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Missão Empresarial à China – Parte 2

A China quer moda

Depois da primeira etapa (ver Parte 1),  o terceiro e quarto dias da Missão Empresarial na China decorreram em Ningbo, cidade com cerca de 5, 4 milhões de habitantes, ocupando uma área de 9.365 Km2, localizada no nordeste da província de Zhejiang, a sul de Xangai e a sul da Baía de Hangzhou. É uma cidade muito diferente de Pequim, cujo forte dinamismo está focalizado na componente industrial e comercial. Recentemente foi incluída no «top 10», das cidades chinesas, no que diz respeito ao rendimento per capita, e em 2003, ocupava o quarto lugar do ranking, após Shenzen, Guangzhou e Shangai, com o valor de 1,724 US$.

A sua característica mais marcante é o facto de ser uma cidade que parece suspensa em água, uma vez que está situada na confluência de três grandes rios. Além disso, possui o principal porto da província, Beilun, com ligações a mais de 80 países em todo o mundo. Em 2003 teve inicio a construção da ponte sobre a Baía de Hangzhou que, com os seus 36 quilómetros, unirá Ningbo a Xangai em 2008.

A tarde de dia 21 começou com um encontro com representantes da Zhejiang Provincial Garment Industry Association, que demonstraram muito interesse na conversa com os representantes da Missão, uma vez que era o primeiro contacto com um Missão Empresarial Portuguesa. Realçaram o facto da província de Zhejiang ser uma das mais desenvolvidas no que diz respeito ao sector têxtil e de vestuário. «Em 2004, a indústria têxtil e de vestuário da região assumiu uma posição de liderança na China, no que diz respeito a indicadores como peso nas exportações, vendas e resultados líquidos. Por outro lado, o sector, devido ao seu rápido crescimento, sente actualmente necessidade de se reestruturar, essencialmente no que diz respeito à criação e sustentabilidade de marcas próprias, ao design e às novas tecnologias, e para evoluirmos, estamos a apostar e a investir no estabelecimento de parcerias com empresas estrangeiras, principalmente europeias. Neste contexto, creio que este momento pode ser uma oportunidade para as empresas portuguesas», afirmou Chen Guo Qiang, vice-presidente executivo da associação.

De seguida, assistimos a dois eventos: a 4ª edição do International Cooperation Symposium on Chinese Fashion Industry e o concurso de jovens estilistas, incluído na 2ª edição do China Youth Fashion Week.

O simpósio, organizado pela Ningbo Garment Industry Association, muito formal e exaustivo na forma, mostrou, no conteúdo, um sinal claro de qual o caminho que a indústria têxtil e do vestuário chinesa está a começar a percorrer. O tema do evento, «Times of Design», foi esclarecedor. E todas as intervenções, levadas a cabo por personalidades muito influentes e com competências altamente reconhecidas ao nível do sector na China, como Wu Hai-yan, professora na China Art Academy, ou Chem Min, director do centro China Fashion Design and Research, tiveram um fio condutor: a necessidade de apostar rapidamente em factores intangíveis, nomeadamente, moda, design, marca, qualidade. Assim, uma das conclusões do simpósio foi muito clara: os empresários do sector devem investir em parcerias de sucesso entre os criadores e a indústria, para que o sector ganhe rapidamente uma nova imagem em termos mundiais, imagem essa que deve ser original e que remeta para a cultura chinesa.

No concurso de jovens estilistas, incluído na 2ª edição do China Youth Fashion Week, jovens criadores, oriundos de todo o país, mostraram as suas propostas, num desfile cuja forma e o conteúdo fez lembrar a todos os participantes da Missão os desfiles europeus realizados há 20 anos atrás. O desfile foi acompanhado pela assistência e pelo olhar atento de um júri internacional, uma vez que incluiu um representante italiano. A falta de maturidade e de cosmopolitismo das propostas foi acompanhada pela falta de maturidade do publico, que aplaudia os representantes políticos convidados a entregar os prémios e «esquecia-se» de aplaudir os verdadeiros protagonistas do evento, os vencedores. Nada mais natural, uma vez que, na China, este tipo de iniciativas são ainda uma novidade.

O dia completou-se com uma visita rápida à China International Fashion Trading Fair, feira que já vai na sua 9ª edição, durante a qual tivemos oportunidade de ver como funciona uma das mais importantes feiras de moda da China. Com 2.200 expositores e cerca de 13.000 visitantes, pareceu-nos um evento ainda com uma fraca componente em termos de participação internacional, quer ao nível dos expositores, quer ao nível dos visitantes, mas muito interessante para podermos avaliar o mercado local. Todas as grandes marcas chinesas estavam presentes, nomeadamente a Youngor, Baleno, Oshmén, Tian, SharMoon, Giovekini, Peacbird, ou Progen, com stands que, em alguns casos, nos causaram um impacto muito positivo, revelando, por parte das empresas, um grande investimento na imagem e na promoção.

A maior fábrica de vestuário do mundo!

O dia seguinte começou com uma visita muito esperada. Tratou-se da visita a uma das maiores empresas de vestuário do mundo, a Youngor Group, detentora de uma das mais bem sucedidas marcas de roupa masculina do país, a Youngor. De reter que, em 2004, a Youngor Group ocupava a 49ª posição no ranking global das 500 maiores empresas chinesas.

Quando chegámos ao gigantesco complexo de produção de vestuário, o Youngor Garment City, inaugurado em Outubro de 2001, num investimento de 100 mil milhões de dólares e ocupando uma área de cerca de 300.000 m2, percebemos porque os números associados a esta empresa são impressionantes.

Criado originalmente como fabricante de vestuário em 1979, o Youngor Group tem vindo a diversificar a sua actividade, nos ramos do imobiliário, comércio internacional, investimentos bolsistas e transportes. Recentemente, começou a investir no sector turístico, tendo inaugurado, a 10 quilómetros de Ningbo um jardim zoológico, o Ningbo Youngor Zoo, com 126.67 hectares.

Emprega cerca de 25.000 pessoas, 20.000 das quais na área do têxtil e vestuário. Possui mais de 300 lojas próprias espalhadas por todo o país e mais de 1.600 corners. Com um crescimento de 450%, reportando ao ano de 1997, registou em 2004 vendas no valor 2 mil milhões de dólares e um resultado líquido de 1,08 mil milhões de dólares, tendo a componente de vestuário contribuído com aproximadamente metade do volume de negócios do grupo.

A produção anual de vestuário atinge números «irreais»: 10 milhões de camisas, 2 milhões de fatos de homem e os 30 milhões de artigos casualwear.

A maior parte das suas exportações, que representam 40% da produção total, têm como destino os Estados Unidos, Europa e Japão, produzindo marcas como a Polo Ralph Lauren, Christian Dior e Pierre Cardin. No entanto a sua marca própria, Youngor, é igualmente comercializada no Japão, América, Índia e Israel. No total, o grupo mantém relações comerciais com cerca de 100 países.

A Missão foi recebida por uma representante da empresa, Zheng Wei,  que após uma breve reunião, nos guiou numa visita ao complexo. Assim, podemos conhecer esta enorme base de produção integrada de vestuário, com as diferentes unidades fabris, e que funciona igualmente como sede de todas as operações do grupo chinês, com vários edifícios, adstritos aos diferentes departamentos (administrativo, o comercial, design, marketing), além de uma guest-house e de instalações para albergar os cerca de 13.000 trabalhadores que vivem no complexo, como dormitórios e refeitórios. Também pudemos visitar o show-room. Além de gigantesco, mostrava que a marca Youngor já deixou de vender camisas e fatos, mas passou a vender um conceito, perfeitamente estruturado, oferendo aos seus clientes uma gama completíssima de artigos de vestuário e de acessórios

Verificamos que todos os departamentos estão equipados com o equipamento e tecnologia mais recentes. Grande parte do seu equipamento é importado e automatizado ou semi-automatizado. Também ficámos impressionados e surpreendidos com o nível da organização da produção, que segue os mais exigentes padrões internacionais.

Em 2003, em parceria com empresas japonesas, a Youngor criou a unidade têxtil, composta pela Sunrise Dyeing & Finishing Co, a Knitwear Co, a Wool Textile & Dyeing Co e a Yike Technology Co. Em parceria com a Chinese Academy of Sciences, desenvolveu o «Digitalizing Project», ferramenta que o grupo considerou essencial, num momento em aposta no conceito de «quick-response». Por outro lado, também nos demos conta da importância crescente do Enterprise Technolgy Center, que aposta fortemente na investigação e desenvolvimento. No final da visita, a representante da Youngor afirmou que «a estratégia de desenvolvimento do grupo assenta na expansão internacional do seu negócio e na aposta na marca própria».

A etapa seguinte foi a visita à sede do Veken Holding Group. Não visitámos a área produtiva (o grupo possui dois complexos industriais, um em Ningbo e outro em Shenzen), mas apenas a sede do grupo e o show-room. O Veken Holding Group reúne 20 empresas e tem interesses em sectores muito diferenciados, como o imobiliário e o energético, e está cotado na bolsa de Xangai. É uma das 500 empresas mais competitivas da China e uma das 100 maiores exportadoras. É detentora das marcas Veken, para têxteis-lar, e Gioveken e V18, para vestuário de homem, senhora e casualwear, classificadas como «China Top Brands». Está presente em mais de 30 cidades da China com mais de 3.000 pontos de venda.

Em 2004 o grupo apresentou vendas de 1,6 mil milhões de dólares e um resultado líquido de 700 milhões de dólares, dos quais 600 milhões estão afectos à componente têxtil-lar e vestuário, apresentando uma estrutura vertical, com unidade de fiação, tecelagem, tingimento, estampagem e confecção. No sector dos têxteis-lar, cerca de 60% da produção é destinada à exportação, nomeadamente Japão, Europa e EUA, mas, como afirmou o presidente do Conselho de Administração da empresa, Zhou Zhen Yi, no decorrer da reunião que antecedeu a visita ao show-room, «estamos muito interessados em expandir as nossa exportações, nomeadamente para a Europa, incluindo, obviamente, Portugal».

 Marcando uma nova filosofia empresarial chinesa, Zhou Zhen Yi realçou a importância que o Veken Group dá à cooperação internacional, tendo já estabelecido parcerias estratégicas com empresas estrangeiras, como a Nike, a Lotto, a Puma, a Wal-mart e Itochu.

O lema do grupo é «Creating Happy Life», que segundo os responsáveis do grupo reflecte as preocupações de carácter ambientais e de segurança, sendo, já há algum tempo, uma empresa certificada na área da qualidade, do ambiente e da segurança.

No dia seguinte, a Missão partiu para Xangai, a maior e uma das mais importantes cidades da China.