornalistas, encontros com doze associações do sector, visita a sete empresas de confecção, além da visita a feiras e da participação em workshops e simpósios. O percurso da viagem foi definido em função das cidades consideradas pelos organizadores da missão como prioritárias para a ITV nacional, e estamos a falar de Pequim, Ningbo, Xangai, Shenzhen e Guaghzou.

Os resultados da missão serão apresentados num seminário a realizar pela ANIVEC/APIV, na segunda semana de Dezembro, para dar a conhecer, sensibilizar e estimular o incremento das relações comerciais com a China. Mas entretanto, o Jornal Têxtil apresenta uma descrição da viagem, que não será por certo exaustiva, tal a dimensão e qualidade da informação recebida ao longo dos dez dias da missão.

Logo à chegada a Pequim, primeira etapa da Missão, foi com entusiasmo e surpresa que pudemos dar conta da transformação vertiginosamente rápida deste país, fechado e isolado durante muitos anos. Na China transpira-se um desígnio nacional: preparar-se para ser uma super potência económica mundial.

Por outro lado, sentimos de imediato a desmistificação de muitas ideias que tínhamos a respeito do país e do povo, uma vez que está patente por todo o lado a convivência do antigo e do moderno, em que a história do passado se integra com um aparentemente imparável progresso do futuro.

É preciso agora referir alguns números. A missão teve como destino o terceiro maior país do mundo, com cerca de 9.6 milhões de km2, onde habita um quinto da população mundial, 1,3 mil milhões de habitantes, apesar de dois terços do seu território serem constituídos por montanhas e deserto. Assim, cerca de 90% dos chineses vivem na superlotada região oriental, onde estão situadas as grandes cidades. Por sua vez, a zona ocidental, mais acidentada, montanhosa e repleta de áreas desertas, é povoada por minorias étnicas que falam uma variedade infindável de dialectos e quase completamente desconhecida do Ocidente, apesar do Mandarim ser a língua oficial, e do Cantonês ser a língua principal em Hong Kong e na região circundante.

É preciso também recuar alguns anos, não muitos, para se perceber a situação actual do país. Em Março de 2003, Hu Jintao, de 59 anos, sucedeu a Jiang Zemin, de 76, na chefia do Estado. Foi uma importante transição de poder, não se tratando, apenas, da troca de testemunho entre a «terceira» e a «quarta» geração, 20 anos mais nova, de líderes do Partido Comunista Chinês (PCC), mas da entrada dos primeiros gestores e homens de negócio para as fileiras do mesmo, a subida ao poder de uma direcção preparada para conduzir os destinos de uma nova China. No entanto, os novos dirigentes não deixam de aplicar a célebre máxima de Deng Xiao Ping, «um país, dois sistemas», definição que possibilitou o florescimento de uma economia de mercado à sombra duma tutela que domina todas as estruturas políticas e administrativas, mas que soube empreender as reformas necessárias para dar impulso à iniciativa privada, isto é, «uma economia socialista de mercado». E quem visita a China pela primeira vez, como a grande maioria dos participantes da Missão, facilmente percebe que o crescimento económico, motor e finalidade desta mudança, não abala a estrutura governamental, que parece ter um pacto com cada cidadão: «enriquece e cala-te».

Durante a Missão, pudemos testemunhar como este processo de mudança acolhe muitas contradições, situações à partida impossíveis de ligar: isolamento-abertura, comunismo-capitalismo, antiguidade-modernidade, campo-cidade e manufactura-tecnologia. Também pudemos constatar como as contradições também estão presentes nos mais variados aspectos da vida chinesa, como por exemplo, o aparecimento de movimentos cívicos dedicados à protecção dos animais, num país onde se come de tudo o que tem quatro patas, a continuação da doutrinação do povo e da existência de trabalhadores-modelo, quando o livro de Mao é já um fetiche turístico, a admissão da China na Organização Mundial do Comércio com cerca de metade da população em pobreza extrema.

Além de tudo isto, dois grandes acontecimentos estão a contribuir para mudar a China na presente década: a já mais que dissecada entrada para a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a escolha do país para organizar os Jogos Olímpicos de 2008.

No entanto, à medida que a economia cresce, crescem os arranha-céus no centro das grandes cidades chinesas, e crescem os milhões de camponeses que chegam à periferia das mesmas, procurando trabalho e subsistência. Este poderá ser o grave problema para o regime, ou seja, o aumento da diferença, já enorme, as cidades ricas do litoral e o interior do país. Mas o governo de Pequim não se deixa surpreender, e várias medidas, nomeadamente, o estabelecimento de grandes benefícios para as empresas que se instalem no interior, já estão ser postas em prática.

 

A nova Pequim

Situada no norte do país, no coração de uma fértil planície, a 90 Km da Grande Muralha da China, Pequim, cujo nome significa Capital do Norte, é a capital da República Popular da China. Durante séculos, foi a maior cidade do mundo. Hoje é a segunda maior cidade da China, com 16.800 Km2 e com cerca de 12,6 milhões de habitantes, só superada por Xangai, e vive, há séculos, em plena mutação.

De forma quase obrigatória, após a nossa chegada a Pequim, dia 19, visitámos a Praça de Tiananmen, a maior praça do mundo, onde a 1 de Outubro de 1949, Mao Tse Tung proclamou a fundação da Republica Popular da China e em 1989 foi palco famoso dos protestos pró-democráticos, que resultaram num confronto sangrento com os soldados do Exército de Libertação do Povo Chinês. Embora a China olhe agora para o futuro, em redor de toda a praça há memórias do passado da nação. A Sul, fica o Mausoléu de Mao, onde o antigo presidente do Partido Comunista Chinês (PCC) repousa embalsamado em câmara ardente. A Norte, está a Cidade Proibida, com a Porta da Paz Celestial, onde um seu retrato gigante de Mão permanece pendurado na porta. No lado Sul da praça encontra-se o mausoléu de Mao e a Norte a entrada para a Cidade Proibida. A Cidade Proibida ou Palácio Imperial, que foi construída entre 1406 e 1420 e serviu de palácio a 24 imperadores das dinastias Ming e Qing, apresenta uma escala impressionante e é uma das principais atracções do país.

Apesar de ser a nossa primeira visita à capital chinesa, percebemos que a capital é, hoje, uma cidade irreconhecível. Pela positiva, apesar da evolução ser quase uma explosão e começar a mostra aspectos um pouco «selvagens». À imagem da China moderna, a capital que parece reconstruir-se a cada dia, tendo dado passos de gigante nos últimos anos, nomeadamente, nos sectores da construção civil e das obras públicas, dos transportes, das comunicações e dos serviços aos turistas, começaram a juntar-se novos clientes provenientes de uma classe média emergente na China. A utilização de telemóveis regista taxas de crescimento anuais de 73% e cerca de 60% dos lares têm acesso a televisão por cabo. O número de carros existentes está também a aumentar duma forma muito rápida, mas como a cidade, apesar de muito extensa, também é completamente plana, as bicicletas continuam a ser o principal meio de transporte para percorrer curtas distâncias. Algumas estimativas sugerem que uma em cada duas pessoas tenha bicicleta, e por isso o trânsito não é recomendável para pessoas com problemas nervosos…

Em preparação para os Jogos Olímpicos de 2008, a cidade está a sofrer um dos maiores reordenamentos urbanos da história mundial. Pequim está empenhada em reabilitar as suas infra-estruturas relativas ao meio ambiente e ao controlo da poluição. Até 2007, a capital da China prevê investir mais de 13 mil milhões de euros na promoção de um desenvolvimento sustentado e em protecção ambiental, dos quais um terço em combustíveis limpos, controlo de emissões de gases, tratamento de águas e detritos sólidos. Os objectivos são ambiciosos: além de uma redução de 60% nas emissões poluentes (200 empresas industriais serão deslocadas para a periferia), 90% dos autocarros (perto de 20 mil veículos) e 70% dos táxis (cerca de 67 mil) deverão mover-se a gás natural até 2007. Prevê-se a construção de mais cinco linhas de metro, com uma extensão de 28 quilómetros e um total de 24 estações, percorrendo dez das áreas mais movimentadas dos subúrbios da capital. Por último, foi delineado um vasto plano de arborização para cobrir 70% das áreas montanhosas circundantes de Pequim, no sentido de criar um «cinto verde» de 23 mil hectares.

Os chineses parecem apaixonados pela tecnologia e pela arquitectura, e entre os projectos mais inovadores está o National Grand Theater, a nova ópera de Pequim, cuja inauguração está prevista para este ano, e tem muito pouco de tradicional: é uma bolha de titânio e vidro com 600 metros de perímetro, situada a pouca distância da Cidade Proibida.

O segundo dia da Missão começou com um workshop com participação da China Chamber of Commerce for Import & Export of Textiles (CCCT), que representa mais de 6.000 empresas espalhadas pelas 31 províncias do país, representando 70% das empresas que se dedicam à importação e exportação de artigos têxteis e de vestuário. Em representação da CCCT, esteve presente a directora da instituição, Ma Ying. A sessão, muito interessante e focalizada, centrou-se em esclarecimentos sobre tendências do mercado, formas de abordagem do mercado, potencial das marcas portuguesas, e desenvolvimento de relações comerciais com empresas chinesas, quer para importação, quer para exportação. Ma Ying realçou que «no âmbito das negociações com a OMC, e das negociações com a UE, a CCCT assumiu muitas vezes o papel de intermediário, alargando o seu poder de influência. Nesta fase, estamos a apostar em estabelecer parcerias com organizações similares em vários países estrangeiros». Também abordou o papel da instituição que representa na promoção do comércio e negócio, ao fornecer todo o tipo de informações, além de promover missões, organizar feiras e de ajudar as empresas estrangeiras a estabelecerem-se na China e a perceberem o mercado chinês. Demonstrando grande preocupação relativamente à situação actual, declarou que «esperávamos a total eliminação das quotas. Mas como tal não aconteceu, enfrentamos alguns problemas. Por um lado o investimento tem vindo a baixar. Por outro, neste sector a margem é muito pequena e com o bloqueio imposto pela UE e pelos EUA, muitos produtos foram impedidos de entrar e muitas fábricas fecharam, ao verem as suas expectativas frustradas». Ma Ying também realçou que decorre actualmente uma profunda reestruturação das empresas, em termos de gestão, tecnologia e recursos humanos. «Agora, o nosso grande objectivo é os produtos têxteis e de vestuário chineses começarem a competir pela qualidade e pelo design, e não só pelo preço, como até agora. Também se verifica que o governo está a implementar medidas de encorajamento ao estabelecimento no país de empresas estrangeiras. No entanto, estas devem começar por estabelecer, pelo menos numa primeira fase, parcerias locais», terminou.

De seguida dirigimo-nos para a sede da China Garments Industry Association (CNGA), para uma reunião agendada com Jiang Heng Jie, vice-presidente da associação. Esta associação possui total autonomia, uma vez que as medidas relativamente ao sector são adoptadas pela CNGA e não pelo Governo. É uma organização estatal, sem fins lucrativos, criada em 1991, através da iniciativa de vários ministérios governamentais, assumindo a presidência o então ministro da Industria Têxtil. Todas as empresas e entidades chinesas do sector do vestuário ou com ligação relevante à mesma foram convidadas a juntarem-se a essa associação. A CNGA organiza, entre outros eventos, a feira Chic, Feira Internacional de Moda e Acessórios, que se realiza duas vezes por ano em Pequim, um dos eventos de moda mais emblemáticos do sector do vestuário e da moda na China. As próxima edições estão marcadas de 28 a 30 de Março, para Homem, Casual e Acessórios e de 4 a 6 de Abril, para Senhora, Criança e Acessórios.

Durante o encontro, Jiang Heng Jie avançou alguns dados sobre o sector na China: a elevada concentração da produção no sul e leste da China, com um número extraordinário de empresas, cuja dimensão é diametralmente oposta à das empresas europeias, uma vez que na China uma empresa com 1000 trabalhadores é considerada uma pequena empresa. O vice-presidente referiu, com particular entusiasmo, que «nos últimos anos tem sido crescente a apetência das empresas em investirem em novas tecnologias, cada vez mais difundidas e implantadas». Quanto ao mercado, segundo Jiang Heng Jie, apesar das marcas de casualwear europeias como Zara, Mango ou Esprit serem extremamente populares na China, «nós já estamos a apostar nas marcas chinesas, com a criação de um conceito que designamos por Top Brands. Estamos convencidos que este novo caminho vai ser um sucesso, porque o mercado é imenso e temos muito espaço para crescer». Quanto ao futuro das relações comerciais entre China e Portugal, Jiang Heng Jie sublinhou a necessidade das empresas estrangeiras estabelecerem um agente local, que seja, de preferência, distribuidor. Também aconselhou a não entrar no mercado como concorrente das empresa locais, mas como parceiros, uma vez que na opinião do vice-presidente, «as empresa estrangeiras que querem trabalhar na China devem pensar numa parceria, apresentando produtos e serviços complementares. A parceria deve ser encarada com um espírito de família, em que ambos possam partilhar não só os lucros mas também as perdas».

A parte da tarde foi preenchida com encontros bilaterais, permitindo às empresas participantes na Missão estabelecerem contactos exploratórios com players locais, analisarem formas de negociação local, recolherem informação qualitativa sobre o sector e canais de distribuição. O programa também incluiu encontros com jornalistas, representantes de alguns órgãos de comunicação social, como o China Fashion Daily ou o Fashion Times. Destaque para a presença do representante da embaixada portuguesa em Pequim e para a presença de um representante local da Lusa.

De seguida visitamos dois department stores, o Lufthansa You Yi Shopping e o Scitech Shopping Center, localizados na zona leste de Pequim, no sentido de analisar a concorrência, avaliar posicionamento de marcas, estudar canais de distribuição e analisar perfil do cliente final. Os department stores surpreenderam pela estrutura muito bem organizada, atendimento personalizado e uma grande variedade de serviços colocados à disposição dos seus clientes. Apresentavam uma grande variedade de artigos, já com uma forte presença de marcas chinesas de vestuário e têxteis-lar. Nota-se que as técnicas de merchandising ainda estão pouco desenvolvidas pelos distribuidores, notando-se pouca preocupação em criar um ambiente e uma exposição dos produtos no ponto de venda que favoreça a compra. Este aspecto não é surpreendente, uma vez que o conceito de livre-serviço e a multiplicação de produtos no mercado, que estão na base do merchandising, são factores muito recentes no comércio chinês.

No dia seguinte, a missão partiu em direcção a Ningbo, cidade localizada no nordeste da província de Zhejiang, a sul de Xangai, com pistas da presença portuguesa na Ásia uma vez que foi feitoria portuguesa entre 1518 e 1542.